"Nesse inverno decidi fazer algo de diferente. Decidi ficar num hostel barato, curtindo esse inverno maravilhoso de Santiago do Chile e dividindo com vocês esses meus momentos. A neve está geladíssima. E teve boatos de que eu ainda estava na pior, se isso é estar na pior, vixe-maria, o que quer dizer tá bem, né?" Deveria ter feito um vídeo paródia com esse texto.
Mesmo com nevasca, chuva, vinho amargo, abacate em excesso e vulcão cuspindo cinzas, posso dizer sem medo que esta foi uma das minhas melhores viagens.
Dizem os desatualizados que Buenos Aires é a capital francesa da América do Sul, isso pode ter sido há 15 anos atrás. Para quem realmente já foi à Europa, verá que a capital porteña não passa de uma cópia forçada: um teto ali outro acolá pode até lembrar Paris, eu disse lembrar e mesmo assim com muito esforço mental. Com uma arquitetura mais simples e mais original, até porque com tantos terremotos não dá pra ficar inventando muito, Santiago e todo resto do Chile possui a diversidade natural exata para agradar gregos, troianos e baianos. Se o discurso turístico da Argentina se baseia na forçada (ou falsa) igualdade europeia, o Chile destaca com humildade a sua natureza que ao vivo é mais surpreendente do que o catálogo turístico faz parecer.
Antes do avião pousar tive a primeira emoção ao passar pela Cordilheira dos Andes, tanto por ter visto neve, ainda que fosse de longe, como também devido à turbulência. É impossível não lembrar do filme "Vivos", o qual indico com afinco para quem nunca viu. Conta a história verídica de um avião que cai nas cordilheiras em pleno inverno.
Essa foto ao lado foi tirada na volta, já que na ida não havia tanta neve, porém a turbulência foi sofrida em ambos momentos.
Chegando ao aeroporto, paguei um transfer de 5.500 pesos chilenos, o que equivale a cerca de 25 reais, e que me deixou na porta do hostel. Também é possível ir de ônibus até o centro, mas como já estava cansado demais, morto de fome, zonzo e com a cabeça doendo, não quis arriscar. Cuidado com os taxistas que ficam gritando dentro do aeroporto, não se deixe convencer, o centro fica longe e se você pegar um táxi pagará no mínimo 60 reais.
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| Plaza de Armas. |
Instalei-me no novo e mal estruturado Che Lagarto, onde a diária custa de 17 a 36 dólares. Há tempos que a conhecida rede oferece seus serviços na capital, porém digo novo porque após o terremoto de 2010 ele teve que mudar de prédio e as instalações ainda se encontram um tanto quanto ruins.
Descansado e de banho tomado sai para buscar o que comer e foi aí que descobri que comida boa, barata e saudável no Chile é mais difícil do que programa bom na televisão aos domingos. Tudo que encontrava era cachorro-quente, batata frita e abacate, explico: pasta de abacate feito molho para colocar em cima de tudo que seja comestível. Todos os pratos existentes são derivações de salsicha, batata e abacate. Apesar de ser chato para comer não pensem que estou exagerando, conheci um paulista chamado Érick que chegara à Santiago com a sua amiga Emiliane do Perú e ele se revoltou com esta questão, segundo ele, até no deserto do Atacama havia mais opções do que comer.
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| Plaza de la Constituición e o Palácio de la Moneda ao fundo. |
Conheci um gaúcho gente fina chamado Maurício no hostel que me informou sobre um free tour histórico que percorria a pé os principais pontos da cidade. Tenho o costume de fazer o recorrido sozinho, mas com a possibilidade de conhecer mais pessoas e também de saber melhor a história de cada coisa, lá fui eu na Plaza de Armas fazer o free tour que na verdade não era tão free, pois ao final, o guia pede uma contribuição. De todas as formas valeu a pena. Ele falou sobre a colonização e independência do Chile, explicou sobre o Palácio da Moeda e levou o grupo de seis brasileiros e um colombiano pelos pontos de interesse..
Viña del Mar e Valparíso são duas cidades no litoral que ficam aproximadamente 140 km da capital. Há um city tour que o leva para conhecer as duas pelo preço de 18 mil pesos. Sim, eles trabalham com muitos zeros, porém basta cortar os dois zeros e multiplicar por quatro. Feita a conta, vi que estava muito caro e que não havia necessidade de pagá-lo. Eu, Nicoleta (Hungria), Páscual e Camila (ambos da Colombia), marcamos de ir por conta própria.
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| Eu, Nicoleta, Pácual e Camila no metrô de Santiago rumo à Valparaíso. |
Pagamos 570 pesos de metrô até a rodoviária e depois 4.700 da passagem de ida e volta de ônibus. Chegamos primeiro em Paraíso, onde as atrações que me chamaram atenção foram apenas a segunda casa de Pablo Neruda e a Casa das Forças Armadas, de resto parece muito com Salvador e como eu já morei a uma hora da capital baiana, não vi muita coisa que já não tivesse visto.
Para ir da rodoviária de Valparíso à casa de Pablo Neruda, aconselho pegar um coletivo, pois é uma ladeira interminável, depois pegar outro coletivo até o porto - há coisas bonitas para se ver em volta - e dali então com 1.700 pesos ir de metrô até Viña del Mar. O bom é que o metrô não é subterrâneo e assim se pode ver o Oceano Pacífico enquanto viaja por nada mais que 15 minutos. Lembrando que não é necessário voltar a Valparaíso, a passagem de volta à Santiago serve para qualquer ponto de origem.
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| Casa de Pablo Neruda em Valparaíso. |
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| Ateliê do escritor. |
Casa de Pablo Neruda - La Sebastiana
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| Casa das Forças Armadas. |
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| Vista do metrô de Valparaíso à Vinha del Mar. |
Ao chegar em Viña gostei logo de cara. O metrô nos deixa na estação do centro, onde há um shopping e vários restaurantes, por fim consegui comer uma coisa normal: macarrão com molho de tomate e carne. Viña é bastante arborizada, lá tem o Relógio de Flores, a Quinta Vergara, estátua Moai, a Costanera, mas de tudo isso o que eu mais pude ver foi beijo na boca. Nem mesmo em cima da Torre Eiffel vi tantos casais se beijando. Para piorar, a essas altura eu já tinha me perdido do grupo, na verdade, nos perdemos ainda nas ladeiras de Valparaíso, então tive que encarar sozinho o romance descarado de Viña del Mar.
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Relógio de Flores.
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Quinta da Vergara.
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| Moai e museu. |
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| E para provar: amplie a foto e veja quantos casais. Jardim da Quinta: lindo, tranquilo e romântico. |
Maurício, o gaúcho, juntamente com mais duas irmãs que conheci no tour free de Santiago, foram para o sul, mas precisamente para a cidade de Puerto Varas, onde veriam um vulcão entre outras coisas. Fiquei muito tentando a ir, porém como meu roteiro era outro e estava com medo de perder meu avião, pois nunca se sabe quando uma nevasca cairá, resolvi não ir. Logo na manhã do dia seguinte veio a notícia de que o bendito vulcão entrou em erupção. Maurício lá estava e me contou no Facebook que o evento foi tão bonito que nem sequer teve medo dos malefícios da cinzas, ficou tirando fotos e me concedeu a gentileza de poder dividir com vocês uma delas, além de conceder uma entrevista aqui no blog.
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Maurício no momento em que o vulcão Puyehue entrou em erupção.
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Quando cheguei de Viña del Mar já por volta das oito horas peguei minha mochila no Che Lagarto e fui para outro hostel chamado Florestal, pois devido a um erro do Che esqueceram de reservar o meu quarto por duas noites. O Hostel Florestal era mais caro, mais limpo e com uma estrutura melhor, porém nada que me prendesse ao ponto de querer ficar por lá todas as noite, então passei somente as duas diárias e em voltei ao Che Lagarto.
No dia seguinte, acordei razoavelmente tarde, às 10 da manhã, meus lábios estavam sangrando devido o frio. Segundo a cozinheira, com quem bati o maior papo, a temperatura chegou a zero. Após tomar o café da manhã e lavar a louça obrigatoriamente, peguei o metrô em direção a Estação Central de ônibus e de lá fui para o Santuário que fica um pouco antes da cidade Los Andes.
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| Entrada do Santuário Tereza de los Andes. |
Neste santuário há uma igreja, o corpo de uma famosa freira canonizada, um mosteiro, uma via Crucis... Bom, dá para passar uma tarde explorando, ainda mais que fora do tal lugar há ainda uma ferinha muito engraçada e com lembrancinhas baratas com direito a placas no estilo: Se puede tocar, pero no robar. E do lado da feira tem um cemitério em meio às montanhas, o qual, por mais mórbido que possa parecer, é muito bonito.
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Montanha, Flores e Mortos.
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Na volta para Santiago conversei a viagem toda com uma chilena muito simpática. O povo chileno é animado feito o brasileiro, em nada lembra a rabugisse dos porteños de Buenos Aires e nem dos algarvianos de Portugal.
No dia seguinte enfim consegui conhecer os museus da capital e explorar melhor os cerros, dos quais destaco o de Santa Lucia. O museu de Belas Artes me surpreendeu positivamente e a outra casa de Pablo Neruda, La Chascona, achei mais interessante que a de Valparaíso.
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Entrada do Cerro Santa Lucia.
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Bar da casa de Pablo Neruda.
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Durante todo o dia não parou de chuviscar, o que achava ótimo, pois meu passeio seguinte seria o Valle Nevado e quanto mais chovesse mais neve. Conheci mais três brasileiros no hostel, Rogério e Andreza, um casal de professores, e Rafael, outro professor. Com este quarteto conseguimos completar a cota para formar um city tour às estações de ski e lá fomos nós. Antes das 64 curvas fechadas até o pico da montanha, as quais fizeram com que todos passassem mal, inclusive eu que tive que segurar o intestino delgado na garganta, paramos para alugar botas e calças, de brinde veio as luvas e os óculos. Estávamos prontos.
A neve era tanta que antes de chegar fizemos uma parada para pôr correntes nos pneus e foi nessa parada que os quatro professores mal pagos (porque isso todo professor é) viram a neve pela primeira vez.
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Rogério, Andreza, Rafael e eu segurando o primeiro boneco de neve da nossa vida.
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Cinco minutos a mais e chegamos no tão sonhado Valle Nevado que, peço desculpas desde já pelo trocadilho, estava realmente nevado. Tonelas e mais toneladas de neve fofa e o melhor era a sensação da neve caindo no rosto. Levamos besteiras para comer compradas no Supermercado, pois um almoço lá custa os olhos da cara de um alienígena. Mas a emoção de estar andando, ou melhor, caindo, atolando e tropeçando na neve era tanta que nem lembramos de comer. Desci de snowbody (seja lá como aquela prancha se chame), Andreza e Rafael rolaram pela neve feito pilha vencida em congelador de pobre e Rogério caminhou mais que um sobrevivente dos filme "Vivos".
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Como diria aquele antigo personagem da Praça é Nossa: Desci numa veloooocidade!
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Teleférico.
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Hotel do Valle Nevado e eu segurando neve. Dá um desconto, alegria de criança.
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Fico com frio só de olhar essa foto.
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Depois de me esbaldar, entrar neve na cueca, brincar de guerra de bola de neve e todas as estripulias que você possa pensar com a palavra neve, fomos para Farellones, outra estação de esqui, mas que também é um povoado. A visão que temos do ônibus é de embalagem de chocolate suíço. Depois seguimos para Colorado que também é uma linda cidade, na qual o frio começou a piorar e a sensação, segundo o site, era de 11 negativo. Já não dava para aguentar, era hora de encarar as 64 curvas fechadas novamente e orar para a bile não sair pela boca.
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| Em Farellones - Gelo no teto, gelo nas botas. |
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| Em Colorado, gelo nos carros da Suzuki. |
Gostei tanto da neve que se o city tour não custasse 18 mil, teria ido de novo. Ao voltar para o hostel, cai na cama e de tão cansado cochilei. Não demorou dois minutos para começar a sonhar advinhem com o quê? Neve.
No outro dia, ao acordar ainda mais tarde, às 11 da manhã, pois o frio estava intenso, fui comer num lugar no qual havia descoberto na noite passada que faziam fetuccini com atum. Para quem possa interessar, o nome dessa rede de restaurantes é Telepizza, o Rogério e a Andreza me falaram que a pizza é mais terrível que os filmes do Exorcista, então nem experimentei, mas o fetuccini de atum é bom demais.
Após o almoço, fui de metrô até um lugar muito, mais muito longe, ao total foram 27 estações. Gastando 570 pesos de metrô e 400 de ônibus, algo em torno de quatro reais, cheguei na vinícula "Concha y Toro". A entrada custa sete mil, ao total o passeio me custou 9 mil, sendo que o city tour para lá é 18 mil, então compensa e muito ir por conta própria. Além de conhecer a história da empresa, você tem direito a duas degustações de vinho.
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Vinhas e montanhas.
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Uma das atrações de Concha y Toro é o Casillero del Diablo, uma adega no subsolo, a mais antiga do Chile. Segundo a guia ,este é o lugar mais seguro para se passar um terremoto, pois com tantos que já tiveram nesse país, inclusive no dia que eu cheguei teve um muito fraco, nunca caiu nenhum ladrilho. Em dado momento, a guia fecha as portas da adega e deixa o grupo de turistas no escuro com as luzes piscando e uma voz grossa falando sobre a lenda do vinho do diabo.Confesso que dá um pouco de medo. No final do tour, você ganha de presente a taça com a qual degustou os vinhos.
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| Dentro do Casillero del Diablo. |
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| Vista do metrô. |
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| Confraternização no hossttel após dança típica. |
O chile é pequeno em largura, grande em comprimento e o seu povo é rico em simpatia. Foi uma viagem inesquecível, tanto que acredito que este é um dos maiores posts já escritos no blog. Ver as montanhas cobertas de neve de dentro do metrô é algo incrível, conhecer a cultura diversificada é fascinante. Ah, fiquei com vontade de trazer o Chile na mochila. Outro trocadilho: mochile no Chile.
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Carregando a mochila pelas ruas de Santiago.
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adorei o post , o que vc achou da segurança, lá é perigoso sair andando com cara de turista , ou é igual ao Brasil , bjokas valéria
ResponderExcluirOi, Valéria. Em Santiago do Chile, acho que não tem problema andar só até umas 9 da noite no centro, depois disso fica um pouco tenso. Tem um bairro de bares que esse parece mais seguro à noite, mas é bom ir de táxi até lá. Só cuidado com a bolsa, ouvi relatos de mulheres turistas que tiveram suas bolsas furtadas. O lugar que achei mais perigoso no Chile foi Valparaíso, é bom achar outros turistas para não ir só. Beijos e volte sempre a comentar no blog. rsrs
ResponderExcluirOlá!! Adorei o post!!
ResponderExcluirEstavamos planejando ir no fim de setembro pra Santiago (eu e meu namorado) mas passaríamos apenas umas 4 noites, e já fiquei sabendo que não pegaríamos a temporada de esqui aberta =/ o que me chateou.
Você sugere um tour por Santiago para um casal que não gosta muito de frio? Não sei se vale a pena essa trip tão longa pra passar tãopouco tempo, já que dificilmente daria tempo de ir até o litoral...
Sugestões?
Valeu, abração colega :)
Oi, Alessandra. Que bom que você gostou do post. Então, daria sim para você ir ao litoral, pois de Santiago até Valparaiso e Vinha del Mar são apenas uuns 70 km, se não me falha a memória. É perto.
ResponderExcluirAgora não sei se em setembro daria para tomar banho, se esta é a intenção. Pois lá sempre é um pouco mais frio que no Brasil.
Acho que o maior charme de Santiago é mesmo o Valle Nevado. Mas acho que vocês iriam gostar de Viña del mar, poderiam dormir uma noite lá. É bem romântica. Ou seja, no primeiro dia vocês conhecem um pouco de Santiago, no segundo vai para Valparaíso e dormem em Viña del mar. No terceiro voltam para Santiago para conhecer melhor. E o quarto dia é a despedida.
Agora se a viagem para Lima, no Perú, estiver no mesmo preço, eu indicaria ir para Lima. Lá dá para passar 4 dias sem se entediar. Abraços.
Sim, o Chile é um lugar que todos recebem de braços abertos, mas o Uruguai é mais.
ResponderExcluirTive o prazer de ficar num apartamento na rua Monjitas, que é a rua do Cine Pornô dos neons rosas haha, na Plaza de Armas.
Já valparaíso, não me agradou muito, o que salvou foi a parte histórica. Só também.
Ah, essa cidadezinha, El Colorado, é divina, cheio de sobe e desce (ok, é na montanha! Rs)
Clown, concordo com você. Valparaíso, ao menos para mim, foi bem decepcionante.
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