Um dia andando pelo mundo, parei para pensar o porquê que eu gosto tanto de viajar. Cheguei à conclusão de que não é para descansa, espairecer
e muito menos para fazer inveja no Facebook com um foto em Genebra.
Assim
como toda arte, viajar não se trata de utilidade prática, mas sim de
necessidade. Ao sair de casa rumo à outra cidade, inicia-se um história cheia
de possibilidades. E é justamente no X da história que se encontra a resposta
do porquê o ser humano tem a necessidade de arrumar as malas e voar.
Peço
licença para dar uma aula e preste atenção, pois agora você vai saber o que
dizer quando alguém lhe perguntar o porquê de você não parar no lugar: a
história, ou narrativa, é um elemento que está presente nas artes, na vida, no
mundo. Roland Barthes já dizia: ‘não há, nunca houve em lugar nenhum povo algum
sem narrativa’. No teatro, no cinema, na televisão e até em pinturas... Lá está
uma narrativa para nos atrair, seja de amor, de dor, ou de terror. “A narrativa
está presente em todos os tempos, em todos os lugares em todas as sociedades; a
narrativa começa com a própria história da humanidade”.
Por
gostarmos tanto de narrativas, contamos causos, inventamos ficções e até
fofocamos. Tudo é história: oral, escrita, sonhada. E se a humanidade não vive
sem narrativa, então já não é ela um gostar, uma opção, é uma necessidade
humana e como tal deve ser direito de todo ser humano poder viver suas próprias
histórias.
Foi
com esse pensamento que Antônio Cândido defendeu a Literatura como uma necessidade
e por meio da mesma lógica que vejo que viajar é vital, prova disso é que foram
os viajantes que enriqueceram a narrativa universal. O que seria da História do
Brasil se não fosse Cabral? O que contaria Tio Sam aos seus netos se Américo
tivesse ficado em casa?
Realmente
os viajantes de ontem já contaram todas as histórias, porém hoje, viajar ainda
é necessário porque mais importante que contar, é poder viver a história. O ator
que está longe dos palcos não precisa se desesperar, basta viajar que automaticamente
se transformará em outra pessoa. Ao mudarmos de lugar, também mudamos de mundo,
de ar. Já não é a mesma história quando o avião decola e não há previsibilidade quando se
aterrissa em solo estranho.
Viajar
é a ação que nos permite criar enredos antes, durante e depois. É quando
mais fazemos roteiros, ainda que estes não cheguem a se concretizar. É a melhor
maneira de nos sentirmos pertencentes de outra época, de outra cultura, de outra
história que não é de fato a nossa.
Balela
quem acha que viaja pelo prazer do conhecimento. Aprender coisas novas é só
mais uma das vantagens. O motivo real para querer viajar é a necessidade que
sentimos de dar um tempo na vida real que temos. É como ir ao cinema para nos
vermos em outra cena, é como ler Machado para andarmos em outros tempos...
Claro
que essa necessidade na maioria dos casos é inconsciente. Mas lembre do
aventureiro que interpretou na trilha inca, do apaixonado que viveu na
Argentina, da comédia almodovariana que protagonizou na Espanha, do cavaleiro
medieval que fingiu ser em Portugal... Lembre-se de todas os papéis que
realizou em suas viagens e logo se dará conta que a busca de novos destinos
nada mais é que a necessidade de encontrar novos cenários, personagens e diálogos... Entre as artes que permitem desempenhar as principais estâncias da narrativa - imaginar, viver, contar - viajar é a mais desafiante.





Sensasional!
ResponderExcluirAdorei sua crônica, muito inspiradora! :)
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