terça-feira, 24 de julho de 2012

Cinema e Literatura - De Machado de Assis a Luiz Fernando Carvalho



Dom Casmurro - Machado de Assis  

É curioso observar que apesar de toda riqueza expressa na forma estética de Machado de Assis, a partir da década de 60, a crítica predominante sobre Dom Casmurro se apoio no conteúdo, mais precisamente na dúvida se Capitu traiu ou não.

A incógnita já havia sido sugerida de maneira sutil. José Veríssimo, no ano de lançamento da obra, aludira para o discurso “suspeito” do narrador. Em 1936, Lúcia Miguel Pereira, falou que "a dúvida nasce no espírito do leitor, sem que o autor diga nada”. Mas foi em 1960 que Hellen Caldwell, com sua visão feminista, transformou Capitu em vítima dos ciúmes doentios de Bentinho, inocentando-a da acusação de adultério.

A afirmação de Caldwell causou um reboliço na crítica literária. Reações indignadas foram apresentadas, como as dos escritores Dalton Trevisan e Otto Lara Rezende. A absolvição de Capitu, para muitos, era inaceitável. No entanto, muitos foram os que estiveram de acordo com a inocência de Capitu. Tantos que hoje esta é a leitura que predomina.

Para José Paulo Rouanet (2007), “os críticos estão chegando à conclusão de que a questão é insolúvel”.
Ao analisar todo este desacordo entre a crítica literária, percebe-se que o ponto de vista do leitor é uma zona de conflito, logo qualquer adaptação automaticamente correrá o risco de se tornar alvo da insatisfação de quem leu o original e consequentemente possui uma visão que pode ser bastante diferente da visão do adaptador, seja no código da literatura ou midiático, seja no que condiz ao conteúdo, ou à expressão.   .   

 Capitu - Luiz Fernando Carvalho

O Projeto Quadrante, na Rede Globo, foi desenvolvido pelo diretor Luiz Fernando Carvalho com o objetivo de trazer literatura para a televisão. Outro ideal declarado por Carvalho é o de reeducar o olhar do telespectador através de produções com qualidade estética diferenciada do que se costuma produzir em TV.

O diretor Luiz Ferando Carvalho
Na novela Renascer de 1993, Carvalho já dava mostras de sua veia perfeccionista quando gravou algumas das cenas em película de cinema. Na primeira fase da novela O Rei do Gado (1996), o diretor experimentou ao gravar os primeiros capítulos com apenas uma câmera em tempo-morto, o que deu um ritmo cinematográfico às cenas.

Dispondo de um cronograma mais livre na minissérie Os Maias (2001), Carvalho trouxe de vez o cinema para a televisão, o que afugentou grande parte do público. Mas foi com a micro-série Hoje é Dia de Maria (2005) que o diretor ganhou de vez a fama de ser de difícil digestão. Nas duas jornadas da menina que enfrentava os mitos populares de Luiz Alberto de Abreu e Câmera Cascudo, Carvalho abusou da experimentação com um universo artificial explícito, uma montagem surrealista com recursos que lembravam o cinema de Frederico Fellini.

Hoje é Dia de Maria ganhou e foi finalista dos mais importantes prêmios da televisão mundial, como o International Emmy Awards. Este reconhecimento lhe conferiu ainda mais liberdade e oportunidades para os seus projetos.

Em 2007 deu início ao Projeto Quadrante com a adaptação homônima do livro de Ariano Suassuna, A Pedra do Reino. E em 2008, para comemorar o centenário da morte de Machado de Assis, foi produzida a partir do romance Dom Casmurro, a micro-série Capitu, divida em cinco episódios, exibidos entre 9 a 13 de dezembro.

*Excerto do trabalho: De "Dom Casmurro" à "Capitu". A Adaptação de um Clássico.
Uziel Santos.


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