É comum passearmos três dias ou até uma semana em determinada cidade, porém ao passar mais de um mês já considero como moradia temporária. Há lugares com grande concentração de brasileiros no exterior - Buenos Aires que o diga - em Albufeira, pequena cidade turística que se encontra na região do Algarve, sul de Portugal, não é diferente. Por lá passei cerca de um mês e meio. Apesar das lindas praias, paisagens românticas, arquitetura exótica e preços interessantes (eufemismo para barato), é raridade ver um brasileiro turista, todos trabalham ou estudam.
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Albufeira vista do alto: tudo branco na santa paz.
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Quando surgiu a oportunidade de dividir apartamento num lugar de nome tão estranho confesso que torci o nariz, sem contar que nunca fui fã de praia, mas pesquisando pude constatar que se tratava de uma boa oportunidade. Assim que aterrissei em Lisboa e passei sem nenhum contratempo pela temida imigração peguei um táxi rumo a rodoviária Sete Rios, onde esperei cerca de meia hora pelo ônibus EVA. Quase três horas depois cheguei ao meu destino feito caco de cachaça, mas nada que algumas horas de sono não solucionasse. Após o merecido descanso estava preparado e de peito aberto para o que desse e viesse.
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Relógios: passeio do meu primeiro dia.
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Albufeira e todas demais cidades do Algarve têm mais hotéis do que casa, ou seja, o que não falta é emprego para todos os setores no campo da hotelaria e é por conta disso que muitos brasileiros sonhando em ganhar em euros vão para lá com o objetivo de um dia voltarem ricos depois de alguns anos de economia.
Apesar do movimento ter diminuído muito devido à crise global, essa região do sul continua sendo a mais rica turisticamente em Portugal. É impressionante como se vê mais britânicos, holandeses e espanhóis do que nativos, ouve-se mais inglês do que português. Hotéis se tornam atrações turísticas com arquitetura em formato de navio, as praias se misturam ao urbano com escadas rolantes e elevadores, a noite se torna dia, pois o movimento quatriplica, principalmente na Rua da Oura que lembra a vida noturna de Ibiza. A limpeza e a segurança são os serviços públicos que fecham com chave de ouro os motivos pelos quais a região é a preferida dos gringos.
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| Hotel em formato de navio. |
Dividi o apartamento com uma amiga do Brasil, ex-estudante de pedagogia que largou a dificuldade da faculdade particular e foi tentar a sorte por lá. Deu certo. Em alguns meses conseguiu alugar um apartamento pequeno, porém totalmente mobiliado por 300 euros em pleno centro de Albufeira. Trabalha com limpeza, começou em hotéis e depois fixou-se em casa de família e empresas. Comparando com o serviço de diarista no Brasil, além de trabalhar relativamente menos, ganha mais. O melhor é o custo de vida. Um Nescau de caixinha custa 30 céntimos, uma bandeja de Danoninho menos de 1 euro.
Morava ao lado de um Mc Donalt's que fechava muito tarde e quase em frente à Pizzaria Hut, onde uma fatia de pizza e um refrigerante custava a bagatela de 1 euro e 75 céntimos na época, junho de 2010. Ainda tratando de coisas baratas, quase nunca comia em casa, pois logo em baixo do prédio, precisamente em frente aos relógios da foto acima, havia um "Pingo Doce", rede de supermercados que contava com restaurante de ótima qualidade, no qual um grande prato de arroz, batata frita e grelhado da sua escolha (carne de vaca, porco, salmão, peru, frango) saia por 3,99 euros, eles realmente devolviam um céntimo de troco.
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| Escada rolante na praia. |
Além de toda a beleza geográfica, pode-se destacar também a beleza dos turistas que lá tomam seus banhos de praia. Nunca vi tanta gente bonita junta in my life crazy. Na agitada Rua da Oura não se paga para entrar em balada, pois são dezenas, uma ao lado da outra, assim é possível entrar, dá uma olhada e sair. Para quem curte azaração é um prato cheio, o problema é que a concorrência é mais desleal que competir com a Rede Globo de Alienação. Pelos meus cálculos, a proporção era de sete homens para uma mulher, ou seja, caso você não pareça Brad Pitt não será o escolhido. É olhar com o olho e lamber com a testa.
Como as cidades são muito próximas uma da outra, é possível conhecer todo o Algarve e apesar de serem semelhantes, cada município tem sua particularidade. Vilamoura tem uma belíssima marinha. A cidade de Pera tem esculturas de areia pirotécnicas. E Faro, a capital da região, tem o seu charme, possui inclusive um aeroporto que facilita a viagem. Caso esteja pela a Europa, dê uma olhada no site da "Ryanair", companhia aérea de pobre que todo o mundo fala mal, porém que nunca caiu e o que é melhor: faz promoções do Porto a Faro de até 9 euros. O único inconveniente é a questão do peso das malas, mas se tratando de bagagem na Europa, isto sempre será um inconveniente.
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| Marinha de Vilamoura. |
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| Meu carro (ahah). |
Só não gostei mais do Algarve porque a antipatia dos portugueses do sul é algo fora do comum. Até rimou. Houveram episódios que hoje dou até risada, mas que na hora me deixaram estarrecidos. Por exemplo: um dia lá estava eu com óculos escuros na cara, livro na mão (Pássaros Feridos), havaianas nos pés e máquina fotográfica no bolso. Tirei o dia para ser turista e fiz igual a música de Chitãozinho e Xororó: andei, andei, andei até encontrar...
Explorando todo o lindo território das casas branquinhas com chaminé, cheguei a um ponto onde não havia uma alma penada para dizer BU! As ruas eram estreitas, convidativas, deu-me vontade de seguir explorando. Aquele cenário atípico me inspirava, sentia-me em um filme, até que do nada me apareceu um cachorro e adivinhem qual a raça... A mesma do filme Beethoven. Bem que poderia ter sido um filme melhorzinho, pois eu odeio cachorros, na verdade, eu não odeio, tenho medo, pois quando criança um vira lata me perseguiu e mordeu.
Pois bem, respirei fundo e tentei me acalmar, afinal de contas um cachorro de raça tão boa e morador de um bairro tão nobre como aquele não iria sair perseguindo turistas. Engano meu. Beethoven ladrou e eu sai correndo feito louco por aquelas ruelas. Perseguição feroz. O maldito do cachorro atrás de mim e eu sem ter onde me abrigar, pois as casas eram sobradinhos fechados. Que desespero!
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| Cavernas de Albufeira. |
Entrei feito foguete na primeira porta que encontrei aberta. Uma fábrica caseira de tecidos. Tremendo e branco com o susto imaginei que a portuguesa feia que se aproximava de mim iria perguntar o que aconteceu. Outro engano. A portuguesa mais raivosa que o cachorro me xingou de todos os nomes e saiu me arrastando para fora do estabelecimento, mesmo eu explicando que o perro estava atrás de mim. No final, não sei o que mais me assustou, se a perseguição do cachorro ou os xingamentos da portuguesa possuída.
Num outro dia no mercado, perguntei quanto era 100 gramas de queijo e a funcionária me respondeu com mais ira que os discursos de Hitler: ainda não chegou a sua vez. A relação dos brasileiros com os algarvianos não é das melhores, acredito que seja difícil alguém conseguir ter um bom relacionamento com aquele povo amargo. Claro que não são todos, porém a antipatia é concreta.
De toda maneira, os brasileiros que lá vivem fazem piada do mal humor português e seguem sua vida trabalhando nos hotéis, seja cozinhando, limpando, traduzindo, animando, ou vendendo assinaturas de TVs, somos bons vendedores.
Eu e Monique, uma amiga do tempo em que fazia o ensino médio na Bahia, encontramos-nos por lá e fomos comer na praia. Ela pediu um granizado de limão e eu um suco de morangos silvestres, resultado: o granizado dela não passava de um k-suki gelado por 3 euros e o meu suco era simplesmente leite com Quick de morango por 5 euros. Rimos muito. Não lembro ao certo se foi eu ou ela que perguntou ao garçom qual dos dois sabores era o melhor e ele respondeu: vocês é que tem que saber, não eu. Amável feito um jegue.
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Escultura de areia à la Da Lua.
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Guardo boas recordações do Algarve. A leitura de Pássaros Feridos na Praia dos Navegantes, as inúmeras gaivotas que cantavam pela tarde, o lindo show de fado do grupo "Deolinda" na orla. Indico com afinco a região para quem está em lua-de-mel, é o lugar perfeito para quem não precisa fazer amizades, estar apenas a dois. Não sei se vocês sabem, mas na literatura quando aparece gaivotas é sinal que a cena seguinte será de amor, então nada melhor que amar num lugar cheio de gaivotas como lá.
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As famosas rotundas (rotatórias) do Algarve.
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Show na orla. Festival Albufeira de música. Nesse dia cantava a Banda Macaco.
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Não posso terminar esse post sem antes desejar sorte, saúde e sucesso para uma grande amiga que irá morar em Albufeira a partir de maio, trata-se de ninguém mais e ninguém menos do que a recém formada em Tradutor & Intérprete, Elisângela. Acredito que numa terra em que o inglês é supervalorizado, você terá boas chances de alcançar seus objetivos profissionais e acadêmicos. Espero de coração que se estabeleça por lá, assim daqui a alguns anos poderei quem saber voltar ao Algarve para te visitar e recordar aqueles dias felizes. Como diz a música do grupo "Deolinda", a qual ouvi pela primeira vez justamente neste lugar da foto acima, Elisângela e todos meus leitores: saiam de casa e vem comigo para a rua, vem! Que esta vida que tens, por mais vidas que tu ganhes é a tua que mais perdes se não vens...
Clipe da música UM CONTRA O OUTRO do grupo de fado "Deolinda":














Deolinda não é fado!!!
ResponderExcluirÉ, não é o fado tradicional. Mas no próprio show, ela chama umas canções de fado. Bom, realmente eu teria que estudar melhor pra entender as classificações da música portuguesa. Rsrs. Obrigado pela observação.
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