quarta-feira, 16 de março de 2011

Relato de Viagem - Um Brasileiro Perdido em Paris...

La Defensé.
Quando em junho de 2010 comprei minha passagem aérea para Portugal, uma das primeiras coisas que fiz foi contar a novidade para a minha amiga, Núbia. Um dia depois, ela me ligou contando que sua irmã que mora na França havia conseguido um trabalho para ela como au pair e era em caráter de urgência. Resumindo a missa: por pura coincidência, a família comprou a passagem da minha amiga no mesmo voo que o meu e fomos juntos até Lisboa. 
                               
Ao decorrer das três primeiras semanas na Europa, estava eu com dor de garganta no Algarve, região sul de Portugal, quando arrumei uma mala menor e voltei a Lisboa para passar uns dias, de lá tomaria o avião rumo ao aeroporto Charles de Gaulle em Paris, onde Lucy, a irmã da minha amiga iria me buscar.

Enquanto esperava o voo da Easy "Jegue" decolar, quer dizer, da Easy Jet, pois houve um atraso de quase duas horas, encontro-me com ninguém mais e ninguém menos que o até então prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, sentado com o seu filho esperando o avião para Barcelona.

Gilberto Kassab e eu no aeroporto de Lisboa.
Puxei assunto com o prefeito, reclamei da demora de ser chamado para o concurso público no qual havia passado e disse que não iria votar no Serra por causa dos pedágios e também devido a lei que proíbe professores darem aula no estado sem antes fazer uma prova que não serve para nada e que é realizada em apenas uma data, na qual não pude comparecer. Ele não quis me convencer do contrário, apenas disse que sabia que muitos jovens iriam votar na Marina no primeiro turno, mas que eu pensasse bem em quem votaria no segundo, como se eu tivesse opção.

Depois desse encontro inesperado, enfim o jegue decolou e cheguei são e salvo no maior aeroporto de Paris. Cadê Lucy? Não estava lá, vi-me perdido e o pior é que não acertava usar aquele maldito orelhão que só falava em francês, e do idioma de Piaf, eu não conheço quase "rien".
Arco do Triunfo.
Calma, não criemos pânico. Pensei no plano B, caso Lucy tivesse me abandonado ao deus dará devido a algum imprevisto, eu iria procurar alguém que falasse espanhol para obter informações e me hospedaria num hostel perto da Torre Eiffel, onde com certeza estaria cheio de brasileiros, pois uma coisa que os brazucas gostam é de ponto turístico famoso para tirar foto e depois colocar no Facebook.

Antes de colocar os desesperados planos de reserva em prática, eis que vejo adentrando no recinto um francês segurando uma menina pequena e uma mulher com traços latinos, será que eram eles? Não os conhecia pessoalmente, até então todo o meu contato havia sido apenas dois telefonemas. Com muito alívio, tratava-se sim da irmã da minha amiga, Lucy, seu marido Victor e a graciosa Marrie Louise.

Levaram-me para Sant Cyr, circu-vizinha a Paris que parecia cidade cenográfica de filme de época europeu. As cercas eram de grama, o clima ameno, as casas pareciam de boneca e as ruas de tão limpas pareciam irreais.

No dia seguinte, comemorava-se a revolução francesa. O polêmico presidente e sua esposa estavam na Champs Elissé. Por pouco não os vi. Houve um desfile aéreo, coisa de primeiro mundo. Após fazermos um pic-nic entre família diante o Arco do Triunfo, eu e Núbia fomos deixado por sua irmã na Torre Eiffel para enfim podermos subir. A surpresa foi desagradável, a torre estava fechada devido o desfile.

Dois baianos na Torre Eiffel.

Rio Sena e a Torre Eiffel.
Como a torre estava fechada inventei de ir ao Louvre que segundo informaçoes desencontradas não era longe, assim distanciei-me da estação de metrô que ia direto para Sant Cyr. Núbia não sabia falar nenhum outro idioma e eu apenas o espanhol, ou seja, muita coragem....

Chegando ao Louvre.

Depois de muito andar chegamos ao Louvre e já estava muito tarde para entrar, logo fecharia, mas uma vez Núbia e eu não tivemos sorte, teríamos que voltar outro dia. Perguntando no "mimiquês" encontramos uma estação de metrô e com um pouco mais de mímica chegamos em Sant Cyr, agpra só faltava Núbia lembrar qual era o caminho de casa. Após algumas idas e vindas encontramos o atalho que dava para casa de Lucy, uma minifloresta, passamos correndo por aquele cenário deserto e logo chegamos em casa.

Pelo que vi da comida da Franca, não gostei. Tive sorte que como fiquei na casa de uma brasileira, por mais que os ingredientes fossem diferentes dos daqui, o tempero e a forma de preparo são similares, então não tive problema, porém o chocolate em pó não era gostoso como o Nescau, os vegetais são congelados, a água tem algo de particular e o cachorro-quente então é de fazer ri. As coisas em Paris, como não poderiam deixar de ser, são caras, por tanto comia sempre na casa da Santa Lucy e só gastava para entrar nos museus que eram imperdífeis. Posso dizer que de todas as cidades da Europa, a que menos gastei foi lá. Nada como a boa hospitalidade baiana.

Versailles ficava apenas 5 minutos de carro de Sant Cyr, então fui com os anfitriões até o Palácio, o qual já havia visto nos filmes "Maria Antonieta" e em "O  Homem da Máscara de Ferro".

Fonte Principal.

Eu e Marrie Louse nos jardins do palácio.

Tudo de ouro.

Já me sentindo um exemplo de superação na arte de caminhar por uma cidade desconhecida, no dia seguinte fui sozinho até Paris, primeira parada: Catedral de Notre-Dame.


Confesso que pensei que fosse maior, já que é uma das igrejas mais famosas do mundo.Grande parte dessa fama se deve ao clássico de Vitor Hugo, "O Corcunda de Notre-Dame". Mas não deixa de ser algo que valha a pena conhecer. Há muita história envolvida e foi nela que Napoleão se coroou juntamente com Josephine.

Final de Lost em Notre-Dame.

Com o meu mapinha em fracês sai da igreja rumo ao Museu do Louvre, desta vez pronto para entrar. Eu que tenho um péssimo senso de direção encontrei com facilidade. E o bom é que com apenas o passe de Sant Cyr a Paris podia andar o dia inteiro de metrô com a mesma passagem.

De Volta ao Louvre.

O quadro da Monalisa.

Quadros, esculturas, coisas do Egito... É necessário muito tempo para conhecer tudo.

Para um formado em Letras, conhecer o Louvre é o máximo da cadeia cultural. Andei por duas horas e acredito que conheci muita coisa, mas evidentemente não tudo, quero voltar um dia, talvez esteja eu querendo demais, vai saber. Não tardei mais tempo porque antes de voltar a casa de Lucy queria enfim poder subir a Torre Eiffel. 

Ainda era seis horas da tarde quando cheguei lá, o último metrô para Sant Cyr partiria as dez horas, então com certeza teria muito tempo, certo? Errado! A fila era algo descomunal e eu não estava equivocado quando pensei que haveria muitos brasileiros por lá.
No elevador da torre...
                                                           
De cima da torre se vê La Defensé.

Por volta das oito horas, enfim consegui chegar ao primeiro piso. Muitos casais se beijando, o pôr-do-sol era lindo. Escuro mesmo só ficaria a partir das 22:15, por isso deveria ter cuidado, para que o crepúsculo tardio não me fizesse perder a hora. Na fila para chegar ao terceiro e último piso, ouvi uma moça falando em espanhol pelo celular, assim que ela desligou puxei assunto perguntando de qual país era. O bom de ser mochileiro é que facilmente se faz amizade, não poderia estar em cima da torre sem ter alguém para compartilhar aquele privilégio. Ela era mexicana e o seu nome era Laura.

Visão do último piso.

Laura e eu no elevador que desce.


Distância de Brasília e Buenos Aires à Torre Eiffel.

Faltava apenas 10 minutos para o último trem como diria a música. Fui correndo e consegui alcançá-lo, porém não esperava por um certo problema. O trem não ia diretamente para Sant Cyr, ele parava em Versailles e para que eu pudesse seguir viagem teria que sair dessa estação e ir até uma outra que ficava uma quadra atrás. Falando assim parece simples e realmente era, o difícil foi eu compreender que deveria fazer isso em francês. A fama de antipáticos dos parisienses, ao meu ver, é imerecida. Mesmo sem entender patavinas do que o funcionário da estação de Versailles estava me dizendo em francês, ele foi paciente, pegou uma folha de ofício e começou literalmente a desenhar, mesclando as informações com inglês, consegui captar um left aqui, um stret ali e mesmo sem entender muito bem o que tinha que fazer, lá fui eu  perdido por volta da meia-noite.. Parei alguns cidadãos e pedi informação em espanhol, mas eles só sabiam francês e um pouco de inglês.
Hotel em Versailles.

Uma palavra aqui e outra ali, não entendi completamente o que tinha que fazer, mas continuei minha jornada falando "Sant Cyr" para todos que passavam por mim, ao princípio eles não entendiam meu francês com sotaque baiano, mas quando repetia feito um papagaio "Sant Cyr, Sant Cyr", eles me indicavam com o dedo onde estava a estação e lá cheguei. Faltava 20 minutos para o trem sair, respirei aliviado, mas nem tanto, pois com que cara chegaria na casa dos outros tão tarde assim?

O pior mesmo foi ter que passar pela floresta que dava como atalho a casa de Lucy, não sabia ir por outro caminho e lá fui eu à meia-noite passar por uma floresta deserta. Uma mulher com o seu filho pequeno também iria passar por lá, eu os segui, a mulher começou a correr com medo de mim e eu assustado também comecei a correr, foi uma cena tragicômica.
 
Meia-noite e pouco cheguei a casa de Lucy, mas não acertava chamá-la, pois o interfone era diferente do Brasil, comecei a jogar pedra na janela da casa e nada, passei meia hora lá feito louco, até que ela foi olhar a janela antes de dormir, pois já havia cansado de me esperar e graças a Deus me viu lá do lado de fora.

Paris ao anoitecer.
Essa viagem à França foi uma das melhores de minha vida, não somente pelas coisas belíssimas que vi, mas devido todo o contexto. Agradeço a Vitor e a Lucy que me receberam muito bem, a amizade de Núbia que confiou em mim como seu guia, até vômito no trem teve... Não dá para contar todos os por menores, mas quero deixar claro que o vômito não foi meu. Horrível forma de terminar um post. E quanto a dor de garganta com a qual cheguei em Paris, não sei dizer se foram as paisagens que me curaram ou se foi o mel que tomei quase inteiro na casa de Lucy, obrigado pelo mel também, não posso esquecer. Mais doce que o mel foram os momentos que passei por lá. E o engraçado é que apesar de ter me perdido, achei coisas que não esperava: achei-me especial.

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