“Voar, voar, subir, subir, ir por onde for”, é com estes versos emblemáticos e gritados por Biafra que eu começo mais uma edição do “Entrevista na Alfândega”. A convidada desse mês é aeromoça de uma companhia nacional, a qual não citaremos o nome, mas que não é difícil adivinhar, afinal de contas, no Brasil não existe concorrência no setor.
Lívia Conte tem apenas 24 anos, trabalha 6 dias por semana sobrevoando todo o território nacional e também de outros países América do Sul. Graduanda em Gestão Ambiental e residente em São Paulo, Lívia ainda encontra tempo para se aventurar em lugares mais longínquos, como a Irlanda. Experiência da qual nos contará melhor.
Uzi Por Aí: Oi, Lívia. Obrigado por achar uma brecha em sua agenda atribulada de aeromoça para participar do blog. Eu acho a sua profissão bastante curiosa e já começo perguntando sobre algumas coisas que me intrigam no universo da aeronáutica. Por exemplo, passageiros realmente fazem sexo no banheiro do avião com frequência, ou isso é mais um mito? O que você já presenciou de mais bizarro em seus voos?
Lívia Conte: A nossa vida é corrida, mas dá pra se organizar e conseguir fazer tudo que precisa!
Eu nunca vi isso acontecer no banheiro, até por que nós ficamos atentos a tudo que acontece no avião, principalmente quem entra no banheiro, pois já houve casos de desmaios de passageiros dentro dos mesmos, então monitoramos isso caso a pessoa demore mais do que o normal. Acontecem muitas situações curiosas e inacreditáveis frequentemente. A empresa transporta pessoas de variados níveis sociais, pessoas que nunca viajaram e outras que o fazem toda semana.
Um dos casos que ocorreu no meu voo, lembro que para algum lugar do nordeste, um voo mais longo e lotado, estávamos fazendo o serviço de bordo, quando meu colega que estava de frente para a galley traseira (cozinha do avião), me informou que uma senhora tinha passado o banheiro e entrado na galley, e que não saía de lá. Enquanto ele continuava o serviço fui ver o que acontecia, pois na galley traseira estão as duas portas da aeronave, e também já houve situações que o passageiro forçou a trava acreditando ser a porta do banheiro (não conseguirá abrir a porta totalmente, devido a pressurização, porém dependendo da força poderá ocasionar uma despressurização). Quando cheguei lá, a senhora aparentemente bem humilde e passageira de primeira viagem certamente, estava agachada, preste a urinar no chão da galley. Levei um susto porque isso nunca aconteceu. Minha primeira reação foi “Não senhora, o banheiro é aqui!” e abri a porta pra ela entrar. Meio perdida ela só disse “minha filha, eu não achei o banheiro!”. Voltei querendo dar risada, por que não acreditava que fosse possível uma situação dessas.
Porém em voos noturnos um colega suspeitou de um casal, a cabine estava escura e de vez em quando passamos no corredor para ver se estava tudo ok, e realmente só se via metade do corpo da mulher, a cabeça estava embaixo de uma manta em algum lugar no colo do homem. Depois que passamos algumas vezes, eles perceberam e pararam! Se continuassem, um de nós teria que pedir que parassem, mas foi a única vez que vi isso.
UPA: Hilária a história da senhora. (Risos). E continuando a falar do seu trabalho, eu fico imaginando que numa profissão considerada de risco, o profissional tende a ter mais coragem em todos os departamentos da vida. Qual é a sua relação com o medo? Você ainda tem medo de alguma coisa que envolva avião?
LC: Eu não considero uma profissão de risco, pelo contrário, me sinto muito segura em voar todos os dias, por que confio muito no equipamento que usamos (Boing 737) e nos profissionais que nos conduzem. O medo é saudável, aprendemos a lidar com ele todos os dias, devagar, mas em relação ao dia a dia no avião, a única coisa que me dá um pouco de medo é um passageiro passar por algo grave de saúde, o qual nós não pudermos ajudar.
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| Irlanda. |
UPA: Em uma das suas férias, você foi para Dublin sozinha. O que já mostra um traço de coragem, porque as pessoas não são acostumadas a viajar sem companhia. Você prefere viajar só? Sendo mulher, qual a parte boa e ruim de estar só numa viagem?
LC: Como dizem, as pessoas tem medo do que não conhecem, colocam-se barreiras para justificar a insegurança, falam que não tem companhia, que não tem dinheiro, que não falam inglês... Tudo para não sair da zona de conforto. Eu viajei sozinha não por querer viver uma aventura, ou ficar na minha própria companhia! Até porque nos pernoites (do trabalho) ficamos muitas vezes, comemos e passeamos sozinhos também.
Fui só, pois não havia nenhum amigo disponível, e ao mesmo tempo com grana pra viajar! E eu queria muito ir, e uma aventurazinha não faz mal a ninguém também! Na primeira vez foi um intercâmbio por isso imaginei que faria amizade rápido, e foi o que aconteceu! Da segunda, é outra longa história! Mas posso dizer que quando você escolhe viajar sozinho, você tem a vantagem de viver cada dia ao acaso, o que lhe trás aquele gostinho de “o que vai acontecer hoje?
Quando se está acompanhado sempre se faz um roteiro, o qual dificilmente muda, vai nos lugares famosos e também você não se sente obrigado a interagir com outras pessoas. Quando se esta só você precisa fazer isso, na cara de pau, falando meio mímica, meio inglês, mas com um sorriso e preparado pra ser bem recebido ou não, isso desenvolve sua coragem também, além de conhecer lugares mais secretos e até mais interessantes que só os habitantes locais podem te levar.
Em relação a “ser mulher viajando sozinha” não vejo diferença, não me considero frágil, nem menos capaz de nada. Só um detalhe que a maioria das mulheres sente uma enorme dificuldade, ver mapas! Viajar sozinha, ou acompanhada, eu só quero viajar!
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| Passeio em Bray, com grupo de vários países. |
UPA: Isso o que você falou sobre modos de se comunicar e viajar sem companhia condiz totalmente com um post aqui do blog: “Como viajar sem saber falar outrosidiomas”. É exatamente assim. Agora mais especificamente sobre essa viagem de férias, qual é o roteiro de solteiro em Dublin? Dê-nos algumas dicas turísticas da cidade.
LC: Dublin é inteiramente bohemia, lá você pode sair à noite entrar e sair de diversos pubs e não pagar entrada (acho isso incrível!). O pub mais famoso é o The Temple Bar, um pub tradicional, com bandas folk, com som de flautas, bouzouki irlandês, e uma atmosfera muito mágica que te faz se sentir em outra época! Fica numa área de mesmo nome, que preservaram as ruas da época medieval, e lá você encontra pubs variados, e restaurantes, além dos inúmeros artistas de rua, tocando (incrivelmente bem).
Também famosos entre os brasileiros estão o pub The Mezz, e a boate Diceys (as 3f TUDO por apenas 2 euros cada, comidas/bebidas) . De modo geral, se você é solteiro, opções de vida noturna não faltam, tem muitas casas noturnas de diversos gostos, e não são caríssimas como em São Paulo. Aconselho não seguir um roteiro, se arrume às 18h e vá explorar a região do Temple Bar, faça amizades, eles poderão ser sua companhia num passeio ou no próximo pub. Ou seja, entre num pub, e deixe as coisas acontecerem! Se não gostar vá para outro. Amizade se faz assim que você pega uma pint de Guiness!
Os irlandeses são extremante amigáveis, e não demora muito para alguém vir conversar com você (sem segundas intenções!). No final você terá boas histórias pra contar e muitas surpresas!
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| The Temple Bar. |
UPA: Você já poderia fazer um guia para os baladeiros, hein?! (Risos). A Irlanda fica um pouco fora de rota do Brasil. Acredito que por isso a passagem seja até mais cara. O que lhe atraiu a ir justamente para lá? Você tem alguma dica de como conseguir voos mais baratos para Dublin?
LC: Para intercâmbios é o lugar mais em conta de todos que eu pesquisei. Tem a vantagem de não precisar de visto para entrar, apenas passaporte, local de hospedagem comprovado, matrícula em uma escola e o dinheiro suficiente para sua estada.
O que me atraiu foi a história mística do lugar, me senti atraída pelas paisagens, pelas lendas, pela música e pela história antiga daquela ilha, depois que comecei a pesquisar mais tive certeza que lá era o lugar certo.
Sobre voos mais baratos, a dica é: pesquise com bastante antecedência as passagens, voos de madrugada. Agora, a época do ano mais barata não faço idéia, porém a época mais agradável de ir é entre junho e agosto, quando a temperatura é agradável e pode-se até ter dias de sol. Se você está sem grana para a hospedagem aconselho dar uma olhada no https://www.couchsurfing.org/, é um programa de hospedagem onde você pode ficar de graça na casa de alguém em qualquer lugar do mundo (por um período curto, claro).
Em Roma, depois de algumas mudanças de última hora fiquei numa hospedagem assim. Você pode verificar qual é o usuário com mais indicações, e até conversar com ele sobre a hospedagem. É uma opção boa pra quem quer economizar, conhecer novas pessoas e seus costumes, além das dicas que ela pode te dar sobre o lugar.
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| Castelo na Irlanda. |
UPA: Você é aventureira mesmo. Já tive muitas experiências com o AIRBNB, mas ainda não me senti muito à vontade com o Couchsurfing. Um dia quero fazer. E voltando a falar um pouco mais do seu trabalho: você se sente estranha quando está num avião como passageira e não como aeromoça? Quero dizer, você consegue se desligar do que acontece ao redor e ficar apenas curtindo a viagem?
LC: Sim, me sinto estranha quando estou de passageira no avião da empresa que trabalho, é muito diferente. ffco vendo se tem alguém com celular ligado perto de mim, ou se já colocou o cinto, ou se precisa de alguma coisa, acho que todos são assim! E de crachá, você continua sendo comissário mesmo sentado no meio dos passageiros! Mas quando estou de férias, consigo me desligar totalmente, e vivo a boa viagem de um passageiro comum!
| Dublin. |
UPA: O que seus pais, amigos, namorados falam da sua profissão? Há sempre um apoio, ou o contrário, reclamam pelo perigo, pela falta de tempo? E quando você para pra pensar sobre seu trabalho, o que lhe vem à mente?
LC: Todos são muito compreensivos, se adaptam à minha escala todos os meses, e a internet ajuda a não sentir tanto a distância.
Quando eu penso no meu trabalho, eu fico dividida, pois é uma ótima profissão, os colegas fazem os 6 dias voarem. Gosto de matar a saudade da cozinha mineira, dos peixes exóticos de Manaus, das praias do nordeste!
Por outro lado, na minha opinião não é uma profissão para se aposentar, te limita um pouco em termos de estudo, e não me vejo um dia deixando meus filhos com babá para ficar 6 dias fora, ou perder mais ocasiões importantes pela vida toda. Acho que no momento me trás satisfação, e bem estar, porque estou conseguindo equilibrar as coisas.
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| Coliseu, em Roma. |
UPA: É, acho que a melhor parte é poder estar em lugares diferentes sempre. Pelo menos ao meu ver. E como dito, numa das suas férias você foi para Dublin e em outra, você foi para Roma. De qual das viagens gostou mais? E o que uma tem diferente da outra?
LC: São dois mundos totalmente diferentes em todos os sentidos. Não consigo dizer qual gostei mais porque ambas foram muito importantes, me trouxeram pessoas que irão ficar pra sempre e desenharam histórias inesquecíveis na minha vida.
Tem diferença uma da outra? TUDO, o povo da Irlanda é mais amistoso, mais sorridente, apesar de ter tido exceções, achei Roma de modo geral mais séria, apressada sem muita paciência com turistas, mas cada região é de um jeito, assim como no Brasil, temos regiões onde as pessoas são mais extrovertidas e outras mais conservadoras (obs: visitei o Sul da Itália, o qual tinha uma atmosfera completamente diferente de Roma, mais carinhosos e prestativos). Dublin é uma cidade moderna, mas que te faz sentir no mundo encantado! Roma é uma cidade antiga, misteriosa, um museu a céu aberto, são dois lugares opostos.
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| Colegas de quarto em Roma (paquistaneses e americano). |
UPA: Também achei o pessoal de Roma muito frio, já na região da Toscana, a hospitalidade é melhor. Enfim... Você uma pessoa que está sempre em movimento. Trabalha, estuda, viaja, mora em São Paulo... E na minha psicologia behaviorista, eu fico pensando: alguém acostumado a viver assim, será que não se torna desapegado com as coisas e com as pessoas? Você tem dificuldade em se apegar, por exemplo, ter um namoro duradouro?
LC: Sua psicologia está certa! Vejo isso em mim e em meus colegas também, somos mais desapegados e adaptáveis. Visto que desapegados, não quer dizer sem vínculos, entendo mais como ser capaz de ficar distante das coisas e pessoas sem sofrer.
Não tenho dificuldade em me apegar, gosto muito de conhecer as pessoas e do sentimento da paixão, não viveria sem isso. Porém os namoros duradouros estão meio em falta, não por causa do trabalho, ou do meu desapego, mas por que homens que valem a pena estão em falta no mercado (no mercado brasileiro pelo menos!).
UPA: Essa é desculpa é meio antiga (risos). Depois conversaremos melhor sobre isso. Vou passar pra próxima. Nos conte um momento inesquecível que viveu em Dublin.
LC: Momentos tiveram tantos, todo dia acontecia alguma coisa, queria muito que fosse assim por aqui também. Nos meus últimos dias lá, eu me dei conta que existe um lugar melhor para se viver, que existem lugares que você pode andar na rua sem olhar pra trás e se esquecer sua bolsa num pub alguém vai guardá-la pra você, descobrir que tem um lugar assim foi o momento inesquecível.
Bate-volta, Jogo Rápido
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| Passeio em Bray. |
Empresa aérea em que trabalha: A porta para a realização dos meus sonhos.
Comissários de bordo: Guerreiros.
Pilotos: Amam o que fazem.
Vida amorosa: Tem que se arriscar, cada história é uma história.
Um aeroporto bom do Brasil: Acho o de Porto Alegre organizado. Demorei pra pensar em um viu.
Entendo o porquê. E dois aeroportos péssimos do Brasil: Galeão (RJ), Brasília e Guarulhos.
Dizer apenas dois não dava, né?! (Risos). 25 de março ou Brás? 25 de março.
Laura Pausini ou Shakira? Que difícil! Devido a minha fase romântica, Laura Pausini.
Próximo destino de férias: De férias não, de fim de semana!! Paris!!! Nas férias estou doida pra ir à Tailândia.
E para terminar, o que você diria no autofalante do último voo de sua carreira como aeromoça? Não comprem carros, VIAJEM.
Uzi Por Aí: Falei isso essa semana para minha mãe. Lívia, eu não te conheço pessoalmente, mas é incrível como me identifico com você e acho que isso se deve ao fato de que pessoas viajantes aprendem basicamente a mesma coisa: o mundo é grande demais para se limitar a uma cultura, a um grupo de pessoas e a um só lugar. E assim, ampliando os horizontes, agregando um pouco de cada ser humano que passa em nossa vida, a gente se mais rico. Não por ter, mas por ser. Achei você uma mulher interessante, corajosa e até mesmo um exemplo de inspiração para todos que querem sair do comodismo. E já que gosta de Laura Pausini, termino a entrevista parafraseando a cantora com uns versos que têm tudo a ver com você: “Por el caminho verás que no estarás tú sola, por el camino encontrarás también tu lugar em el mundo, oirás por el camino latir tu corazón, encontrarás más amor”. É o que te desejo também.
Bom, ficamos por aqui, mas no mês que vem voltaremos com mais uma edição tão interessante quanto a vida de uma jovem e bonita aeromoça. Até lá.
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| Lívia Conte sozinha em Bach Bray. |






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Amei a entrevista. A experiência dela me encorajou mais ainda. :)
ResponderExcluirQue legal Riane! Vá mesmo, você só vai se arrepender de não ter ido antes!
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