Mara acordou pressentindo que o dia não seria nada bom. Não fazia falta ser advinha para intuir tal futuro, bastava lembrar a conversa que tivera pelo celular com o namorado antes de dormir. Na realidade, gritaram mais do que conversaram. A ligação estressante ao menos servira para marcar uma conversa ao vivo, a qual se realizaria em algumas horas.
Sabendo que aquele seria o encontro
decisivo da relação, Mara foi vestida para matar, preparada com rímel aprova
d’água para chorar e com o texto decorado para discursar. Não à toa, ligou para
as melhores amigas a fim de ensaiar o que iria dizer, planejar cada movimento,
estudar todas as possibilidades... Lá se foi Mara como se tivesse indo para a
guerra.
Antes de tocar a campainha, ajeitou a
expressão facial. Colocou a de imponência. Quando o namorado lhe abriu a porta
e lhe disse entra em tom de indiferença aguda, ela teve certeza que logo ele a
convidaria para que se retirasse de sua vida. Ficou na defensiva durante toda a
introdução do término até que o interrompeu tentando sintetizar as coisas: “É a
Cidinha, né?!”. Ele jurou que não. Não era pela Cidinha. Destacou inclusive que
Cidinha não tinha nada a ver com a história: “A gente é que não tá dando
certo!”. Mara respirou fundo para não partir para a ignorância, porém o
oxigênio não fez efeito: “Você é um cretino!”, gritou. A partir desse momento,
não deixou que ele dissesse mais nada, quem iria dizer era ela, declamou o
discurso que havia ensaiado mentalmente: “Eu fiz tudo pra gente dar certo. Eu
te apoiei quando você estava com problemas com o seu irmão, eu fui compreensiva
quando você teve que passar um mês inteiro no Rio, eu te respeitei, fui fiel,
sempre fui carinhosa...”; chorou sem borrar a maquiagem, colocou o dedo na cara
dele e quando já não parecia bem continuar com aquela cena, disse a seguinte
frase de impacto antes de ir embora quebrando salto: “Você é um falso que não
merece e nunca vai merecer uma mulher de verdade como eu!”.
Embora tenha saído satisfeita com a
forma que conseguira manter a dignidade, foi só alcançar a rua que a pose de
mulher forte se despedaçou. Aconchegou-se numa porta de ferro de um comércio
abandonado e deslizou o corpo até o chão. Era uma mistura de ódio, decepção e aflição
por sua autoburrice. A única coisa que lhe confortava era saber que naquele
beco não havia uma alma viva para testemunhar seu papel de trouxa abandonada,
traída, acabada... Analisou-se e chegou à conclusão de que não era um
ser-humano, mas sim um caco de tubaína jogado no Beco do Ultraje. Olhou para o
céu desesperançosa, parecia que ia chover. O que mais faltava lhe acontecer? É o
fundo do poço, Mara. Foi o que pensou antes de ouvir: “É um assalto. Passa
tudo!”.
Só podia ser brincadeira e não estava
com humor para isto. Fez pouco caso do meliante de olhos verdes que segurava um punhal. “Eu não vou passar nada, meu filho. A única coisa que eu tô passando
é raiva”, respondeu sem saber se limpava as lágrimas ou se descontava sua
tristeza partindo para o corpo a corpo. O bandido ficou surpreso com a reação da
moça e perguntou se ela estava doida enquanto a ameaçava com a aproximação do punhal. “Que bandido chato. Não tá
vendo que eu não tô no clima?”. E ela falou de uma maneira tão natural que o
rapaz não pôde deixar de rir. “Tá rindo do quê palhaço? Vocês homens não
prestam. Ô, raça ruim! Sai daqui, me deixa em paz”. Disse se levantando para ir
embora, quando o bandido, já fora do clima de assaltar, perguntou o que tinha
acontecido. Mara não se fez de difícil e foi logo falando mal do recente
ex-namorado, precisava maldizer o cretino e para isto tanto fazia a profissão
do ouvinte.
“A gente tava até indo bem, sabe? Mas aí
reapareceu uma ex-namorada dele, uma tal de Cidinha...”, e bastou dizer este
nome próprio no diminutivo para que o marginal também se abrisse. “Eu tinha uma
ex-namorada que se chamava Cidinha. Eu era mó bom com ela e ela me traiu...”.
Começou a xingar a pérfida ex. “Essas Cidinhas nenhuma presta”, generalizou
Mara. “Vai ver é mesma. Como é a Cidinha aí do teu ex?”, começaram a comparar a
aparência física das Cidinhas e chegaram a conclusão de que não eram a mesma.
De todos os modos, concordaram que toda Cidinha é negativamente igual. “E
aposto que você é mais linda que ela”, elogiou o bandido. “Se fosse mais
bonita, ele não tinha me trocado”, replicou abaixando a cabeça para chorar.
“Trocou, porque é idiota. Eu não te trocaria por Cidinha nenhuma”, ela levantou
o rosto para classificar a declaração como fofa, porém antes de dizer qualquer
coisa, foi surpreendida com a pegada do bandido que lhe roubou um beijo. Por
estar sofrendo demais, permitiu-se retribuir ao beijo e lá ficou por dois
minutos correspondendo a língua, a saliva e os lábios. “Tá bom, meu fio. Agora
chega. Eu tenho que ir pra casa e tu tem que continuar assaltando”, disse ela o
afastando. “Espera, vamos continuar conversando” pediu encarecidamente. “Posso
não”, respondeu dando as costas. “Por favor, eu não vou te fazer mal. Eu gostei
você”, obviamente ela não acreditou. “Eu sou uma pessoa boa, posso te fazer
feliz”, insistiu. “Se toca. Eu não quero mais saber de homem, muito menos de
homem bandido. Sorte”, desejou seguindo o seu caminho enquanto o marginal, com
o coração acelerado, admirava-a desfilar pelo beco.
Apesar dos pesares, o beijo serviu para
que Mara percebesse que não valia a pena chorar pelo recente ex e muito menos
se angustiar para encontrar o próximo relacionamento. O melhor que fazia era se
fechar um tempo para o amor. Até porque já não acreditava que amor fosse uma
coisa boa. Paixão para ela virou sinônimo de burrice.
Acontece que o bandido era poeta nas
horas vagas. Ninguém sabe como, mas descobriu onde ela morava e passou a lhe
deixar bilhetes românticos na caixa de correio.
“Por você mudaria o que não presta em
mim para poder prestar para você”.
“Depois daquele beijo já não sou o
mesmo”.
“Já levei surra de policia, mas nada dói
mais do que não te ter”.
“Antes de me julgar, me dê uma chance
pra eu te amar”.
E foram tantos os bilhetes que Mara balançou. E
se esta fosse a história de amor destinada à sua vida? Não seria de todo o mal.
Poderia dizer aos netos que consertou o avô bandido. Talvez escrevesse um livro
sobre o poder do amor, relatando sua experiência. Quem sabe ainda este livro
não seria adaptado para o cinema? Além de bem amada, ficaria famosa. Seria
inspiração para mulheres que têm a vida amorosa no chão. Daria palestras
remuneradas sobre como ser feliz no amor. Tanto pensou que acabou dando uma
chance ao meliante.
Conheceu a história triste, ouviu
discursos coerentes, riu dos episódios contados. E aos poucos o pé atrás foi
cedendo. Não bastou mais que dois meses para estar completamente apaixonada,
feliz, realizada. Falava para as amigas o quanto era bem tratada, ressaltava as
qualidades do rapaz, suspirava só de lembrar como o amor superou todos os
obstáculos.
Estava tão contente que nem se importava
mais em acordar com os passarinhos cantando em sua janela. Espreguiçou e
quando atravessou a porta do quarto, levou um susto. Onde estava sua televisão?
O notebook também sumiu. O aparelho Blu-ray... Em cima do centro, um último
bilhete: “Não tente mudar bandido”.




