Parecia ser aquele o primeiro dia em meses que o sol permanecera ostensivo até depois das 4 da tarde. Sinal de que o inverno acabara, o que
não era definitivamente bom quando lembrado o cheiro do verão passado. No
entanto, para os poucos que lá viviam, outra comparação lhe serviam de consolo,
em confronto com os demais Campos, Treblinka era o paraíso. Faziam o que tinham que fazer e depois
podiam se casar, dançar, frequentar o bordel improvisado ou simplesmente
descansar até chegar novamente outro trem lotado para despachar.
Naquele primeiro dia de longa duração, o
comandante Franz deixou quatro soldados e seis kapos encarregados pelo comboio
que chegaria da França. O número reduzido de funcionários nunca fora um
problema porque quem ali desembarcava sempre acreditava que iria tomar banho.
Acreditavam por conveniência inconsciente, pois os boatos sobre as câmeras de
gás já eram tão visíveis quanto a fumaça.
Ao abrirem os vagões daquele terceiro trem
proveniente das adjacências de Paris, os soldados e os kapos perderam o
controle automático com o qual desempenhavam sua atividade industrial. Duas mil
crianças para ceifar de vez. A lógica agora se fazia clara: um foi para os
pais, o outro para as mães e o terceiro para os órfãos.
Sem barracões e nem comida para
recepcioná-los, Treblinka os chamou para o banho. Os kapos os despiram falando
as mentiras de sempre, mas dessa vez, comovidos por um resto de sensibilidade,
florearam o engodo.
-Vai ser um banho quentinho! –A bondosa
mentira ainda era tão cruel que um dos kapos preferiu a penosa tarefa de já ir
empilhando os que apodreceram no trajeto.
O
Campo nunca estivera tão sombrio, apesar do sol ainda raiar, o que na realidade
só piorava, pois a luz não deixava que nenhum daqueles rostinhos passasse
despercebidos pelos quatro nazistas. O agricultor mais novo se aproveitou da
calmaria para não sujar as mãos com a colheita maldita. Inventou um
desarranjo...
-Você tem que ajudar. –Protestou o mais
velho.
-São só crianças. Não vão causar
problemas. Eu já volto. –E longe dos demais, seus olhos marejaram, embora
continuasse disfarçando por medo que Hitler o flagrasse em sua compaixão
criminosa.
A liturgia foi concluída. A porta
trancada. Dava para ouvir o choro dos assustados. O mais velho tirou o Zyklon B
da caixa e fez sinal de que entregaria o produto letal para o mais alto,
caberia a este terminar o papel de Fazedor de Anjos. Porém, pela primeira vez,
o mais alto recusou despejar o gás e ainda reclamou. Por que tem que ser eu? O
mais velho preferiu não responder, apenas apontou o produto para a opção que
restara: o soldado menos loiro. Este por sua vez também se negou a concluir o
processo de extermínio. O mais velho se irritou e os relembrou que centenas de
crianças já haviam sido mortas. Estas não eram as primeiras e nem seriam as
últimas.
-Mas elas morriam com a família. E eram
mais adultos que crianças. –Argumentou o mais alto.
-No fim isso não faz diferença nenhuma.
–Rebateu o mais velho.
-Então por que você
mesmo não joga? –Perguntou o mais alto. O som do choro ficava cada vez
mais insuportável. Era possível ouvir até o ranger infantil dos dentes. Devido
ao impasse, chegaram a cogitar que um dos kapos jogasse a morte na câmera. Mas
isso os subalternos mostraram de antemão que preferiam morrer. Já não bastava
colocá-los desnudos na câmera, depois empilhá-los e levá-los ao crematório? A
consciência dos judeus que por sorte ou azar se tornavam kapos, só não os
enlouqueciam porque tinha claro que não era eles que apertavam o gatilho,
embora os colassem na mira. Os seis foram unânimes
a dizerem que preferiam morrer a jogar o gás. O mais velho ainda os intimidou
com a ameaça de matar um dos companheiros, porém não houve jeito.
-E se a gente chamasse o comandante?
–Opinou o mais alto.
-E dizer que a gente tá com pena das
cobrinhas? Ele iria nos delatar e seríamos mandados imediatamente para a linha
de combate. – Explicou o mais velho.
-Podíamos soltá-los e deixar que
tentassem a sorte na floresta. Pelo menos teriam uma chance e nós não nos
sentiríamos culpados. –Sugeriu o menos loiro.
-Você é burro? –Perguntou o mais velho
inflamado. –Isso seria alta traição. –E por ouvir a si próprio, percebeu que
ele mesmo teria que ser o carrasco do núcleo. Inspirou-se no discurso
antissemita para justificar o ato e acabou com aquilo sem mais pesares. Teve
bordel à noite para esquecer. E a parir da segunda remessa, o trabalho ficou
mais fácil, tão fácil e banal, que até as vítimas pegaram o jeito. Hoje
empilham em Gaza.




