segunda-feira, 7 de março de 2011

Relato de Viagem - Portugal - Sintra e Mafra

Faz exatamente uma semana que cheguei a Buenos Aires para viver por tempo indeterminado, enquanto adiciono conhecimentos sobre a capital argentina para compartilhar no blog, faço um relato sobre Sintra e Mafra. Até pensei em falar delas num post juntamente com Lisboa, porém creio que é melhor fragmentar, pois essas duas pequenas cidades abrigam grandes monumentos.

Ainda em Madrid, acordei às quatro da matina para ir ao aeroporto, às 07:10 o avião partiu e às 07:20 ao som de Elephant Gun (Beirut) avistei a branca e linda cidade de Lisboa. Claro que de Madrid à Lisboa não são apenas dez minutos, explico: em Portugal é uma hora a menos. Façam as contas. Deixei minhas malas no hostel e logo em seguida fui à estação de trem com destino a Sintra.

Confesso que toda essa facilidade de locomoção da minha parte foi devido a duas coisas. Primeiro: já havia quase três meses que estava na Europa. Segundo: já havia estado antes em Lisboa acompanhado por um guia que me explicou tudo. Não pensem que o guia foi pago. Quando ainda estava no Brasil, acessando as comunidades sobre Portugal no Orkut, conheci um brasileiro que vivia por lá, teclamos muito por msn e ele me serviu de guia, fotógrafo e amigo. Não poderia fazer esse post sem agradecer ao Roger, mesmo hoje não tendo muito contado, ele é uma daquelas pessoas que se tornam presentes no momento em que mais necessitamos.

Voltando a Sintra... Ah, quem me dera que essa frase fosse literal... Cheguei por volta das dez horas da manhã e a primeira atração turística foi o Castelo dos Mouros, construção árabe que eu já havia visto no primeiro capitulo da minissérie OS MAIAS, da Rede Globo.

Castelo dos Mouros.

Andando pelas muralhas.
Apesar do calor, já que era verão, Sintra - por estar situada em uma serra - fazia frio. Vento gelado, paisagem deslumbrante, muita história para contar. Andando sozinho por aquelas muralhas estreiras me fez sentir como se houvesse voltado no tempo. Uma parte do castelo estava interditada, pois haviam descobertos corpos enterrados, ou seja, mistérios históricos. Do alto daquelas pedras era possível ver o Castelo da Pena.

De um castelo para o outro....

Cores e beleza...  Palácio da Pena.
 Os castelos geralmente não têm cores quentes. Ou são cinzas, ou num tom salmão, mas o Palácio da Pena é um pelourinho da realiza, classe A. Tem uma parte amarela, outra vermelha, azul... A sensação que dá é que você está diante de uma montagem, uma foto, não parece real. Enorme, andei muito, pensei que não tivesse fim. Muitas salas, pátios, escadas, conhecer cada canto desse palácio dá trabalho, porém é impossível desistir, por mais que as pernas queiram descanso, os olhos não param e exigem que você os leve para ver e admirar todos os pedaço daquela obra prima arquitetônica.

Entrada principal e a torre.
Parece castelo da Disney...
Segunda entrada abaixo disso que parece um sapo...
Parte amarela e vermelha...
Já estava muito cansado depois de visitar os dois castelos. Sobe e desce, escadas para dar, vender e emprestar. Mas não podia ir embora de Sintra sem antes conhecer a famosa Quinta da Regaleira. Não sei ao certo se é tão famosa, pelo menos acredito eu que nem todos os brasileiros têm conhecimento deste assustador lugar. E digo assustador indo contra a conotação semântica que temos, pois o assustador ao qual me refiro é o choque e o susto de existir um lugar tão lindo como este.

Assistindo aos extras do DVD de "Os Maias",  vi que Ana Paula Arósio comentou em sua entrevista que ficou encantada com a Quinta de tal maneira que caminhou por cinco horas pelo jardim, achei que fosse exagero, mas mesmo assim pesquisei sobre o lugar para matar a curiosidade. Mal sabia eu que já havia assistido um clip musical gravado na Regaleira. Trata-se da cantora portuguesa Maísa com o videoclip da música "Cavalheiro Monge". Já achava o lugar deslumbrante desde o tempo do vídeo, tanto que utilizei imagens do clipe em 2008 para a abertura da peça teatral "Amor de Machado".

Quinta da Regaleira... Fora do comum.


Torre medieval...


Pontes, jardins, grutas, torres... Não tem fim.


Literalmente no fundo do poço.

Ana Paula Arósio não exagerou. Andei por exatas quatro horas e meia pela Quinta da Regaleira e não consegui ver tudo. Já não tinha mais pernas. Precisava voltar a Lisboa, pois a noite estava chegando. Sentei num banco de rua ao lado de um colombiano que estava com sua mãe e eles me informaram onde deveria pegar o ônibus até a estação de Sintra e de lá partir para a capital. Foi mais fácil do que o esperado. Às oito da noite cheguei ao hostel, atirei-me na cama, pensei em passar quinze minutos na horizontal só para dar uma aliviada, porém só acordei no dia seguinte.

Clip musical gravado na Quinta da Regaleira.


Ao acordar de roupa e tudo com o sol já forte lá fora, não podia perder tempo. Tomei o humilde café que o hostel oferecia e fui em direção a rodoviária de onde partiria para Mafra, pois seria imperdoável não conhecer o Palácio-convento de Mafra, cenário onde se passa o mais difícil livro de José Saramago, "Memorial do Convento". Como eu o tinha lido no tempo da faculdade seria uma viagem literária. Não havia trem até lá e quando cheguei na tal rodoviária através do metrô estava tudo deserto, tive até medo. Rodei todo o território e não vi uma alma viva, achei que estivesse num filme de terror até que finalmente encontrei a entrada. 

Se quem tem boca vai à Roma, porque eu não poderia ir a Mafra? Mesmo não entendendo bem aquele português embolado e mal educado de alguns portugueses antipáticos, consegui as informações que queria: o ônibus partiria em 20 minutos. Como se não bastasse ter me localizado, ainda passei informações a turistas americanos sobre os horários de ida e volta. Os únicos incapazes de aprender e ensinar são os mortos.

Depois de uma hora passando por paisagens inspiradoras com direito a cata-vento de enérgia éolica, cheguei a Mafra que mais parece um ovo. Ainda menor do que Sintra pelo que pude perceber. A ironia é que mesmo tão minúscula, ela dispõe de um mar de história e de um palácio-convento que choca devido o seu tamanho.

Palácio-convento de Mafra.

De tão grande, era quase impossível tirar uma foto que o coubesse por inteiro. O finado José Saramago usou a verdadeira construção dessa monstruosidade para servir de pano de fundo para a ficção de Bilimunda e Baltazar, também conhecido como Sete-sóis. 

A sinopse é a seguinte: O rei promete ao bispo que fará um grande convento em Mafra caso sua esposa consiga dar a luz. Depois de um ano nasce a criança e muitos portugueses pobres começam a labuta para que a promessa do convento seja cumprida. Entre os construtores está Sete-sóis. Ele trabalha de dia e noite, pois é recém-casado com a misteriosa Bilimunda, uma mulher que perdeu sua mãe para a inquisição. Bilimunda tem o poder de ver as pessoas por dentro e assim lhes podem roubar suas "vontades". O padre que os casam têm ideais científicos, está tentando construir uma máquina que voa, então pede ajuda a Sete-sóis na parte mecânica do projeto, enquanto Bilimunda fica encarregada de roubar as "vontades" alheiass e despejá-las na máquina, só assim ela será capaz de voar. O projeto dar certo e os três voam juntos até que um dia a máquina cai e quebra. É preciso consertá-la, mas o padre necessita fugir, pois a inquisição começa a perseguí-lo. Cabe então a Sete-sóis ir até o lugar em que a máquina caiu toda a semana para endireitá-la. Numa de suas idas rumo a máquina, o mecânico não volta mais e Bilimunda então começa a procurá-lo feito louca por todo o Portugal. Uma história formidável. Não irei contar o final do livro.

Restaurante na frente do convento com o nome em homenagem ao personagem do livro: Sete-sóis.

Andar por aquele lugar foi como se pudesse sentir Bilimunda roubando minhas vontades, ver os trabalhadores morrendo no meio da colossal construção, ouvir as pessoas falarem da promessa do rei. Cheiro de história. Chama-se Palácio-convento porque além das freiras e padres lá formados, o rei aproveitou para fazer uns aposentos para ele, assim poderia se distanciar de Lisboa sempre que quisesse uns dias de sossego. É possível conhecer todas as instalações pelo preço de 10 euros.

Cama do Rei.

Biblioteca do Palácio-convento.

Sala dos animais empalhados. Os fidalgos iam caçar e depois penduravam a cabeça do animal como enfeite.


Sala de Música.


Quarto das freiras.

O Palácio-convento de Mafra tem vários setores. Inclusive uma basílica onde se pregavam as missas. Nesse dia em que eu fui estava havendo um casamento. Como era aberto aos turistas, entrei sem vergonha e como vi pessoas tirando fotos e filmando lá na frente, fiz o mesmo. Porém na saída fui barrado e me fizeram apagar tudo. Por sorte, depois com calma vi que me restara uma foto da noiva e uma parte filmada dentro da igreja com um jovem cantor lírico interpretando "Ave-Maria" enquanto os noivos trocavam as alianças.

A noiva...


Dentro da igreja.

Foi uma experiência inesquecível. Mesmo com o esporro do segurança na saída da igreja valeu a pena minha intromissão. No ponto de ônibus fiquei aguardando o horário para voltar a Lisboa e posso garantir que é imperdoável ir a Portugal e não conhecer Sintra e Mafra.

Para que possam ver com mais detalhes todos os castelos das duas cidades, filmei, editei e upei um video no youtube com as duas músicas portuguesas tema da minissérie "Os Maias". A primeira se chama "Haja o que Houver" e a segunda "O Pastor", ambas do grupo Madredeus. Assistam, reflitam, viagem...

2 comentários:

  1. Nossa, deve ser muito bom viajar o mundo assim, adorei suas fotos. E adoro Beirut.

    ResponderExcluir
  2. É bom sim. Só falta dinheiro para fazer sempre. rssrrs. Beijos.

    ResponderExcluir

Deixe seu comentário.