terça-feira, 16 de agosto de 2011

Buenos Aires - Morar e Estudar



Em 2010 cogitei a hipótese de fazer pós-graduação em Buenos Aires, pois ouvi boatos de que havia muitos brasileiros estudando na capital porteña, porém como inacreditavelmente surgiu a oportunidade de ir para a Europa deixei a Argentina de lado, afinal de contas, a Europa sempre foi o meu sonho. Fui, voltei, trabalhei e retornei a cogitar a ideia de estudar no país vizinho. Para ser sincero, após a ótima experiência de ter ido ao exterior, desta vez eu estava mais interessado em continuar a minha peregrinação internacional do que em estudar. De todas as maneiras, juntaria o útil ao agradável.
Na Torre de Babel feita de livros.

Comecei a procurar moradia na Argentina do mesmo modo que procurei na Espanha e para minha surpresa foi muito mais fácil encontrar um bom alojamento em Sevilla do que em Buenos Aires. Pesquisando pela internet achei tudo caro. As residências estudantis me pareciam sem privacidade, os hosteis sem segurança, as casas de família desorganizadas e as pensões distantes do centro. E os preços, volto a repetir, uma facada. Na Espanha pagava 600 reais e vivia praticamente em uma mansão; era tratado como rei; quarto individual com TV, computador e internet; troca de lençóis; troca de toalha de banho; limpeza duas vezes por semana, três refeições por dia mais a merenda; passavam e lavavam minhas roupas uma vez por semana; não pagava água, não pagava energia.

Após pesquisar por quase um mês e não encontrar nada que realmente me parecesse bom, achei um anúncio onde se dividia um imenso apartamento no centro com  três mulheres e um homem.  Eu teria um quarto próprio e as contas já estavam incluídas no aluguel. Não era casa de família e nem república, era realmente para dividir o aluguel com outros estudantes. Fiquei com medo porque nunca dividi apartamento, mas se era para estar na chuva, então resolvi arriscar, pois queria me mudar o quanto antes.

No mesmo dia que encontrei esse anúncio consegui falar com o dono, o qual pensava eu que também residia no local. Pareceu-me uma pessoa sensata e na minha ânsia de viajar logo comprei a passagem pela Pluna que estava em promoção. Seis dias depois, embarquei.

Ao chegar com minha mala de 25 quilos fiquei com medo de ir direto para o apartamento. Era melhor ver primeiro, até porque eu tinha outras opções de alojamento. O táxi me deixou num hostel horrível próximo ao Obelisco. Pensei em passar minha primeira noite lá para resolver onde moraria com mais calma, mas quando vi a sujeira do lugar, apenas deixei minha bagagem e não fiz o check-in.

Peguei o metrô e fui primeiro averiguar a casa de uma médica que estava alugando um quarto. Tive um susto. O quarto mais parecia uma jaula de passarinho, em nada me lembrava o quarto da Espanha. Na verdade, parecia mais um chiqueiro. Custava 2 mil pesos, ou seja, além de ser mais caro, não tinha sequer a metade dos serviços incluídos. Descartei. De lá fui ver a casa do rapaz com quem dividiria o apartamento.

O apartamento realmente era grande, pareceu-me limpo, o meu quarto era imenso e o dono da casa me revelou que ele não morava lá. Eu iria dividir o apartamento só com mulheres. Essa ideia me deixou mais empolgado, bendito sois vós entre as mulheres. Pena que a mais bonita, que era a versão morena de Shakira, namorava o dono da casa. Fui buscar minha mala no hostel chechelento e não paguei nada, passei minha primeira noite em Buenos Aires já no apartamento.

Tita (moradora da casa) e eu. Tira o olho que ela é a namorada do dono da casa.

Para resumir a ópera da moradia. Você que pensa em morar lá tem estas opções: casa de família que varia entre 1000 a 2000 pesos, dependendo do quarto. Pensão estudantil que varia entre 800 a 3000 pesos. Dividir apartamento com amigos que varia entre 400 a 1500 pesos, depende da quantidade de gente e do apartamento com quem vai dividir. E você pode também alugar um monoambiente mobiliado entre 450 a 600 dólares. Claro que os preços variam de acordo com a geografia também. Centro, Palermo, Recoleta, San Telmo e Puerto Madero custam caro. Já bairros como Congresso, La Boca e Boedo custam menos, porém logicamente são considerados perigosos, distantes... A vantagem é que supermercados e restaurantes nestes bairros são mais baratos.

Se para encontrar a moradia perfeita em Buenos Aires é uma mão de obra, o mesmo não pode ser dito sobre os estudos. No post anterior sobre BsAs critiquei a comida, os preços, a antipatia dos porteños, o trânsito... Mas em relação ao lado acadêmico só tenho elogios rasgados. Além de você encontrar todo o tipo de curso técnico, profissionalizante, graduação, pós-graduação, a cidade oferece inúmeras atividades culturais, intelectuais... E o que é melhor, tudo em preços simbólicos, alguns até mesmo de graça. Nos meses em que estive lá fiz 5 cursos.

A maioria dos estudantes brasileiros que vivem em Buenos Aires cursam medicina, pois na UBA é de graça. A única dificuldade é com a documentação para ingressar, muitos até buscam assessoria em busca de orientação, mas é possível consegui toda a documentação por conta própria, é só ter calma e paciência. Burocracia é chata em qualquer lugar do mundo. Para entrar na UBA é preciso passar no CBC, que não é a mesma coisa de um vestibular. É como se fosse o primeiro ano da faculdade, no qual você precisa passar em seis matérias para continuar. O problema é que para muitos é difícil passar, porém não impossível.

Nas faculdades particulares, o processo é mais rápido e a mensalidade não é exorbitante como no Brasil. A mensalidade numa faculdade de medicina particular varia entre 600 a 2 mil pesos, convertendo em reais, a variação é de 300 a 900 reais.

Faculdade UBA - Campus de Direito.

Para quem quer estudar espanhol, há inúmeras opções. Citarei alguns centros dos quais tenho conhecimento. O CUI é um centro de idiomas que tem três unidades, ele é uma extensão da UBA. Estudei na unidade da rua Junín. Pelo que sei, esta é a unidade mais cara, não me perguntem por quê. A vantagem de estudar no CUI da rua Junín é que quase não há brasileiros por lá. Claro que eu gosto dos meus conterrâneos, mas quando se estuda um outro idioma é bom não ter contato com falantes da mesma língua. Eu entrei no nível 6 e era o único brasileiro da turma, havia um americano e o resto eram britânicos. Como tenho planos de ir a Londres quando Deus ajudar, fui logo tratando de ficar bem amigo dos ingleses.
Outro ponto positivo do CUI são as professoras, digo no feminino, porque as três mestres eram mulheres. Cada uma no seu estilo e todas com muita sabedoria e didática. As professoras Cláudia e Julieta eram atenciosas e abertas às dúvidas, além de ensinar com propriedade. Mas quero ressaltar os talentos da professora Marcela, da qual virei fã e baba ovo de carteirinha. Marcela era engraçada, cheia de histórias, ensinava e encantava ao mesmo tempo. Ela vira amiga de todos os alunos. Num domingo ocioso, nós dois saímos para trocar experiências, foi um dia bastante proveitoso e do qual me lembro com saudade e alegria. Ella es casi una brasileña.

Na sala de aula do CUI. Todos da Inglaterra, excerto eu e a professora.
Dominic, Marcela (la profesora), yo, Emily, Lottie, Jonathan, Beth.

Excursão do CUI à Villa Ocampo, San Isidro.
Site do CUI: http://www.cui.edu.ar/

Outro centro é a Escuela Babel, eles oferecem tanto cursos de espanhol tradicional como também cursos voltados para o comércio exterior, literatura, espanhol jurídico, etc. O preço é um pouco salgado, pois o centro é voltado para estrangeiros, assim sendo, a depender do curso, a semana custa entre 90 a 150 dólares. A quantidade de brasileiros é intensa, mas também há presença de pessoas de outros países. Também estudei na Escuela Babel fazendo o curso de Literatura e posso dizer que além de ter uma ótima estrutura para o ensino, o centro oferece um ótimo suporte de informações em geral. Os professores são um caso a parte, destaco a líder Daniela, uma das argentinas mais simpáticas que tive o prazer de conhecer. Acredito que a grande vantagem do centro é a forma como você é tratado. Os professores são bastante acessíveis e se tiver alguma dúvida sobre a cidade, sobre moradia ou até mesmo se quiser desabafar, a Daniela vira psicóloga e ouve tudo com a maior atenção e preocupação. Tratamento nota dez.

 Carol (Jornalista de Brasília e colega do curso de literatura), Daniela e eu. Certificado do curso.

Galera comemorando o aniversário de uma estudante brasileira.
Site da Escuela Babel: http://www.babelargentina.com.ar/

A Casa do Brasil é mais um centro de idiomas, ensina tanto espanhol para os brasileiros, quanto português para os argentinos. As instalações são ótimas, muito bem localizado, a mensalidade é justa e é a mais acessível de todos os outros dois cursos citados. Não estudei lá, mas ensinei. Isso mesmo. Os professores que ensinam espanhol são argentinos, mas os que ensinam português são brasileiros formados em Letras.

A coordenadora Cibele me deu a oportunidade e o privilégio de trabalhar neste que é um centro de dar orgulho ao Brasil. Só não continuei mais tempo ensinando lá porque meses depois de ter dado uma aula de léxico e costumes baianos me deu tanta saudade da Bahia que resolvi voltar. Indico sem medo, é um centro sério e a gente se sente em casa. Apesar da quantidade de conterrâneos, a vantagem é que os porteños que estudam lá são apaixonados por nós brasileiros, assim dá para fazer amizades sinceras com os hermanos facilmente.

 Eu e meus alunos argentinos. Sala animada que adora o Brasil.
Site da Casa do Brasil: http://www.casadobrasil.com.ar/

De todos lugares que se tem para estudar em Buenos Aires, há um especial em que se torna obrigatório nem que saiba uma visita. O centro Rojas, na rua Corrientes, oferece uma infinidade de opções, cursos que vão de teatro, idiomas até turismo. Os preços são inacreditáveis. Variam de 80 a 400 pesos. Lá fiz dois cursos: Dirección teatral e Investigación actorial. A duração dos cursos variam de 3 a 4 meses. Pode ter certeza: não importa qual seja seu interesse, no Rojas, você irá encontrar um curso que lhe agrade. Vale lembrar que o centro também é uma extensão da UBA.

Pessoal do grupo de Dirección Teatral. Atores e diretores esplêndidos.
Site do Rojas: http://www.rojas.uba.ar/

No Brasil, o estudo na área de multimidia é caríssimo, mas em Buenos Aires há uma escola chamada Da Vinci, onde é possível fazer tanto graduação quanto cursos por preços bastante em conta. Fiz um curso de edição de video: Premiere. O professor era editor da emissora Telefe. A estrutura da faculdade é ótima, bons computadores para todos os alunos. Para quem tem interesse na área de criação áudio-visual é uma mão na roda.

Pessoal do curso de Edição de Video: Premiere.
Site da Faculdade Da Vinci: http://www.escueladavinci.net/

Poderia estender ainda mais o post falando de outros centros e faculdades, pois em Buenos Aires realmente o estudo é de primeiro mundo e o custo, em geral, é acessível a todos. Mas como tudo na vida, existe os prós e os contras, não considero BsAs o melhor lugar para morar, porém há que aplaudir os milhares de brasileiros estudantes que continuam lá lutanto pelo sonho de se formarem médicos, advogados, publicitários, atores, diretores, etc. Termino o post com a foto de quatro jovens que moram na mesma casa e que estudam medicina. Jovens batalhadores, amigos inesquecíveis, quase vizinhos, os quais mesmo estudando feito loucos sempre me davam atenção quando eu batia na janela.

A Casa dos 5 doutores. Dyany, eu, Thayana, Luciano e Rebeca. Está faltando Ronei, o outro médico morador da casa, e também o Marzio e a Daniela que são os médicos agregados.

1 comentários:

  1. Muito obrigada pelas suas palavras. Eu nao acredito o que voce fala. Eu tenho saudade de seu humor.
    Beijinhos.

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