“Não tenha medo de viajar sozinho, tenha medo de não
ter dinheiro para viajar”, é com esta frase – inventada por mim mesmo – que eu
começo mais um “Entrevista na Alfândega”. Nesta edição, o meu entrevistado é um
gaúcho (tchê) que mora em Porto Alegre, mas que gosta de colocar uma mochila nas
costas e sair pelo mundo.
Maurício Campello tem 28 anos, trabalha na Petrobras
e já conheceu diversos países na categoria de mochileiro. Chile, Perú, Uruguay,
Portugal, Espanha, França e Itália são alguns dos lugares pelos quais
passou e ele pretende conhecer muitos outros. Cinéfilo e com uma bagagem turística respeitável, hoje ele nos contará um pouco de suas experiências, compartilhará dicas
e revelará segredos pessoais, afinal de contas, vida alheia também é cultura.
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| Maurício Campello no Vulcão Osorno, Chile. |
Uzi Por Aí: Oi, Maurício. Obrigado por ter aceitado o
convite e eu já quero começar perguntando algo que para muitas pessoas é um
tabu: viajar sozinho. Em algumas de suas andanças pelo mundo, como por exemplo
no Chile, você viajou só. Então eu pergunto: você prefere viajar sozinho ou
acompanhado? Quais são as vantagens que você vê em pegar a estrada com a
solidão?
Maurício Campello: Viajar sozinho nem
sempre foi opção minha, mas, muitas vezes, consequência por não ter amigos com
boas condições econômicas ou mesmo sem disponibilidade de tempo, visto que
muitos estudam até hoje. Fora isso, sempre tive receio em viajar com conhecidos
porque ouvia falar que “as melhores amizades se desfazem em viagens”, em
virtude de interesses distintos, que poderiam acarretar em brigas. Porém, foi
justamente na viagem para o Chile que senti falta de companhia, pois começaram
a acontecer alguns problemas e não havia ninguém com quem dividir e ajudar a
resolvê-los, como a erupção do Vulcão Puyehue, que fechou aeroportos, e uma
grande tempestade em Pucón. Mas viajar sozinho também é interessante, pois é
uma grande oportunidade para descansar e relaxar em lugares de grande beleza e
esquecer o stress do resto do ano.
UPA: Já que você tocou no assunto, eu quero saber: como
foi a experiência de ver um vulcão em erupção, você não teve medo? Ainda mais
que as consequências dessa erupção foram terríveis. E outra coisa, esse vulcão
fica afastado da região central do Chile, onde fica: Santiago, Valle Nevado,Viña, Valparaíso... Então eu também pergunto: qual dessas regiões chilenas você
gostou mais?
MC: Depois de realizar
viagens com roteiros bem turísticos, tenho feito itinerários mais peculiares,
pois nesses é possível conhecer lugares muito interessantes e nem tão lotados.
A minha ida à Puerto Montt durante erupção do Vulcão Puyehue foi um dos grandes
momentos que tive em minhas viagens, pois fui testemunha de imagens fantásticas
que não sei se terei oportunidade de ver outras similares futuramente. Em
relação a sentir ou não medo, posso te dizer que, quando a recepcionista do
hostel me avisou que um vulcão tinha entrado em erupção havia 10 minutos,
fiquei temeroso, mas, como as nuvens deslocavam todas as cinzas para a Argentina,
acabei não sendo afetado diretamente e pude ter uma estada bem tranquila,
apenas fui prejudicado pelo fechamento dos aeroportos. Quanto à segunda pergunta,
com certeza foi a região sul do Chile a que mais gostei, pois é repleta de
lagos e vulcões, podendo-se fazer espetaculares passeios, trekkings ou outros
esportes de aventura. Mas ainda me falta conhecer o extremo sul, onde se encontra
o Parque de Torres del Paine, que deve ser o lugar mais bonito do Chile, além
do Deserto do Atacama, no norte, é claro.
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| No Vulcão Puyehue no momento da erupção. |
UPA: Conhecer lugares exóticos exige de certa forma algum
desconforto, principalmente quando se é mochileiro. Como você lida com essa
questão? Você acha que para ser mochileiro é preciso ter total desapego com o
conforto?
MC: Com certeza é
necessário um pouco de desapego, mas não é nada muito extravagante, ao
contrário do que muitos pensam. Creio que você concorda comigo. A maioria dos
hostels tem qualidade, contando com o necessário para garantir uma boa estadia,
como, por exemplo, chuveiro com água quente, cama macia, café-da-manhã... Acho
muito mais interessante trocar um hotel de luxo por um hostel bem localizado,
pois, a meu ver, o turista só necessita da sua hospedagem para dormir e fazer o
desjejum. O resto do dia temos que passar nas ruas conhecendo as pessoas e os
pontos de interesse. Quem quer luxo deve ir para um SPA e não para um hotel em
cidade turística.
UPA: Eu concordo. Acho que as pessoas precisam
perder um pouco de medo e encarar. Eu também achava que albergue era uma coisa
ruim e não é. Pelo menos no exterior, a maioria dos albergues possui muita
qualidade. Agora se baseando na sua experiência, quais são as principais diferenças
entre mochilar na América do Sul e na Europa?
MC: Há três grandes diferenças. A
primeira é a questão do idioma, como na maioria dos países da América do Sul se
fala castelhano, fica muito mais fácil a comunicação e o pedido de informações,
o que é essencial para o mochileiro – falo isso em comparação com o francês,
alemão ou outros idiomas do leste europeu. O segundo ponto diz respeito à
população, creio que o povo sul-americano é muito mais caloroso e receptivo com
os turistas. E a terceira diferença diz respeito à disponibilidade de
informações prévias, que é muito maior na Europa, em virtude de ter mais
experiência e ser a mais tempo destino turístico, possibilitando uma melhor programação.
Tenho que ressaltar, também, um ponto positivo em comum, pois tanto na América
do Sul, quanto na Europa, há facilidade de locomoção entre as cidades, países e
dentro dos grandes centros.
| Rio de Janeiro |
UPA: Vivemos num mundo em que as pessoas dão mais
valor ao ter do que ao ser. E é pensando nisso que eu pergunto: algum amigo, ou
família já te criticou por gastar dinheiro com uma viagem ao invés de comprar
algo material? E o que te motiva a investir o seu dinheiro em viagens?
MC: Até hoje apenas um
dos meus chefes implicou com minhas viagens, mas ele já mudou de opinião e
começou a viajar de duas à três vezes por ano também. Acho que faltava para ele
apenas tomar gosto pela coisa e sua nova esposa tratou de mudar seu ponto de
vista. Acho que qualquer dinheiro empregado em uma viagem não é um gasto, mas
sim um investimento. É algo que nunca ninguém vai poder lhe tirar. É
transformar o fruto do seu trabalho em aprendizado cultural e em enriquecimento
pessoal.
| Machu Picchu, Perú. |
UPA: Você acabou de chegar do Perú, onde conheceu
Machu Picchu, Lima, Huacachina... E foi também em Puno, onde eu não tive como
ir, mas uma amiga da Suiça esteve lá e me disse que se incomodou bastante com a
pobreza dos nativos. Você também achou a pobreza de lá mais impactante do que
na região de Cusco? E qual é a sensação de “turistar” em lugares tão pobres?
MC: Em todas as cidades
do Perú em que estive, inclusive Lima em seus bairros mais populares, as
condições de vida são mais simples do que as nossas. No caso específico de
Puno, para se ter acesso ao centro e à região do Lago Titicaca, é preciso
passar pelos bairros populares, por isso a impressão de ser mais pobre. Soma-se
a isso as vestimentas simples que os nativos usam, influência cultural dos
povos antigos que é muito presente até hoje. O semblante do povo também
contribui para termos esta impressão, pois trazem nele o cansaço do trabalho e
marcas do sol intenso da região. Sua amiga suíça pode não estar acostumada com
a pobreza, mas temos que lembrar que, ao visitarmos o Rio de Janeiro, nossa
principal cidade turística, é possível ver uma favela em cada bairro.
Infelizmente, acredito que já somos indiferentes à pobreza nas nossas próprias
cidades, e isso acaba se estendendo às cidades que visitamos.
| Com nativa nas "Islas Uros", Puno, Perú. |
UPA: Faz sentido. Mas mesmo assim, eu fiquei muito
impressionado com a pobreza da região de Cusco. Não esperava que fosse tanto. Enfim,
mudando de assunto... Dos pontos turísticos que você já viu, qual foi o mais bonito
e o mais frustrante?
MC: Os mais bonitos
foram dois: Machu Picchu, pela sua beleza, paz que transmite e pela capacidade
dos Incas em construí-lo sem grandes tecnologias, há mais de 600 anos; e, por
incrível que pareça, a Fontana di Trevi, em Roma, mais impressionante para mim
do que o Coliseu. Não sei porque essa fonte me fascina, se é o clima de festa
espalhado no ar ou se a própria beleza do monumento. E o mais frustrante foi a
cidade de Milão em si, pois, tirando o Duomo e o afresco ‘A Última Ceia’, não
há mais nada interessante.
| Fontana di Trevi, Roma, Itália. |
UPA: Vamos falar um pouco de vida amorosa. Em suas
viagens lhe atrai mais a ideia de ficar com mulheres nativas (para ter um intercâmbio
cultural mais aprofundado) ou mulheres igualmente mochileiras (para compartilhar
interesses comuns)? Ou vai me dizer que você foca tanto na viagem que não tem
tempo de pensar nessas coisas?
MC: Devo admitir que
acabo não pensando muito no assunto. Tento interagir com o maior número de
pessoas estrangeiras quanto puder, porém acabo muitas vezes em grupos de
brasileiros, inconscientemente, pela facilidade da língua. Já em relação às nativas,
acho mais difícil de me relacionar, principalmente em cidades pequenas, pois
não há muitos ambientes para ocorrer a interação. Grandes metrópoles possibilitam
um contato mais íntimo, pois há grandes festas e mais diversão nos hostels.
UPA: Conte-nos sobre a situação mais
engraçada que aconteceu numa de suas viagens...
MC: Quando estive em
Santos, fiquei hospedado no Hotel Mendes Plaza junto com um colega de trabalho.
Haviam nos indicado um lugar para sair de noite e fui perguntar à atendente do
bar da piscina onde ficava a Ilha Porchat, pois queríamos ir lá à noite para
nos divertir. A bargirl ficou nos
olhando com estranheza. Insisti na pergunta e ela disse que havia um bar gay
lá, perguntando se era lá que queríamos ir. Daí nos demos conta que ela achava
que fossemos um casal. Foi constrangedor, mas engraçado também, já que éramos
dois marmanjos na piscina todo fim de tarde, sendo que meu amigo tomava caipirinha
de kiwi, nada muito viril. Durante o check-out, também ocorreu esta confusão,
quando meu colega entregou o cartão do quarto dele, perguntaram “Mais alguma
coisa senhor Fulano e senhor Alberto?”, achando que estávamos no mesmo quarto,
porém Alberto era o nome da empresa pagadora: Alberto Pasqualini S/A. Sempre
contamos essa história para divertir nossos colegas de trabalho.
Bate-volta, Jogo Rápido
| Sagrada Família, Barcelona, Espanha. |
Solidão: Minha companheira.
Amizade: Bem mais valioso que podemos ter.
Aeromóvel
de Porto Alegre: Antes tarde do que nunca (o projeto original é de 31
anos atrás).
Vaticano
ou Versailles? Vaticano.
Peruanas
ou Chilenas? Chilenas, têm menos traços andinos.
Tarantino
ou Hitchcock? Difícil, dois gênios de
gêneros tão distintos, com grandes filmes. Mas fico com Hitchcock, pelo
conjunto da obra. O Tarantino tem muito
o que apresentar ainda, sem contar que o intervalo entre Pulp Fiction e
Bastardos Inglórios foi sofrível.
A
Copa 2014 no Brasil vai ser... Uma experiência
incrível de intercâmbio cultural e um sucesso como evento, realizada com o
jeitinho brasileiro.
Um
sonho de consumo: Morar em Roma!
Dois
filmes para indicar aos inimigos: ‘Psicopata Americano’,
pior filme que já assisti, ou qualquer um com o Danny DeVito ou Sarah Jessica
Parker. E para os amigos: ‘Red – Aposentados e Perigosos’ e ‘À Espera de um
Milagre’.
Três
lugares que ainda não foi por falta de dinheiro: Se só pudesse escolher três, seriam: Atenas, Egito e
Moscou. Mas meu grande desejo é fazer uma viagem de volta ao mundo, quiçá
consigo fazê-la em 3-4 anos.
E
para terminar, o que diria sobre você a alguém que lhe vai acompanhar numa
viagem? Para me acompanhar em
uma viagem é preciso ter disposição para enfrentar várias maratonas. Seja para
passar o dia caminhando pelos corredores de museus, ou para subir no ponto mais
alto da cidade para ter uma visão panorâmica, ou para conhecer cada canto de
uma cidade medieval.
Uzi Por Aí: Haja fôlego, hein. Bom, como diria Silvio Santos, 'faço votos' que você continue viajando, explorando museus e conhecendo cidades medievais. Também torço para que continue sendo essa pessoa otimista. Acho que você tem uma boa maneira de ver o mundo, tanto é, que busca interagir com gente do mundo todo. Obrigado mais uma vez por ter aceitado o convite de falar um pouco de si e de suas experiências como mochileiro.
E aos leitores, eu agradeço pela escala feita aqui no blog, espero que tenham gostado e que voltem na próxima edição do "Entrevista na Alfândega", quando estaremos com mais um viajante nos inspirando a viajar. Ciao!





