domingo, 15 de julho de 2012

Literatura - Uma Leitura de "Budapeste", de Chico Buarque


A genialidade encontrada no quarto romance de Chico Buarque não está na ação dramática, a qual não possui grandes arroubos dramáticos, mas sim na forma em que os fragmentos se tornam uma unidade através de recursos literários pouco legíveis, como: obscuridade, polifonia, multiplicidade e o duplo.

Chico Buarque em cena da adaptação cinematográfica de "Budapeste".

O livro é narrado em primeira pessoa e ao contrário do que possa parecer devido ao tom biográfico, não é uma obra memorialística. Cheia de micro-narrativas num tempo não-linear, o narrador-personagem vai construindo o tempo e o espaço ao qual pertence, ao passo em que outro autor constrói sua biografia, já que ao final descobre-se que o livro foi escrito por um ghost-write.

Os discursos apresentados em Budapeste são sobrepostos, truncados, multiplicados e revividos. Tomando como exemplo a relação da personagem protagonista com suas mulheres, Vanda e Kriska, pode-se perceber a sobreposição no que ele relata sobre elas, opondo-as pelo espaço e ao mesmo tempo unindo-as pelo papel que elas desempenham em sua vida. Enquanto que Vanda é morena, Kriska possui uma pele extremamente branca. A narração da vida sexual com a segunda se sobrepõe com a da primeira, desta maneira Kriska se torna um desdobramento, ou um multiplicador de Vanda.

Os discursos sobre os cenários, Budapeste e Rio de Janeiro, são durante todo o decorrer da obra ora interrompidos, ora retomados conforme o vai-e-vem geográfico do narrador na ponte aérea Rio-Budapeste. Essa fragmentação textual própria da literatura contemporânea dá refrações ao romance formando-o um objeto de sentido duplo, múltiplo, infinito e, por conseguinte, tomado por cronotopos e polifonia.

*Excerto do trabalho:
CONTEMPORANEIDADE EM BUDAPESTE
Visualidade, Fragmentação e Polifonia
Uziel Santos.

0 comentários:

Postar um comentário

Deixe seu comentário.