terça-feira, 22 de julho de 2014

Conto - A Primeira Safra

Parecia ser aquele o primeiro dia em meses que o sol permanecera ostensivo até depois das 4 da tarde. Sinal de que o inverno acabara, o que não era definitivamente bom quando lembrado o cheiro do verão passado. No entanto, para os poucos que lá viviam, outra comparação lhe serviam de consolo, em confronto com os demais Campos, Treblinka era o paraíso. Faziam o que tinham que fazer e depois podiam se casar, dançar, frequentar o bordel improvisado ou simplesmente descansar até chegar novamente outro trem lotado para despachar.
 
Naquele primeiro dia de longa duração, o comandante Franz deixou quatro soldados e seis kapos encarregados pelo comboio que chegaria da França. O número reduzido de funcionários nunca fora um problema porque quem ali desembarcava sempre acreditava que iria tomar banho. Acreditavam por conveniência inconsciente, pois os boatos sobre as câmeras de gás já eram tão visíveis quanto a fumaça.

Ao abrirem os vagões daquele terceiro trem proveniente das adjacências de Paris, os soldados e os kapos perderam o controle automático com o qual desempenhavam sua atividade industrial. Duas mil crianças para ceifar de vez. A lógica agora se fazia clara: um foi para os pais, o outro para as mães e o terceiro para os órfãos.

Sem barracões e nem comida para recepcioná-los, Treblinka os chamou para o banho. Os kapos os despiram falando as mentiras de sempre, mas dessa vez, comovidos por um resto de sensibilidade, florearam o engodo.
-Vai ser um banho quentinho! –A bondosa mentira ainda era tão cruel que um dos kapos preferiu a penosa tarefa de já ir empilhando os que apodreceram no trajeto.
 O Campo nunca estivera tão sombrio, apesar do sol ainda raiar, o que na realidade só piorava, pois a luz não deixava que nenhum daqueles rostinhos passasse despercebidos pelos quatro nazistas. O agricultor mais novo se aproveitou da calmaria para não sujar as mãos com a colheita maldita. Inventou um desarranjo...
-Você tem que ajudar. –Protestou o mais velho.
-São só crianças. Não vão causar problemas. Eu já volto. –E longe dos demais, seus olhos marejaram, embora continuasse disfarçando por medo que Hitler o flagrasse em sua compaixão criminosa.

A liturgia foi concluída. A porta trancada. Dava para ouvir o choro dos assustados. O mais velho tirou o Zyklon B da caixa e fez sinal de que entregaria o produto letal para o mais alto, caberia a este terminar o papel de Fazedor de Anjos. Porém, pela primeira vez, o mais alto recusou despejar o gás e ainda reclamou. Por que tem que ser eu? O mais velho preferiu não responder, apenas apontou o produto para a opção que restara: o soldado menos loiro. Este por sua vez também se negou a concluir o processo de extermínio. O mais velho se irritou e os relembrou que centenas de crianças já haviam sido mortas. Estas não eram as primeiras e nem seriam as últimas.
-Mas elas morriam com a família. E eram mais adultos que crianças. –Argumentou o mais alto.
-No fim isso não faz diferença nenhuma. –Rebateu o mais velho.
-Então por que você mesmo não joga? –Perguntou o mais alto. O som do choro ficava cada vez mais insuportável. Era possível ouvir até o ranger infantil dos dentes. Devido ao impasse, chegaram a cogitar que um dos kapos jogasse a morte na câmera. Mas isso os subalternos mostraram de antemão que preferiam morrer. Já não bastava colocá-los desnudos na câmera, depois empilhá-los e levá-los ao crematório? A consciência dos judeus que por sorte ou azar se tornavam kapos, só não os enlouqueciam porque tinha claro que não era eles que apertavam o gatilho, embora os colassem na mira. Os seis foram unânimes a dizerem que preferiam morrer a jogar o gás. O mais velho ainda os intimidou com a ameaça de matar um dos companheiros, porém não houve jeito.
 
-E se a gente chamasse o comandante? –Opinou o mais alto.
-E dizer que a gente tá com pena das cobrinhas? Ele iria nos delatar e seríamos mandados imediatamente para a linha de combate. – Explicou o mais velho.
-Podíamos soltá-los e deixar que tentassem a sorte na floresta. Pelo menos teriam uma chance e nós não nos sentiríamos culpados. –Sugeriu o menos loiro.
 -Você é burro? –Perguntou o mais velho inflamado. –Isso seria alta traição. –E por ouvir a si próprio, percebeu que ele mesmo teria que ser o carrasco do núcleo. Inspirou-se no discurso antissemita para justificar o ato e acabou com aquilo sem mais pesares. Teve bordel à noite para esquecer. E a parir da segunda remessa, o trabalho ficou mais fácil, tão fácil e banal, que até as vítimas pegaram o jeito. Hoje empilham em Gaza.

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