terça-feira, 4 de junho de 2013

Entrevista na Alfândega: Evelyn Priscila (Iêmen)

Olá. Seja bem-vindo ao primeiro “Entrevista na Alfândega”. Antes que pensem que eu enlouqueci de vez, vou explicar do que se trata esta nova sessão do blog. Quando criei o “Uzi Por Aí”, meu objetivo era relatar sobre minhas viagens e reunir minhas produções críticas e artísticas, fosse elas no campo teatral, literário, cinematográfico, televisivo...
Embora o blog possua um conteúdo mais diversificado que as culturas do Brasil, achei que estava faltando um espaço onde eu pudesse compartilhar um pouco das tantas pessoas interessantes que conheci nesta minha peregrinação cigana pelo mundo.

Assim sendo, passarei a entrevistar viajantes que estão espalhados por este planeta, a fim de obter informações úteis sobre turismo, descobrir segredos íntimos e invadir a vida pessoal, afinal de contas, a vida alheia não serve apenas para gerar fofocas, mas sobretudo para nos fazer refletir sobre nossa própria existência. 
Depois de toda esta filosofia, que mais parece uma justificativa para a minha indiscrição, só me resta agora apresentar a nossa primeira entrevistada. 

A entrevistada Evelyn Priscila em Kawkaban.
Evelyn Priscila é uma das pessoas mais centradas, organizadas e gentis que tive o prazer de conhecer. Com 33 anos e muito bem casada, Evelyn já conhece países de dar inveja a muito mochileiro metido que tem por aí (eu sou um deles): Tailândia, Emirados Árabes (incluindo Dubai), e Líbano são alguns dos lugares pelos quais já passou. Hoje, ela e seu marido Tomaz vivem no Iêmen, país do Oriente Médio que eu só conhecia através do filme “Amor Impossível” (Salmon Fishing in the Yemen), o qual concorreu ao Globo de Ouro 2013 como Melhor Filme de Comédia/Musical.

Bom, é justamente para sabermos mais sobre o Iêmen e também para conhecê-la melhor que ela está aqui.

Uzi Por Aí: Evelyn, antes de qualquer coisa, quero agradecer por você ter aceitado estrear o nosso programa nos contando um pouco sobre sua vida no Iêmen, este país que nós brasileiros não conhecemos muito, mas que possui grandes belezas. A primeira pergunta então não poderia ser outra: como surgiu a ideia de morar no Iêmen? E porque entre vários países árabes com uma qualidade de vida melhor, o Iêmen foi o escolhido? 

Evelyn Priscila: Eu é que agradeço o convite, Uziel. Como meu esposo e eu somos os únicos brasileiros morando no Iêmen (segundo informação dada pela nossa Embaixada na Arábia Saudita), com certeza essa será uma ótima oportunidade para que mais brasileiros conheçam e talvez também se interessem por essa região, seja para visitar, ajudar, ou até mesmo viver!
Agora respondendo a sua pergunta, o Iêmen foi escolhido basicamente por ser o país mais pobre do Oriente Médio e um dos 30 mais pobres do mundo. Eu e meu esposo somos membros da Igreja Adventista do Sétimo Dia, que há vários anos realiza inúmeros projetos de ajuda humanitária ao redor do mundo, especialmente em áreas cuja necessidade é maior. Por questões religiosas óbvias, tal ajuda em países muçulmanos ainda não era possível até pouco tempo atrás, porém desde 1995 a ADRA (
www.adra.org) chegou ao Iêmen e desde então tem feito um maravilhoso trabalho, sendo sua importância reconhecida nacionalmente. Com a presença da ADRA, as portas se abriram, surgindo assim oportunidade para um novo projeto.

Tomaz e Evelyn em Sana'a Mountains
UPA: Mas eu quero voltar um pouco no tempo para saber se durante seu namoro, noivado, você e seu marido já tinham planos para viver uma experiência como esta? E quanto tempo após o casamento, vocês partiram para o Iêmen?

EP: Como sempre tivemos conhecimento dos projetos realizados por nossa igreja, mesmo antes de nos conhecermos já tínhamos o desejo de trabalhar além-mar. Mas não achávamos que a oportunidade surgiria tão rápido, apesar do desejo em nosso coração, a notícia foi uma surpresa para nós. Nós mudamos para cá em nosso quarto ano de casados.

UPA: Agora me diga uma coisa. Em algum momento você parou para pensar nos prós e nos contras de viver seu casamento num lugar tão distante e diferente do Brasil? E quais foram os pontos positivos que lhe levaram a concluir que valia a pena seguir esse caminho?

EP: Com certeza, afinal toda mudança importante no ambiente tem efeitos sobre o relacionamento e a maneira como o vivemos. Oramos sobre essa e sobre muitas outras questões envolvidas, e no mesmo dia decidimos que se fôssemos escolhidos para a vaga aceitaríamos. (Até ali, éramos apenas candidatos, pois um processo de seleção estava correndo). Apenas me preocuparia mais se tivéssemos filhos, pelo fato de não conhecermos de perto a realidade do Iêmen naquele momento. O que nos levou a aceitar foi o fato de esse ser um sonho que tínhamos, mas a maneira como tudo aconteceu indicava que esse era um plano de Deus para nós. Após essa certeza, nenhuma outra preocupação importava.

Em Kawkaban
UPA: Assim que você chegou ao Iêmen, qual foi o primeiro impacto, impressão que teve do país? O que mais lhe chamou a atenção? 

EP: Era melhor do pensávamos! Pesquisamos muito sobre o país na internet nos meses que antecederam nossa viagem. E realmente, o que é dito pela mídia a respeito é um pouco exagerado quando comparado com a realidade. Só para você ter uma ideia, eu vim preparada psicologicamente para voltar a lavar roupas na mão, pois achava que o local não tinha acesso a nada daquilo que estávamos acostumados no Brasil. Mas ledo engano, pois eles tem praticamente tudo o que temos no Brasil! rs

O que mais chamou a atenção no inicio: a. A língua árabe, extremamente diferente. Ao ver alguém conversando sempre achava que estavam brigando, pois a entonação da própria língua é mais enfática que a nossa, eles falam meio que gritando... Hoje já nos acostumamos e até falamos como eles! rs; b. As roupas. Como jå esperávamos, devido à religião e cultura islâmicas, as mulheres usam burca (aqui chamada de Balto), e os homens usam um traje também típico e bem diferente (ver foto ao lado), sempre com sua jâmbia na cintura, espécie de adaga usada como parte do traje, porém se necessário, utilizada também em brigas... c. A arquitetura das casas, única no mundo, parecia que tínhamos viajado no tempo de volta ao passado, incrível! 

UPA: Ouvindo você falar todas dessa forma e vendo essas fotos, eu já estou com vontade de visitar o Iêmen. Será que eu posso? (Rindo para ela me convidar). Tô brincando. Mas agora é sério, achei realmente lindo pelas imagens. Como você vê o turismo no país? Há estrutura e segurança para este público? Quais dicas você daria a alguém que esteja pensando em conhecer o Iêmen?

EP: Segurança: A menos que haja um interesse em se estudar a Língua Árabe falada no Iêmen (considerada como a que mais se aproxima do Árabe Clássico por não haver tantas influências de outras civilizações), podendo assim ter o acompanhamento e proteção de escolas locais. O turismo no Iêmen é arriscado e perigoso.

O Turismo aqui perdeu muito com a Revolução Política que houve em 2011. A maioria dos estrangeiros que viviam no país foram embora, e o turismo está praticamente abandonado desde então. Com o movimento da Primavera Árabe, e a escolha de um presidente de transição, muitas mudanças positivas passaram a ocorrer no país, sendo assim, creio que em breve o quadro mudará e os turistas poderão ir e vir livremente sem maiores problemas.

Moramos na capital, e pouco saímos justamente pela falta de segurança. Os lugares que visitamos fora de Sana'a foram sob a supervisão de nossa Escola de Árabe, sendo assim correu tudo bem. Mas o país tem praias paradisíacas como Aden e claro, Sucotra, um arquipélago reconhecido mundialmente por sua beleza e vegetação exótica.

A comida aqui é bem diferente, há a cozinha libanesa, palestina, indiana, etc, mas a iemenita é bem característica. Nós sofremos com os temperos, pois como somos ovo-lacto vegetarianos na maior parte do tempo (às vezes comemos peixe), não estamos acostumados com muita pimenta e especiarias, mas para quem gosta é o paraíso! Eu gosto de alguns pratos, especialmente de alguns pães. Mas para o turista, o interessante é comer o típico almoço (foto acima) iemenita com uma família local, é bem interessante e as famílias iemenitas são muito receptivas para com estrangeiros, convidando-os para almoçar juntos logo no primeiro contato! O mel produzido aqui também é maravilhoso!

Veja mais em: http://www.youtube.com/watch?v=BSyc1QfwlT0

UPA: Suas ocupações aí certamente devem ser diferentes das quais tinha aqui no Brasil. Como o seu tempo é preenchido/divido? Já existe uma vida social? 

EP: Sim, eu era professora de Inglês no Brasil, e aqui virei aluna de Árabes Foi beeeem difícil no inicio, mas agora, após quase 9 meses de estudo diário, nos viramos bem com a Língua. Uma vez que a comunicação já é possível, estamos agora dando início ao projeto que nos trouxe aqui: O “I Love Yemen Institute”. Será um instituto sócio-educacional, com aulas de idiomas e informática, assim como palestras na área da saúde, educação, família, etc. Com a crise, a taxa de desemprego é imensa, a saúde também é precária, através do projeto pretendemos prover todas as ferramentas necessárias para que os jovens tenham mais oportunidades no mercado de trabalho, estendendo às suas famílias a oportunidade de maior conhecimento que lhes propicie uma melhor qualidade de vida. 

Nesse início de projeto nossa vida anda bem corrida: alugar, mobiliar, ir atrás de licença com o Governo, Business Visa, enfim! A vida social é normal, com a comunicação fica bem mais fácil. Já participei de varias festas de mulheres (as reuniões sociais aqui são sempre separadas), o Tomaz já fez muitos amigos, eu menos por ser mulher e estrangeira, mas já fiz algumas também.

Evelyn em Al-Saleh Mosque / Sana'a

UPA: Você comentou sobre a revolta que houve no país em 2011 e eu ia mesmo entrar neste assunto. Ainda há protestos no país? E este possível clima de insatisfação não lhe deixa assustada?

EP: O país está numa fase de transição que todos nós queremos superar. Em 2011, começaram a ocorrer manifestações contra o último presidente, o ditador Ali Abdullah Salleh, que finalmente abdicou do cargo e permitiu que a democracia tomasse lugar. Um presidente de transição foi eleito, Abd Rabo Mansur Hadi, e desde então uma série de conflitos tem ocorrido devido à existência de diversos grupos políticos com interesses diversos. Isso sem falar da presença da Al-Qaeda, que de vez em quando faz suas vítimas através de atentados terroristas. Desde o mês de Março, contudo, foi iniciado o “Diálogo Nacional”, que visa promover a discussão entre os diversos grupos sobre os interesses da nação. O povo iemenita, o governo e até mesmo os críticos internacionais estão botando fé que essa iniciativa vai render bons frutos num futuro próximo.

Arquitetura incrível.
Às vezes a insegurança daqui me assusta sim, mas na maior parte do tempo fico tranquila, porém sempre atenta! Temos (nós estrangeiros) proteção e suporte da ONU, que nos envia relatórios periódicos sobre a situação do país, assim fica mais fácil estar alerta. Riscos corremos em qualquer parte do mundo, aqui não é diferente. Como disse inicialmente, a coisa é mais feia na mídia do que na realidade. Só quem vive aqui sabe como é. Não é fácil viver em alerta, mas também não é terrível como dizem. Dá para se adaptar e viver quase que normalmente, especialmente porque nosso objetivo nos faz superar o medo! rs.

UPA: E num país onde a maioria absoluta é de muçulmano, o não-muçulmano sofre preconceito? Você ou seu marido já passaram por alguma situação desconfortável em relação a isso, ou ao fato de serem estrangeiros?


EP: Sim, existe preconceito para com pessoas não-muçulmanas, mas depende muito da pessoa com quem você conversa. Os cristãos são vistos como fiéis de segunda categoria, enquanto os muçulmanos são considerados superiores. Mas também existe preconceito quanto a certas nacionalidades (como na maioria dos países árabes), especialmente contra os americanos. Como somos brasileiros e eles também adoram o futebol do Brasil, muitas vezes somos muito bem recebidos!

Mulher muçulmana em Thula.
UPA: Ah, isso é verdade. Brasileiro realmente tá em alta. Você falou e eu lembrei de quando eu estava em Machu Picchu. Uma menina peruana que estava numa excursão de colégio me perguntou de onde eu era e quando eu disse que era brasileiro, a turma inteira dela quis tirar foto comigo. Me senti um artista. Mas voltando ao Iêmen, relate para nós o momento mais bonito, gratificante e emocionante da sua vivência aí até agora. 

EP: Já tivemos muitos momentos gratificantes ajudando pessoas necessitadas que conhecemos ou não (é assustador o número de pedintes nas ruas da capital), mas como dinheiro e comida não resolvem nada a longo prazo, a alegria não é completa. Já estamos morando aqui há um ano só estudando a língua Árabe, e esperávamos ansiosos pelo momento em que começaríamos a pôr o projeto pra funcionar. Então, para mim, o momento mais emocionante foi quando alugamos o prédio para o Instituto e principalmente quando a mobília que compramos começou a chegar e a ser montada, nesse dia a ficha caiu: "Finalmente faremos algo grande! Agora é pra valer!"
 
Agora vamos ao nosso Bate-Volta...

Saudade: da liberdade de ir e vir, e de me vestir como antes...

Família: um link com minha origem.

Casamento: segurança, paz, amor!

Outro país que gostaria de morar: Se o mundo não precisasse de ajuda? Dubai! Mas como precisa, e muito, um outro país que gostaria de morar é o próximo para onde Deus nos mandar! rs.

Um país que NÃO tem vontade de conhecer: Prefiro não responder, pode ser perigoso... rs.

Pirâmide do Egito ou Templo de Jerusalém? Viagens planejadas para breve, por enquanto já que não conheço nenhuma das duas, Templo de Jerusalém, passar por onde Jesus passou deve ser emocionante!

Companhia aérea dos seus pesadelos: Yemenia... rs.

Filhos: Se Deus quiser, em breve! E nascerá no Iêmen! :)

E para terminar, o que Evelyn Priscila diria sobre si mesma na alfândega: 1. Odeio viajar de avião/ 2. Aprendendo que seres humanos são todos iguais, não importa a cultura / 3. Amo meu país e minha língua! rs.

UPA: Evelyn, outra vez muito obrigado pela sua entrevista, foi um imenso prazer falar com você daí do Iêmen e tenho certeza que você e seu marido irão alcançar seus objetivos porque Deus ajuda quem vive para ajudar o próximo.
Para quem quiser conhecer mais sobre a Evelyn, pode acessar seu blog, onde ela faz reflexões poéticas e pertinentes. O endereço é este: http://olhardefilha.wordpress.com/

E a você, espectador, por favor, deixe-nos aqui seu comentário sobre esta entrevista. Caso queira, também é possível perguntar algo em relação ao Iêmen que não foi perguntado. Já as questões pessoais, esta somente eu poderei fazer e as farei no próximo “Entrevista na Alfândega”, que contará com a participação de uma brasileira que vive em Dubai. Isto mesmo, nosso programa continuará explorando o mundo árabe. Quem sabe assim eu não faça minha mala e vou para lá? Será que é caro ir para Dubai? Bom, logo saberemos. Até!

Em Manakha.

6 comentários:

  1. Estava achando estranho esse post não ter nenhuma parte exibicionista do Uziel, quando me deparo com isso: "Uma menina peruana que estava numa excursão de colégio me perguntou de onde eu era e quando eu disse que era brasileiro, a turma inteira dela quis tirar foto comigo. Me senti um artista".
    Ui, ele é o Brad Pitt. Sqn.

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  2. AHAHAHAH. Mas tiraram a foto comigo por eu ser brasileiro e não por ser bonito. rsrsrs

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  3. Olá!!! Muito legal o blog e a idéia de aproveitar um pouquinho do conhecimento de cada um! Parabéns!

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  4. Olá, gostei muito desse site e amei a entrevista com ela... Estava aqui em casa pesquisando sobre países árabes por curiosidade mesmo e gostei muito viu... Abraços a você Uziel pelo site e a Evelyn pela coragem em mudar para um país tão diferente... Que Deus abençoe vocês...

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  5. Obrigado, Franciele. Volte sempre ao blog. Se você curtir nossa página, você receberá as atualizações no Facebook. Todo o mês temos entrevistas por aqui. Rsrs. Grande abraço.

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  6. Olá! A empresa na qual trabalho está iniciando uma relação comercial com uma trading localizada em Sanna para exportarmos do Brasil postes de madeira para redes eletrificação para o Yemen. Tenho planos de visitar o País, mas seria interessante ter suporte de Brasileiros no auxilio com o idioma e nos costumes locais. Favor entrar em contato comigo pelo meu e-mail: hrepetto@flosul.com.br
    Fico no seu aguardo! Um abraço,
    Humberto

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