quinta-feira, 9 de junho de 2011

Cinema - Você vai conhecer os filmes de Woody Allen

Certa vez, caminhando pela Avenida Corrientes em Buenos Aires, vi que estava em cartaz um dos recentes filmes de Woody Allen. Eu que sou fã e não tinha nada melhor para fazer, comprei o ingresso de 15 pesos (algo por volta de 6 reais) e naquele cinema antigo, numa sala que havia apenas idosos e um mendigo sentado na minha frente, pois cultura na Argentina é para todos, assisti a "Você Vai Conhecer o Homem dos seus Sonhos". Caso não soubesse que o diretor era quem era, provavelmente não iria assistir a algo com este titulo, afinal de contas, não é todo o mundo que sabe fazer comédia romântica, além do quê, o gênero não é dos meus favoritos.

O emblemático Woody Allen.

Apesar de toda a consagração, confesso que passei muito tempo sem interesse na filmografia de Woody, pois fiquei traumatizado com o insosso "Igual a Tudo na Vida" que é de 2003, então achava que as obras anteriores deviam ser ruins. Para confirmar meu pensamento, vi algo de " Tudo o que Você Queria Saber sobre Sexo" ... E também não me chamou atenção. Diálogos verborrágicos ao extremo, o conteúdo parecia analítico/didático, etc. Mas eis que um dia, alugo meio que sem querer querendo o gracioso "Melinda e Melinda", de 2004, primeiro filme de Allen após o rompimento com a DreamWorks. 

O filme começa na mesa de um bar, onde amigos discutem a diferença entre o drama e a comédia. A partir de então se narra a trajetória da mesma personagem vista pelo prisma dos dois gêneros em questão para provar que não tem diferença entre um e outro, exceto a maneira como você vê as coisas. Independente da parte epistemológica, a história é de fato interessante. Gostei ao ponto de querer acompanhar os próximos trabalhos.

Melinda e Melinda. Nota 8. Leve e inteligente.
Mesmo idoso, nascido em 1935, Allen é um diretor bastante produtivo e no ano seguinte ao "Melinda" lançou "Match Point", estrelado por Scarlett Johansson (Moça com brinco de pérola) e Jonathan Rhys Meyers (The Tudors). Deixando New York e gravando na Inglaterra, o primeiro filme com a parceria da BBC Films provou que eu estava subestimando a genialidade do cineasta.

Chris é um alpinista social que acaba se envolvendo com a cunhada de sua esposa, a relação passa dos limites e com medo de que ela acabe contando tudo sobre eles, resolve matá-la. Para que ninguém descubra seu crime é preciso sorte, este é o tema principal. Com citações a Dostoievski e um enredo convincente, o drama de Woody ganha o público e a crítica, tanto que mesmo fazendo pouco caso do Oscar, a academia o indicou para Melhor Roteiro Original. Merecia ter levado a estatueta, pois um drama tão envolvente e bem amarrado com este só havia visto nos tempos áureos de Almodóvar.

Ponto Final - Match Pont. Nota 10. Tão surpreendente quanto a sorte.
Em 2006, Allen volta às comédias com "Scoop - O Grande Furo", além de escrever e dirigir, nesta produção ele também interpreta ao lado de Scarlett que se torna de vez a sua musa inspiradora.

Sondra Pransky é uma estudante de jornalismo que está visitando alguns amigos em Londres. Ela vai ao show de mágica de Sidney Waterman que a chama ao palco para fazer o truque de desmaterialização. Sondra entra em uma caixa, mas enquanto o truque acontece, surge para ela o espírito do repórter Joe Strombel (Ian McShane), morto recentemente, que lhe oferece um grande furo: a identidade do assassino do tarô. Ele diz a Sondra que o assassino é Peter Lyman (Hugh Jackman), um aristocrata inglês. Sondra e Sid decidem investigar Lyman, mas ela acaba se apaixonado pelo suposto assassino.

O filme mistura romance, suspense e comédia de forma instigante convidando o espectador a desvendar o mistério. Não considero a Scarlett uma grande atriz, porém ela funciona muito bem nas mãos de Allen. As cenas em que os dois contracenam juntos possuem tamanha química que a amizade entre o sessentão e a garota atinge um alto patamar de naturalidade e simpatia.

Scoop - O Grande Filme. Nota 9. Investigação empolgante.
Voltando ao drama com menos brilhantismo que Match Point e com o pessimismo de outrora, em 2007 chegou às telonas "O Sonho de Cassandra". A crítica foi dividida, provavelmente devido ao fato de ser um filme trágico, ideologia contrária ao otimismo americano.

Dois irmãos estão passando por dificuldades financeiras até que o tio rico lhes fazem uma proposta: matar o seu inimigo em troca de muito dinheiro.
Mesmo não sendo tão bom quanto o último drama, este também tem o seu valor, o único ato falho é que Allen focou a teoria/filosofia do sonho de Cassandra em detrimento das personagens. De mais a mais, nem todas as platéias estão ápitas para aplaudir metáforas e significações, o ditadismo comportalmental está presente de maneira mais evidente, o que acarreta menos força a este que poderia ter sido sinônimo de intensidade. É um filme acima da média em comparação geral, porém se classifica como razoável referente ao que se espera de Allen.

O Sonho de Cassandra. Nota 8,5. Reflexão tensa.
Da nova e boa safra, este foi o último drama e os que seguiram foram comédias. "Vicky Cristina Barcelona" não é exatamente um poço de originalidade, tanto que a compararam ao mundo Almodóvariano, pois além de se passar na cidade titulo, havia no elenco dois pupilos de Pedro Almodóvar: Javier Bardem e Penélope Cruz. Scarlatt mais uma vez apareceu fazendo a protagonista, porém foi Penélope quem roubou a cena, as atenções e o Oscar.

Vick e Cristina vão à Barcelona passar as férias, conhecem então o típico espanhol sedutor vivido por Javier. Naturalemente, elas se envolvem com ele e como pouco triângulo amoroso é bobagem, soma-se o noivo de Vick e a amante ciumenta do garanhão. A confusão está formada, como diria o narrador da Sessão da Tarde, pois a personagem obsessiva de Penélope é visceralmente doida, descontrolada e todos os ápices do filme se devem a ela.

Mesmo Woody sendo maldito aos olhos da academia, seria impossível não agraciar Penélope Cruz com o Oscar de melhor atriz coadjuvante. Além dela, outro trunfo da película são os diálogos cômicos. Entre as comédias de Allen, esta se encontra entre as melhores, juntamente com "Meia-noite em Paris" e "Para Roma com Amor".

Vicky Cristina Barcelona. Nota 9,5.  Mistura deliciosa.
A produção sucessora veio com um otimismo atípico, em "Tudo Pode Dar Certo", de 2010, Allen mostrou que nem só de amores mal resolvidos e expectativas frustradas vivem suas histórias. Boris é um ancião intelectual que se casa com uma jovem caipira. O conflito entre a inteligência e a ignorância é superado pelo amor, porém ainda há o empecilho físico.

Com debates em forma de diálogos sobre a diferença da alienação e da genialidade, Woody tenta traçar o mapa das relações entre pessoas que se gostam, mas que possuem ideologias e visões diferentes do mundo.
O filme sustenta uma narrativa quase de autoajuda. Para os leitores do gênero, ou espectadores simpatizantes com a superação afetiva alheia, é um prato cheio. Não esperava de Allen uma comédia otimista e provavelmente não teria gostado muito se houvesse sido feita por outro diretor, porém para quem acompanha suas produções anualmente, essa mudança de humor se tornou positiva devido ao fator surpresa.

Tudo Pode Dar Certo. Nota 8. Clichê com estilo.
Quando entrei naquela simples sala de cinema para assistir a "Você Vai Conhecer o Homem dos seus Sonhos", pensei que Allen continuava com sua vibe otimista, ainda mais porque o titulo, como havia dito antes, indica isto. Ledo engano. Algo que todos os bons escritores sabem fazer, mas que poucos diretores bons sabem, é manipular o signo e o significante. A manipulação fílmica é feita de forma astuta e o fator surpresa outra vez aparece através do tom ideológico, que desta vez não é nem positivo e nem pessimista.

A história agnóstica é dividida entre um casal de idosos que se separa e um casal jovem em crise conjugal.
O gancho se encontra numa mescla de ideologias e religiões, das quais Woody simplesmente lava as mãos.
É divertida, inacabada, reflexiva e ainda se pode ver Naomi Watts interpretando um ser humano normal sem correr pelas ruas com revólver. Já Antonio Banderas está mais para figurante mesmo.

Indico toda esta nova fase de Woody Allen, alguns são melhores que outros, porém todos valem a pena.

Você vai conhecer o homem dos seus sonhos. Nota 8,5. Divertido e despretensioso.

2 comentários:

  1. E os filmes mais antigos dele? Como "Contos de nova york", "poderosa afrodite", "cenas de um shopping", e o mais clássico dos claássicossss "Noivo neurotico, noiva nervosa"??? São os melhores filmes dele.

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  2. Com certeza. É que neste post, quis falar dos filmes mais recentes. Mas ainda farei uma lista sobre os filmes antigos que o consagraram.

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