domingo, 3 de agosto de 2014

Crônica - O Possível Perigo de Viajar

Nem todo o mundo que vai para Pasárgadas fica por lá. Na natureza da viagem, a volta está inclusa, excerto nas raras exceções de quem rompe com o ciclo da lógica. No entanto, a volta inexorável a que me refiro é a física, já à espiritual pode nunca mais regressar, criando assim uma situação tão grave quanto dividir o corpo em dois.


Humanizadora - no sentido mais cruel – há viagem que pode destruir mundos burgueses, interesses preestabelecidos e certezas antes absolutas. Um inocente intercâmbio pode mudar a fé, os conceitos e até os objetivos. Aprendeu o inglês, mas não que mais saber de empresa. Parece que não precisa mais de riqueza. A cor do ouro agora é outra.

Do mochilão na Europa Civilizada pegou o gosto por cair Na Natureza Selvagem. Viu montes e mares, conversou um pouco com gente de todos os vales e seguiu trocando os ares, os sufixos, sem se apegar aos amores e muito menos de se lembrar dos rancores. Foi leve sem casa, sem carro e aparentemente sem carga tributária. Não sentiu falta de Ter, concentrou-se somente em Ser. Deixou-se transformar, esquecendo que a passagem da volta estava comprada.

Retornando ao seio da sociedade ao som de Eddie Vedder, o incômodo já se mostra notável. Talvez seja questão de se reacostumar. Inserido no mercado de trabalho, em meio as cabras, o caminho não parece fluir como antigamente, passa-se a contar os minutos para se desviar do fluxo. É este o primeiro sinal de que as viagens devem parar, o nosso eu está perigando nos abandonar.

Caso nas férias seguinte ocorra outra imersão no mundo paralelo, a volta terá tudo para se fazer mais difícil. O desencaixe com a rotina capitalista pode se tornar completo. Descontentamento em trabalhar com algo apenas pelo dinheiro, tédio extremo em ver sempre as mesmas pessoas, passar pelas mesmas ruas. Crítico do governo, criticado pelos amigos e incompreendido pela família. Se não se tratar do vício, tem depressão, ansiedade quando não viaja e inveja de quem viaja.

Hoje sonhei com Paris e acordei para dar aula em Periperi da Clamação. Perigo de insatisfação.

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