domingo, 18 de agosto de 2013

Entrevista na Alfândega: Maurício Campello (Mochileiro - América do Sul e Europa)


“Não tenha medo de viajar sozinho, tenha medo de não ter dinheiro para viajar”, é com esta frase – inventada por mim mesmo – que eu começo mais um “Entrevista na Alfândega”. Nesta edição, o meu entrevistado é um gaúcho (tchê) que mora em Porto Alegre, mas que gosta de colocar uma mochila nas costas e sair pelo mundo.

Maurício Campello tem 28 anos, trabalha na Petrobras e já conheceu diversos países na categoria de mochileiro. Chile, Perú, Uruguay, Portugal, Espanha, França e Itália são alguns dos lugares pelos quais passou e ele pretende conhecer muitos outros. Cinéfilo e com uma bagagem turística respeitável, hoje ele nos contará um pouco de suas experiências, compartilhará dicas e revelará segredos pessoais, afinal de contas, vida alheia também é cultura.

Maurício Campello no Vulcão Osorno, Chile.
Uzi Por Aí: Oi, Maurício. Obrigado por ter aceitado o convite e eu já quero começar perguntando algo que para muitas pessoas é um tabu: viajar sozinho. Em algumas de suas andanças pelo mundo, como por exemplo no Chile, você viajou só. Então eu pergunto: você prefere viajar sozinho ou acompanhado? Quais são as vantagens que você vê em pegar a estrada com a solidão?

Maurício Campello: Viajar sozinho nem sempre foi opção minha, mas, muitas vezes, consequência por não ter amigos com boas condições econômicas ou mesmo sem disponibilidade de tempo, visto que muitos estudam até hoje. Fora isso, sempre tive receio em viajar com conhecidos porque ouvia falar que “as melhores amizades se desfazem em viagens”, em virtude de interesses distintos, que poderiam acarretar em brigas. Porém, foi justamente na viagem para o Chile que senti falta de companhia, pois começaram a acontecer alguns problemas e não havia ninguém com quem dividir e ajudar a resolvê-los, como a erupção do Vulcão Puyehue, que fechou aeroportos, e uma grande tempestade em Pucón. Mas viajar sozinho também é interessante, pois é uma grande oportunidade para descansar e relaxar em lugares de grande beleza e esquecer o stress do resto do ano.

UPA: Já que você tocou no assunto, eu quero saber: como foi a experiência de ver um vulcão em erupção, você não teve medo? Ainda mais que as consequências dessa erupção foram terríveis. E outra coisa, esse vulcão fica afastado da região central do Chile, onde fica: Santiago, Valle Nevado,Viña, Valparaíso... Então eu também pergunto: qual dessas regiões chilenas você gostou mais?

MC: Depois de realizar viagens com roteiros bem turísticos, tenho feito itinerários mais peculiares, pois nesses é possível conhecer lugares muito interessantes e nem tão lotados. A minha ida à Puerto Montt durante erupção do Vulcão Puyehue foi um dos grandes momentos que tive em minhas viagens, pois fui testemunha de imagens fantásticas que não sei se terei oportunidade de ver outras similares futuramente. Em relação a sentir ou não medo, posso te dizer que, quando a recepcionista do hostel me avisou que um vulcão tinha entrado em erupção havia 10 minutos, fiquei temeroso, mas, como as nuvens deslocavam todas as cinzas para a Argentina, acabei não sendo afetado diretamente e pude ter uma estada bem tranquila, apenas fui prejudicado pelo fechamento dos aeroportos. Quanto à segunda pergunta, com certeza foi a região sul do Chile a que mais gostei, pois é repleta de lagos e vulcões, podendo-se fazer espetaculares passeios, trekkings ou outros esportes de aventura. Mas ainda me falta conhecer o extremo sul, onde se encontra o Parque de Torres del Paine, que deve ser o lugar mais bonito do Chile, além do Deserto do Atacama, no norte, é claro.

No Vulcão Puyehue no momento da erupção.
UPA: Conhecer lugares exóticos exige de certa forma algum desconforto, principalmente quando se é mochileiro. Como você lida com essa questão? Você acha que para ser mochileiro é preciso ter total desapego com o conforto? 

MC: Com certeza é necessário um pouco de desapego, mas não é nada muito extravagante, ao contrário do que muitos pensam. Creio que você concorda comigo. A maioria dos hostels tem qualidade, contando com o necessário para garantir uma boa estadia, como, por exemplo, chuveiro com água quente, cama macia, café-da-manhã... Acho muito mais interessante trocar um hotel de luxo por um hostel bem localizado, pois, a meu ver, o turista só necessita da sua hospedagem para dormir e fazer o desjejum. O resto do dia temos que passar nas ruas conhecendo as pessoas e os pontos de interesse. Quem quer luxo deve ir para um SPA e não para um hotel em cidade turística.
 
UPA: Eu concordo. Acho que as pessoas precisam perder um pouco de medo e encarar. Eu também achava que albergue era uma coisa ruim e não é. Pelo menos no exterior, a maioria dos albergues possui muita qualidade. Agora se baseando na sua experiência, quais são as principais diferenças entre mochilar na América do Sul e na Europa?

MC: Há três grandes diferenças. A primeira é a questão do idioma, como na maioria dos países da América do Sul se fala castelhano, fica muito mais fácil a comunicação e o pedido de informações, o que é essencial para o mochileiro – falo isso em comparação com o francês, alemão ou outros idiomas do leste europeu. O segundo ponto diz respeito à população, creio que o povo sul-americano é muito mais caloroso e receptivo com os turistas. E a terceira diferença diz respeito à disponibilidade de informações prévias, que é muito maior na Europa, em virtude de ter mais experiência e ser a mais tempo destino turístico, possibilitando uma melhor programação. Tenho que ressaltar, também, um ponto positivo em comum, pois tanto na América do Sul, quanto na Europa, há facilidade de locomoção entre as cidades, países e dentro dos grandes centros.

Rio de Janeiro
UPA: Vivemos num mundo em que as pessoas dão mais valor ao ter do que ao ser. E é pensando nisso que eu pergunto: algum amigo, ou família já te criticou por gastar dinheiro com uma viagem ao invés de comprar algo material? E o que te motiva a investir o seu dinheiro em viagens?

MC: Até hoje apenas um dos meus chefes implicou com minhas viagens, mas ele já mudou de opinião e começou a viajar de duas à três vezes por ano também. Acho que faltava para ele apenas tomar gosto pela coisa e sua nova esposa tratou de mudar seu ponto de vista. Acho que qualquer dinheiro empregado em uma viagem não é um gasto, mas sim um investimento. É algo que nunca ninguém vai poder lhe tirar. É transformar o fruto do seu trabalho em aprendizado cultural e em enriquecimento pessoal.

Machu Picchu, Perú.
UPA: Você acabou de chegar do Perú, onde conheceu Machu Picchu, Lima, Huacachina... E foi também em Puno, onde eu não tive como ir, mas uma amiga da Suiça esteve lá e me disse que se incomodou bastante com a pobreza dos nativos. Você também achou a pobreza de lá mais impactante do que na região de Cusco? E qual é a sensação de “turistar” em lugares tão pobres? 

MC: Em todas as cidades do Perú em que estive, inclusive Lima em seus bairros mais populares, as condições de vida são mais simples do que as nossas. No caso específico de Puno, para se ter acesso ao centro e à região do Lago Titicaca, é preciso passar pelos bairros populares, por isso a impressão de ser mais pobre. Soma-se a isso as vestimentas simples que os nativos usam, influência cultural dos povos antigos que é muito presente até hoje. O semblante do povo também contribui para termos esta impressão, pois trazem nele o cansaço do trabalho e marcas do sol intenso da região. Sua amiga suíça pode não estar acostumada com a pobreza, mas temos que lembrar que, ao visitarmos o Rio de Janeiro, nossa principal cidade turística, é possível ver uma favela em cada bairro. Infelizmente, acredito que já somos indiferentes à pobreza nas nossas próprias cidades, e isso acaba se estendendo às cidades que visitamos.

Com nativa nas "Islas Uros", Puno, Perú.
UPA: Faz sentido. Mas mesmo assim, eu fiquei muito impressionado com a pobreza da região de Cusco. Não esperava que fosse tanto. Enfim, mudando de assunto... Dos pontos turísticos que você já viu, qual foi o mais bonito e o mais frustrante?

MC: Os mais bonitos foram dois: Machu Picchu, pela sua beleza, paz que transmite e pela capacidade dos Incas em construí-lo sem grandes tecnologias, há mais de 600 anos; e, por incrível que pareça, a Fontana di Trevi, em Roma, mais impressionante para mim do que o Coliseu. Não sei porque essa fonte me fascina, se é o clima de festa espalhado no ar ou se a própria beleza do monumento. E o mais frustrante foi a cidade de Milão em si, pois, tirando o Duomo e o afresco ‘A Última Ceia’, não há mais nada interessante.

Fontana di Trevi, Roma, Itália.
UPA: Vamos falar um pouco de vida amorosa. Em suas viagens lhe atrai mais a ideia de ficar com mulheres nativas (para ter um intercâmbio cultural mais aprofundado) ou mulheres igualmente mochileiras (para compartilhar interesses comuns)? Ou vai me dizer que você foca tanto na viagem que não tem tempo de pensar nessas coisas? 

MC: Devo admitir que acabo não pensando muito no assunto. Tento interagir com o maior número de pessoas estrangeiras quanto puder, porém acabo muitas vezes em grupos de brasileiros, inconscientemente, pela facilidade da língua. Já em relação às nativas, acho mais difícil de me relacionar, principalmente em cidades pequenas, pois não há muitos ambientes para ocorrer a interação. Grandes metrópoles possibilitam um contato mais íntimo, pois há grandes festas e mais diversão nos hostels.

No Coliseu.
UPA: Conte-nos sobre a situação mais engraçada que aconteceu numa de suas viagens...

MC: Quando estive em Santos, fiquei hospedado no Hotel Mendes Plaza junto com um colega de trabalho. Haviam nos indicado um lugar para sair de noite e fui perguntar à atendente do bar da piscina onde ficava a Ilha Porchat, pois queríamos ir lá à noite para nos divertir. A bargirl ficou nos olhando com estranheza. Insisti na pergunta e ela disse que havia um bar gay lá, perguntando se era lá que queríamos ir. Daí nos demos conta que ela achava que fossemos um casal. Foi constrangedor, mas engraçado também, já que éramos dois marmanjos na piscina todo fim de tarde, sendo que meu amigo tomava caipirinha de kiwi, nada muito viril. Durante o check-out, também ocorreu esta confusão, quando meu colega entregou o cartão do quarto dele, perguntaram “Mais alguma coisa senhor Fulano e senhor Alberto?”, achando que estávamos no mesmo quarto, porém Alberto era o nome da empresa pagadora: Alberto Pasqualini S/A. Sempre contamos essa história para divertir nossos colegas de trabalho.

Bate-volta, Jogo Rápido

Sagrada Família, Barcelona, Espanha.
Solidão: Minha companheira.
 
Amizade: Bem mais valioso que podemos ter.
 
Aeromóvel de Porto Alegre: Antes tarde do que nunca (o projeto original é de 31 anos atrás).
 
Vaticano ou Versailles? Vaticano.
 
Peruanas ou Chilenas? Chilenas, têm menos traços andinos.
 
Tarantino ou Hitchcock? Difícil, dois gênios de gêneros tão distintos, com grandes filmes. Mas fico com Hitchcock, pelo conjunto da obra.  O Tarantino tem muito o que apresentar ainda, sem contar que o intervalo entre Pulp Fiction e Bastardos Inglórios foi sofrível.
 
A Copa 2014 no Brasil vai ser... Uma experiência incrível de intercâmbio cultural e um sucesso como evento, realizada com o jeitinho brasileiro.
 
Um sonho de consumo: Morar em Roma!
 
Dois filmes para indicar aos inimigos: ‘Psicopata Americano’, pior filme que já assisti, ou qualquer um com o Danny DeVito ou Sarah Jessica Parker. E para os amigos: ‘Red – Aposentados e Perigosos’ e ‘À Espera de um Milagre’.
 
Três lugares que ainda não foi por falta de dinheiro: Se só pudesse escolher três, seriam: Atenas, Egito e Moscou. Mas meu grande desejo é fazer uma viagem de volta ao mundo, quiçá consigo fazê-la em 3-4 anos.
 
E para terminar, o que diria sobre você a alguém que lhe vai acompanhar numa viagem? Para me acompanhar em uma viagem é preciso ter disposição para enfrentar várias maratonas. Seja para passar o dia caminhando pelos corredores de museus, ou para subir no ponto mais alto da cidade para ter uma visão panorâmica, ou para conhecer cada canto de uma cidade medieval.

Uzi Por Aí: Haja fôlego, hein. Bom, como diria Silvio Santos, 'faço votos' que você continue viajando, explorando museus e conhecendo cidades medievais. Também torço para que continue sendo essa pessoa otimista. Acho que você tem uma boa maneira de ver o mundo, tanto é, que busca interagir com gente do mundo todo. Obrigado mais uma vez por ter aceitado o convite de falar um pouco de si e de suas experiências como mochileiro.

E aos leitores, eu agradeço pela escala feita aqui no blog, espero que tenham gostado e que voltem na próxima edição do "Entrevista na Alfândega", quando estaremos com mais um viajante nos inspirando a viajar. Ciao!

Maurício no Vaticano.
 

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