Depois de passar por uma seleção angustiante,
enfrentar aulas dilacerantes e quebrar a cabeça com a realização do projeto de pesquisa, o mestrando enfim chegará ao pior momento de todos: a dissertação.
O bicho papão é fichinha quando você se vê diante de
um monstro a ser escrito. Cem páginas no mínimo e por enquanto você só tem
quinze, incluindo alguns parágrafos que roubou do projeto. Já não tem mais
colega para pedir ajuda, agora é cada um por si e o orientador por todos. Como
cantaria Mara: não adianta chorar, se iludir... O negócio é sentar e escrever.
A página em branco olha pra você lhe desafiando e a
única coisa que lhe vem à mente é jogar o notebook ao longe, rasgar as vestes e
sair na rua jogando pedra. Peça pra mãe orar, pro pai jejuar e pros amigos se
afastar. Escrever uma dissertação exige isolamento, ódio a festas e amor ao
sofrimento.
E quando as ideias seguem sem dar notícia, o jeito é
se debruçar sobre mais livros, a fim de tirar um pensamento no qual possa ser
desenvolvido por duas ou três páginas, talvez se forçar saia quatro. Se pelo
menos tivesse uma imagem para comer mais espaço. A gente fica lunático com o
tamanho da locução adjetiva, fervoroso que o tópico vai render e rancoroso
quando o Word apaga uma frase sem querer.
A dissertação se torna sua namorada, sua morada, inimiga
que lhe tira o sono e amante que lhe excita quando um capítulo é concluído. É o
momento mais difícil, o semestre mais sem vida, uma peste. Para piorar, o mês
da defesa está marcado, a qualificação se aproxima, implora-se mais prazo.
A fase final requer muita força. E aos que já são
desequilibrados, eu deixo um recado: não façam mestrado!



