A
genialidade encontrada no quarto romance de Chico Buarque não está na ação
dramática, a qual não possui grandes arroubos dramáticos, mas sim na forma em
que os fragmentos se tornam uma unidade através de recursos literários pouco
legíveis, como: obscuridade, polifonia, multiplicidade e o duplo.
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| Chico Buarque em cena da adaptação cinematográfica de "Budapeste". |
O
livro é narrado em primeira pessoa e ao contrário do que possa parecer devido
ao tom biográfico, não é uma obra memorialística. Cheia de micro-narrativas num
tempo não-linear, o narrador-personagem vai construindo o tempo e o espaço ao
qual pertence, ao passo em que outro autor constrói sua biografia, já que ao
final descobre-se que o livro foi escrito por um ghost-write.
Os
discursos apresentados em Budapeste
são sobrepostos, truncados, multiplicados e revividos. Tomando como exemplo a
relação da personagem protagonista com suas mulheres, Vanda e Kriska, pode-se
perceber a sobreposição no que ele relata sobre elas, opondo-as pelo espaço e
ao mesmo tempo unindo-as pelo papel que elas desempenham em sua vida. Enquanto
que Vanda é morena, Kriska possui uma pele extremamente branca. A narração da
vida sexual com a segunda se sobrepõe com a da primeira, desta maneira Kriska
se torna um desdobramento, ou um multiplicador de Vanda.
Os
discursos sobre os cenários, Budapeste e Rio de Janeiro, são durante todo o
decorrer da obra ora interrompidos, ora retomados conforme o vai-e-vem
geográfico do narrador na ponte aérea Rio-Budapeste. Essa fragmentação textual
própria da literatura contemporânea dá refrações ao romance formando-o um
objeto de sentido duplo, múltiplo, infinito e, por conseguinte, tomado por
cronotopos e polifonia.
*Excerto do trabalho:
CONTEMPORANEIDADE
EM BUDAPESTE
Visualidade,
Fragmentação e Polifonia
Uziel Santos.




