"Voluntariado não é só uma palavra, é amor, dedicação e também ação". É com esta frase feita, porém verdadeira, que eu começo o “Entrevista na Alfândega” deste mês. O
convidado desta edição já apareceu de maneira indireta aqui no blog quando sua esposa me concedeu a primeira entrevista da sessão, isto em 2013. De lá pra cá,
o casal se mudou de país e recentemente tiveram uma filha. Então hoje
iremos conhecer melhor o homem da família.
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| Tomaz de Jesus numa das portas da Mesquita Hassan II. |
Tomaz de
Jesus tem idade de Cristo, 33 anos. Nascido em Campinas e graduado em
administração, assim que se casou foi com a esposa para o Iêmen como voluntário
e de lá conheceu diversos países, entre eles: Turquia, Grécia, Dubai, Líbano...
Atualmente reside no Marrocos, mais exatamente em Casablanca.
Uzi
Por Aí: Tomaz, muito obrigado por você ter aceitado me
conceder esta entrevista, até porque imagino que seu tempo deve ser muito
escasso: trabalho, papelada, também uma filha. E eu começo partindo daí. Ser
pai pela primeira vez morando no Marrocos, distante de todo o mundo, tendo que
lidar com o desconhecido... Bateu medo?
Tomaz
de Jesus: Certamente, causa muita apreensão ser pai de um
bebê num país onde não se tem ninguém conhecido por perto, tampouco se está
habituado ao sistema do lugar. Assim, basta o bebê apresentar algum sintoma
mais sério, como uma febre que não passa, que a preocupação dos pais aumenta
muito.
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| Dentro da Mesquita. |
UPA:
Fazendo um paralelo com Iêmen, eu sei que o Marrocos tem uma economia melhor,
não é isso? Mas culturalmente falando, qual a diferença entre estes dois
países?
TJ:
O Marrocos, de fato, tem uma economia muito mais sólida, comparado ao Iêmen.
Aliás, por falar no Iêmen, a crise política que já era crítica quando estávamos
lá, agora piorou mais ainda. Mas o Marrocos é um país muito estável, além de
muito bonito e rico em cultura. A cultura árabe de modo geral é muito rica,
afinal estamos falando de milhares de anos de história e tradição. Assim,
embora um pouco diferente do Iêmen, a cultura do povo marroquino é bastante
rica e grandemente adaptada à região.
No passado, o Marrocos
e toda a região hoje conhecida como “Maghreb” (ou seja, o ocidente do mundo
árabe, que engloba Marrocos, Tunísia, Líbia e Argélia) era habitada pelo povo
Berber. Com as conquistas islâmicas, contudo, esse povo foi incorporado ao
império islâmico, vindo a adquirir tanto a religião muçulmana como muitos
aspectos da cultura árabe.
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| Entrada da Medina e o Tram - Casablanca. |
UPA:
Quase uma aula. Mas e na prática, Você acha que o Marrocos, como um todo, está
preparado para receber os turistas? Ou depende da cidade? E pergunto isto
porque em relação à segurança, o Marrocos tem uma fama negativa.
TJ:
O Turismo é uma parte muito significativa da economia do Marrocos. De maneira
geral, o país é muito bem preparado para receber turistas e oferece uma
excelente estrutura, assim como muitas opções de passeios. O país é bastante seguro, pois a incidência
de atentados relacionados ao extremismo islâmico é muito pequeno.
O governo marroquino
trabalha em conjunto com as inteligências europeias e americanas para impedir
ataques terroristas, assim como proíbe a entrada de radicais vindos de outros
países islâmicos.
O Islamismo do Marrocos
é considerado moderado, o que significa que o povo vive uma religião mais
secularizada e pacífica, muito mais tolerante do que na maioria dos países em
que o Islam é a religião oficial.
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| Esposa e filha no mosaico marroquino da mesquita. |
UPA:
Bom saber disso. Conte-me mais. O que há de imperdível para se fazer em
Casablanca? Dê algumas dicas do que o turista pode fazer aí.
TJ:
Casablanca é a maior cidade do país, é muito bonita, misturando os estilo francês
e espanhol em muitos de seus edifícios. A cidade é moderna, com prédios
futuristas, mas também preserva belas construções antigas.
Boa parte da fama da
cidade deve-se ao sucesso do filme Casablanca, filmado em 1942. Embora o mesmo
não tenha sido filmado aqui, uma americana apaixonada pelo Marrocos decidiu
recriar, em 2004, o ambiente do famoso Café que faz parte do filme, o “Rick’s Café”,
Restaurante e Piano-Bar. Seu espaço interno preserva traços da arquitetura e
decoração mostradas na produção, e o turista pode, inclusive, assistir e relembrar esse clássico do cinema americano que
é transmitido todas as noite no local.
Lugares imperdíveis, em
minha opinião, seriam a Mesquita Hassan II, que tem o mais alto minarete do
mundo e fica na beira do mar. Mediante o pagamento de uma taxa, você pode fazer
visita dentro do prédio e, numa parte especial, pode caminhar sobre um assoalho
de vidro que dá visão para o mar embaixo.
Outra boa opção é
visitar o Morocco Mall, considerado o maior shopping center da África. Ele
também fica de frente pro mar e possui um enorme aquário cilíndrico.
A Madina (cidade velha)
é outro lugar imperdível. Ali você encontra artesanato de primeira, souvenirs e
diversos artigos em couro (como jaquetas, bolsas, sapatos, carteiras, etc) por
preços excelentes.
As estações de trem
“Casa Port” e “Casa Voyageurs” também são belos cartões postais. A cidade conta
com uma porção de praças arborizadas, com jardins e bancos para a família
brincar e relaxar.
Há muitos restaurantes
e cafeterias, nos quais se encontra um pão e uma azeitona (fresca),
simplesmente deliciosos!
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| Mesquita Hassan II, Casablanca. |
UPA:
Indo um pouco para sua vida pessoal, uma coisa que me chama a atenção é que
você tem Jesus no sobrenome, o que é bastante irônico, já que você tem esse histórico
de andar por países árabes. O sobrenome já lhe causou algum problema por esses
lugares? E eu gostaria de saber também, como o cristianismo é visto por aí?
TJ:
Na religião islâmica, Jesus foi um profeta muito importante, apesar de não
tanto quanto Mohammed. Muitas pessoas, na verdade, tem o nome de Jesus (em
Árabe “Eissa”). Assim, nunca tive qualquer problema relacionado ao meu
sobrenome porque tem paralelo na cultura islâmica de um modo geral.
Já quanto ao
Cristianismo, também de um modo geral, os islâmicos têm uma visão bastante
negativa quanto ao Cristianismo. No Marrocos isso é menor, por causa das fortes
relações com a Europa, especialmente países de maioria católica como Espanha e
Portugal. Na visão muçulmana comum, porém, o Cristianismo é uma religião
deturpada por seguir um livro (a Bíblia) que foi modificado, de modo a criar
doutrinas heréticas sobre Deus (como a trindade e a divindade de Jesus, por
exemplo), sobre o perdão e a salvação (em nada se relacionando com o sacrifício
de Jesus) e etc. Os cristãos, além disso, são vistos como pessoas sem
verdadeira fé por beberem álcool, comerem carne de porco, fazerem sexo fora do
casamento e por não rezarem cinco vezes ao dia.
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| Shopping Morocco Mall. |
UPA:
Realmente não sabia disso. Agora mudando de religião para dinheiro, eu queria
que você falasse um pouco das opções que os turistas têm quanto a isso.
TJ:
O governo Marroquino permite que um turista entre com até MAD100 mil, o que
representa cerca de USD12 mil. Há uma porção de casas de câmbio em que você
pode trocar dólares por dirhams, mas recomendo que se troque apenas o
necessário. Em quase todo o lugar se aceita cartões de crédito internacional e
em muitos ATMs se pode sacar através de cartão de outro país, apesar de as
taxas serem pouco convidativas.
Quando trouxer dólares
ou Euros, tome bastante cuidado porque existem batedores de carteira nos
lugares onde muita gente transita. Além disso, quando trocar dinheiro guarde o
recibo, pois você precisará dele para recomprar moeda estrangeira.
UPA:
Das cidades que conheceu no Marrocos, a que você mais gostou foi realmente
Casablanca? Gostaria que você comentasse sobre o que achou de Marrakesh, Rabat
e alguma outra que tenha conhecido.
TJ:
Na verdade, eu gostei mais de Rabat, por ser uma cidade mais tranquila, mais
planejada e com mais opções de praças e jardins para relaxar. Há muitos lugares
bonitos para fotografar, como o palácio presidencial, o mausoléu e a Madina
(cidade velha) de Rabat.
Marrakesh é um lugar
bastante pitoresco. Fiz várias fotos com meu celular, porém ao retornar a
Casablanca, tive meu celular roubado por um rapaz de bicicleta. Lá se foram
minhas fotos... Aliás, fica a dica sobre um risco muito comum no país: evite
falar ao celular ao andar pela rua, pois muitas vezes os bandidinhos estão só
esperando por uma oportunidade para agarrar seu telefone e fugir.
Mas voltando a falar de
Marrakesh, todos os edifícios são vermelho-terra, de acordo com a lei. Há
muitas mesquitas históricas para se visitar, e o passeio pode ser feito de
charrete e cavalo. No mercado municipal da cidade velha se encontra tudo quanto
é tipo de artesanato e artigos de couro. Também existem shows ao ar livre, com
encantadores de serpentes, animais exóticos, dançarinos típicos e etc. Há
diversas barraquinhas de suco nas quais por um preço muito baixo se pode tomar
suco à vontade, de laranja, de limão ou de romã.
Não tivemos
oportunidade de conhecer outras cidades, mas ouvimos coisas muito boas de
Agadir, mais ao sul, especialmente por suas praias de águas quentes. Também
ouvimos muito de Tanger, ao norte, que possibilita a travessia de balsa para a
Espanha. Na verdade, há duas cidades no Marrocos que pertencem à Espanha, uma
chamada Ceuta e a outra Melilla, ambas no norte.
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| Rabat. |
UPA:
Mas além das cidades, como falamos antes, você também andou por vários países.
Líbano, Emirados Árabes, Tailândia... Então tirando o Iêmen e Marrocos, qual
foi o país que mais te marcou e por quê?
TJ:
Todos esses países me marcaram muito, principalmente o Iêmen, pois moramos lá
quase dois anos. Mas o país que mais tivemos prazer em visitar foi a Turquia,
tanto pela receptividade a turistas, como pela beleza do país e sua riqueza
arqueológica. Visitamos inúmeros sítios arqueológicos de cidades bíblicas como
Éfeso, Esmirna, Filadélfia... Conhecemos antigas estradas por onde os apóstolos
andaram, especialmente Paulo, ao levarem adiante as verdades acerca de Cristo.
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| Ruínas da Cidade Bíblica de Pérgamo, na Turquia. |
UPA:
Parando para analisar, você tem uma vida bastante atípica. Casou e foi com a
esposa para a Ásia, Europa, África... Você imaginava que teria uma vida assim?
Essa coragem e vontade de sair pelo mundo, ir a lugares tão exóticos e até
perigosos, sempre esteve presente em você? Ou aconteceu sem esperar?
TJ:
Fomos para o Iêmen com o propósito de ajudar um povo sofrido, sem esperança,
sem oportunidades. Um povo que, segundo suas próprias palavras, “sentam e
esperam pelo amanhã” por não terem outra saída. E esse motivo, por si só, já
era suficiente para nos convencer a ir.
Além da ideia de
servir, compartilhar, outro fator que sempre nos motivou foi o crescimento
pessoal. Sair da zona de conforto, creio eu, é algo que todo ser humano precisa
fazer de quando em quando para se tornar cada vez mais “humano” no real sentido
da palavra.
Gostaríamos de ter
ficado mais tempo lá, mas a situação foi ficando cada vez pior. Não há
segurança nem para o cidadão local, quem dirá para os estrangeiros. Após
deixarmos o país, surgiu uma oportunidade de trabalho aqui, e para quem viveu
no Iêmen, morar no Marrocos é uma troca, no mínimo, generosa (risos).
Contudo, viver e
trabalhar transculturalmente é um tremendo desafio, pois requer que você se
adapte a uma nova cultura, de maneira a ser capaz de entender, respeitar e
interagir com os indivíduos de modo bastante natural e pacífica. Mas com o
tempo, sensibilidade e perseverança você se adapta a qualquer ambiente.
Bate-volta,
Jogo Rápido
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| Caverna da Revelação na Ilha de Patmos. |
Shopping
Parque Dom Pedro: Meu preferido no Brasil.
Deserto:
Beleza e morte.
Burca:
Excesso.
Faixa
de Gaza: Sem solução humana.
Tiririca
ou Bozo? Não gosto de palhaço.
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| Lago Ergirdir, Turquia. |
Gênesis
ou Apocalipse? Difícil pergunta... É impossível
ler/entender/gostar de um sem ler/entender/gostar do outro.
Uma
saudade: Minha terra! (Brasil),
Duas
verdades inconvenientes: “Tudo é sobre Deus”. E “Julgar é
mais fácil que amar”.
Um
lugar para meditar e outro para ir a dois: Meditar:
Caverna da Revelação, ilha de Patmos, onde João teve a visão do Apocalipse. Ir
a dois: Lago Ergirdir, Isparta, Turquia.
E
para terminar, o que diria a sua filha se aos 21 anos ela quisesse morar num
país do outro lado do mundo? Se você tem certeza
que é o que Deus planejou pra você, vá em frente!
Uzi
Por Aí: Tomaz, muito obrigado novamente pela entrevista, que
Deus continue abençoando você e sua família para que possam seguir com esse
trabalho de voluntariado, seja na Ásia, na África ou no Brasil. Parabéns por
esse altruísmo inspirador.
E ao leitor que quiser conferir mais fotos tiradas
pelo Tomaz ao redor do mundo, pode acessar o seu Flickr, o qual possui
fotografias de encher os olhos. Segue o link: https://www.flickr.com/photos/20823177@N00/sets/
Mês que vem estaremos de volta com mais uma edição
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| Tomaz de Jesus e sua filha Alice no trem de Casablanca a Rabat. |














