sábado, 28 de janeiro de 2012

Oscar 2012 - Meia-noite em Paris - Surrealismo Crível

Em uma agradável sexta-feira de 2012, andei pelas ruas de Paris sem destino. Subi a Torre Eiffel e quando desci já era quase dez e meia da noite. Peguei um trem para Versailles e quando sai da estação me dei conta que não sabia voltar para casa. O relógio anunciava algo por volta de meia-noite. Leia o post no qual contei esta aventura clicando aqui.

Após dois anos, ao assistir Meia-noite em Paris (Midnight in Paris), de Woody Allen, um dos meus diretores e escritores preferidos - o qual critiquei parte de sua filmografia (clique aqui para ler outras críticas) - tenho a surpresa de acompanhar uma sinopse muito parecida com este acontecimento pessoal.
Gil (Owen Wilson) é um roteirista americano que vai passar as férias com sua noiva (Rachel McAdamns) em Paris. Ele fica encantado pela cidade e acredita ser o lugar perfeito para lhe inspirar como escritor de romances, deixando assim os roteiros comerciais hollywoodianos que é obrigado a produzir. Explorando Paris durante a noite, ele acaba se perdendo na hora titulo e reencontra personagens famosos da década de 20, tal como Salvador Dalí, Pablo Picasso, entre outros.

Quando me perdi não encontrei Luís XVI e nem Maria Antonieta, mas faltou pouco, pois a cidade inspira História e nos sentimos como personagens em outra época. Devido a isto, o roteiro surrealista de Woody faz todo o sentido e o que poderia ser um tiro no pé, acaba se tornando um golpe de mestre. Mesmo com uma ação dramática muito simples, Meia-noite em Paris já despontou como clássico. Ao assistir, o espectador sente que está em frente a uma obra que se perpetuará pelo tempo, que constará em todas as próximas listas dos Mil Filmes para Vê Antes de Morrer.

A atuação de Owen Wilson é a prova cabal de que um bom diretor sabe aproveitar o que lhe é dado. A cara de bobo de Wilson enfim teve uma serventia e ele domina aquele ótimo texto como se tivesse sido escrito para ele. Rachel McAdmans, que já conquistara o seu espaço desde Diários de uma Paixão, mostra que realmente tem simpatia, mesmo não sendo uma mocinha virginal, ela ganha a admiração do público, é o tipo de atriz que consegue ser amada até quando interpreta vilãs, pena que ainda não lhe deram esta chance.
No elenco ainda se encontra a estupenda, não cabe um elogio menor, Marion Cortillad, a camaleoa francesa. Após Piaf, Hollywood não lhe deu personagens com substância, porém Woody com seus diálogos geniais, entrega-lhe um papel singelo e completo, no qual Marion se transforma no oposto da cantora que lhe consagrou.
Kathy Bates e a primeira dama da França, Carla Bruni também estão no filme. Apesar de tantos nomes de peso, a narrativa se mantém em primeiro lugar, como tem que ser, os atores servem a ela sem estrelismo e isto acontece porque Woody Allen é um diretor sem pedantismo, não se gaba por ter conseguido aquele astro ou aquela estrela, não é pedante com sua inteligência, por isso não faz falta para aqueles que não conhecem as personagens reais retratadas como F. Scott Fitzgerald, Gertrude Stein, Ernest Hemingway... Basta saber que são artistas mortos dos quais o protagonista é admirador, a narrativa segue com o mesmo efeito para aqueles que conhecem.

 Marion Cortillard, Alison Pil, Owen e Woody em gravação.

O filme ainda aborda a errônea concepção de que o tempo passado é melhor que o nosso tempo. E o roteiro ensina isso sem ditatismo, outro mértio de Allen que é capaz de passar filosofias, teorias sem ser pedagógico. Inclusive ele chega a ironizar pseudo-intelectuais, assim sendo não é necessário conhecer a Belle Époque para apreciar Meia-noite em Paris, o enredo toma para si esta responsabilidade.
De tão simples que é o filme, muitos se surpreenderam com as 5 indicações ao Oscar 2012: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Direção de Arte, Melhor Canção e Melhor Roteiro Original. É uma pena não estar concorrendo a Melhor Trilha Sonora e Melhor Fotografia, pois além de quadros lindos da cidade, a fotografia suavemente dourada faz o espectador voltar à Paris e aqueles que não foram podem sentir um pouco de como é andar por aquelas ruas.
Paris é surreal, por tanto um clássico crível sobre ela também teria que ser surrealista. E uma coisa é certa: não faz faltar conhecer a cidade para gostar do filme, porém para aqueles que como eu já se perdeu meia-noite em Paris, a obra se tonar mais prima que a Monalisa.

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