Depois que você passar por uma SELEÇÃO (clique aquipara ler) difícil, com direito à prova escrita, entrevista e teste de
proficiência em outro idioma, já não há o que temer, certo? Errado. O semestre
começa com a confiança em alta, passei em tudo, devo ser inteligente. Caderno
novo, mente aberta, tudo pronto para suas primeiras aulas. São apenas dois dias
na semana, ou até mesmo um dia, depende da sua escolha de carga horária.
Em dois anos de mestrado, você precisa cumprir seis
disciplinas. Só? Na faculdade são no mínimo seis matérias por semestre. Tirarei
de letra. Por favor, quero fazer três disciplinas. Tem certeza? Claro!
Terça-feira de tarde, de uma hora às quatro na sala da Doutora Palo: Literatura Brasileira – O Romance Moderno
Contemporâneo e sua Ambivalência Territorial, Formas e Consciências Dialógicas.
Ham? O que é isso? É o nome da matéria. Ah, tá! Quarta-feira das nove ao meio
dia: O Clássico e sua Adaptação – Literatura, Autor, Leitura. Gostei! E quarta
da uma às quatro: Seminário de Pesquisa. Ok! Parece simples.
O temor reaparece na primeira meia-hora da primeira
aula. Porque a diegese ôntica de Hegel está para Derridá como o cronotopo ontológico
de Bahktin está para a dialogia de Dostoiévski.
Oi? Passa mais uma hora, duas... E enquanto a polifonia no discurso da
professora se multiplica feito uma equação da NAZA, minha cabeça se torna vazia
como a lua. O colega do lado está em saturno. Mas tem um outro que está
entendendo tudo e ainda consegue argumentar, discordar... Acrescentar?! Aí já é
demais.
Tontura, sono, a morte da bezerra.
Socorro. E passa uma semana. Mestrado não tem didática. Abra os ouvidos,
esforce-se, anote. Uma colher de xícara de semancol. Chá de burrice. De tão
burro, não sabia sequer que eu era burro. Mestrado é leitura. E na quarta semana já é possível entender
metade do vocabulário rebuscado. Na sexta semana, a burrice diminui, a
felicidade aumenta. Bom caminho. Mais leituras, trabalhos escritos, seminários.
Me sinto burro de novo, socorro. Aula de mestrado é uma batalha contra a
ignorância. Cansa. Vejo vocês na próxima semana e saímos da sala com o corpo
dolorido, apesar de que sempre há aquele que sai sem nenhum arranhão, como se
fosse o Rambo. Ele se acha. A inveja mata. Cuidado com o seu tapete. Mestrado é
território hostil.
As aulas são difíceis, os
professores são exigentes, mas na guerra também existe humanidade. O mestre lhe
solta um elogio aqui, uma palavra de incentivo acolá, não tem como não amar.
Embora não facilitem com o chororó, o choro é livre e isto já torna as aulas melhores.
Por três horas aprendizado e no intervalo terapia em grupo. Entre mortos e
feridos, a maioria se salva.




