sexta-feira, 8 de abril de 2011

Crônica - Contenção Social

O professor de geografia foi dormir às duas da manhã preparando aula, corrigindo prova e formulando exercícios. A professora de matemática acordou às seis horas para encarar a multiplicação de sua carga horária, dividiu seus bens com o marido que lhe havia pedido o divórcio, subtraiu os momentos de felicidade e somou-se aos proletários invisíveis. A diretora tomou seu tarja preta logo após sentar à sua mesa.

Quem faltava chegar? O futuro desempregado se aproximava tapando o bocejo com o caderno de poucas matérias. A futura cartomante de araque suspirava adentrando o portão pichado com figuras obscenas e enquanto isso o futuro traficante já sentado na carteira riscava o livro didático de qualidade inferior. O terror iria começar.

Bateu o sinal, bateu a preguiça e a tristeza. Tudo era previsto. Luz. Os alunos fingem que foram aprender. Câmera. Os professores fingem que foram ensinar. Ação. O governo finge que o Brasil tem uma ótima educação.


Os alunos não entendem de filosofia e nem de trigonometria, mas sentem a antipatia, o caso aqui é o completo descaso. O engraçado é que ainda recriminam o pobre professor, dele também é a culpa do efeito estufa. Mesmo trabalhando muito e ganhando pouco, exigi-se nada menos que a santidade. Que engulam os desaforos, a desvalorização e a vida de cão. Bolinha de papel até o Serra recebeu e não morreu, então não custa nada ser ainda mais humilhado, afinal de contas é para isso que servem os intelectuais: fazer contenção social.

Em trinta metros quadrados estão sessenta futuros desgraçados na flor da idade, confusos e reclusos na margem. Eles não sabem quem foi Voltaire, mas também não são loucos, conseguem perceber que da cultura lhe é dada apenas a esmola, que do conhecimento somente os farelos. Para quê estudar? Algum professor até tenta remar contra a corrente de lixo e ensinar algo, mas no final já sabemos que a progressão continuada continuará sua regressão a favor do complô governamental rumo à alienação. Plim plim!
Ao guerreiro professor cabe se render. Para quê lutar se a nota final será estuprada? No conselho de classe o aluno quatro virgula sete passará sem saber quanto é sete mais quatro. Para quê reprovrar? Faltaram apenas três décimos para alcançar a média da mediocridade. É o suficiente para pelo menos ter algum futuro duro.

O mundo é uma selva, a casa é uma guerra e a escola pública é a prisão que tenta controlar os ânimos, porém tudo o que consegue com a sua má estrutura é intensificar a amargura. Enquanto se brinca de escolinha, os muros sufocam. Teatrinho. Os professores não passam de babás e os alunos ditos como inocentes que devem ser protegidos e ensinados são na verdade vítimas sociais que o sistema busca conter para não se revoltarem de forma violenta ou intelectual. Uma hora a bomba explode. Docentes com úlceras, estresse crônico e às vezes a explosão é externa, xingamentos, murro no aluno. Os motivos da explosão a mídia não faz questão em saber. Prende que não presta.

Discentes violentos, intimidação, quebra-quebra, pichação, tiros e às vezes suicídio.No Jornal Nacional, o Pimentel falou que a solução é dificultar o acesso às armas. Esqueceu a raiz do problema. Falta investimento. Os 60% dos professores ninguém ainda viu, já a degradação das escolas está a olhos vistos. Atentem também para alguns comércios sujos que são chamados de colégios privados.
Choremos pelos mortos e pela educação.

Eu e meus alunos do terceiro ano do colégio estadual.
Com investimentos iríamos mais longe.

6 comentários:

  1. Me encanta lo que escribiste. Realmente sos un "literator". Beso

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  2. Verdade professor, com investimento iriamos longe...

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  3. MUITO BOM SEU TEXTO.. ME IDENTIFIQUEI SOU PROFESSORA E SÓ NÓS PARA SABERMOS O CAOS GENERALIZADO EM QUE ESTAMOS.

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  4. O aluno 4,7 que não sabe quanto é 7 + 4....rs
    Perfeito.

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