domingo, 19 de outubro de 2014

Entrevista na Alfândega – Tomaz de Jesus (Marrocos)

"Voluntariado não é só uma palavra, é amor, dedicação e também ação". É com esta frase feita, porém verdadeira, que eu começo o “Entrevista na Alfândega” deste mês. O convidado desta edição já apareceu de maneira indireta aqui no blog quando sua esposa me concedeu a primeira entrevista da sessão, isto em 2013. De lá pra cá, o casal se mudou de país e recentemente tiveram uma filha. Então hoje iremos conhecer melhor o homem da família.

Tomaz de Jesus numa das portas da Mesquita Hassan II.
Tomaz de Jesus tem idade de Cristo, 33 anos. Nascido em Campinas e graduado em administração, assim que se casou foi com a esposa para o Iêmen como voluntário e de lá conheceu diversos países, entre eles: Turquia, Grécia, Dubai, Líbano... Atualmente reside no Marrocos, mais exatamente em Casablanca.


Uzi Por Aí: Tomaz, muito obrigado por você ter aceitado me conceder esta entrevista, até porque imagino que seu tempo deve ser muito escasso: trabalho, papelada, também uma filha. E eu começo partindo daí. Ser pai pela primeira vez morando no Marrocos, distante de todo o mundo, tendo que lidar com o desconhecido... Bateu medo?

Tomaz de Jesus: Certamente, causa muita apreensão ser pai de um bebê num país onde não se tem ninguém conhecido por perto, tampouco se está habituado ao sistema do lugar. Assim, basta o bebê apresentar algum sintoma mais sério, como uma febre que não passa, que a preocupação dos pais aumenta muito.

Dentro da Mesquita.
UPA: Fazendo um paralelo com Iêmen, eu sei que o Marrocos tem uma economia melhor, não é isso? Mas culturalmente falando, qual a diferença entre estes dois países?

TJ: O Marrocos, de fato, tem uma economia muito mais sólida, comparado ao Iêmen. Aliás, por falar no Iêmen, a crise política que já era crítica quando estávamos lá, agora piorou mais ainda. Mas o Marrocos é um país muito estável, além de muito bonito e rico em cultura. A cultura árabe de modo geral é muito rica, afinal estamos falando de milhares de anos de história e tradição. Assim, embora um pouco diferente do Iêmen, a cultura do povo marroquino é bastante rica e grandemente adaptada à região. 

No passado, o Marrocos e toda a região hoje conhecida como “Maghreb” (ou seja, o ocidente do mundo árabe, que engloba Marrocos, Tunísia, Líbia e Argélia) era habitada pelo povo Berber. Com as conquistas islâmicas, contudo, esse povo foi incorporado ao império islâmico, vindo a adquirir tanto a religião muçulmana como muitos aspectos da cultura árabe.

Entrada da Medina e o Tram - Casablanca.

 UPA: Quase uma aula. Mas e na prática, Você acha que o Marrocos, como um todo, está preparado para receber os turistas? Ou depende da cidade? E pergunto isto porque em relação à segurança, o Marrocos tem uma fama negativa. 

TJ: O Turismo é uma parte muito significativa da economia do Marrocos. De maneira geral, o país é muito bem preparado para receber turistas e oferece uma excelente estrutura, assim como muitas opções de passeios.  O país é bastante seguro, pois a incidência de atentados relacionados ao extremismo islâmico é muito pequeno. 

O governo marroquino trabalha em conjunto com as inteligências europeias e americanas para impedir ataques terroristas, assim como proíbe a entrada de radicais vindos de outros países islâmicos.

O Islamismo do Marrocos é considerado moderado, o que significa que o povo vive uma religião mais secularizada e pacífica, muito mais tolerante do que na maioria dos países em que o Islam é a religião oficial.

Esposa e filha no mosaico marroquino da mesquita.
 UPA: Bom saber disso. Conte-me mais. O que há de imperdível para se fazer em Casablanca? Dê algumas dicas do que o turista pode fazer aí.

TJ: Casablanca é a maior cidade do país, é muito bonita, misturando os estilo francês e espanhol em muitos de seus edifícios. A cidade é moderna, com prédios futuristas, mas também preserva belas construções antigas.

Boa parte da fama da cidade deve-se ao sucesso do filme Casablanca, filmado em 1942. Embora o mesmo não tenha sido filmado aqui, uma americana apaixonada pelo Marrocos decidiu recriar, em 2004, o ambiente do famoso Café que faz parte do filme, o “Rick’s Café”, Restaurante e Piano-Bar. Seu espaço interno preserva traços da arquitetura e decoração mostradas na produção, e o turista pode, inclusive, assistir  e relembrar esse clássico do cinema americano que é transmitido todas as noite no local.

Lugares imperdíveis, em minha opinião, seriam a Mesquita Hassan II, que tem o mais alto minarete do mundo e fica na beira do mar. Mediante o pagamento de uma taxa, você pode fazer visita dentro do prédio e, numa parte especial, pode caminhar sobre um assoalho de vidro que dá visão para o mar embaixo.

Outra boa opção é visitar o Morocco Mall, considerado o maior shopping center da África. Ele também fica de frente pro mar e possui um enorme aquário cilíndrico.
A Madina (cidade velha) é outro lugar imperdível. Ali você encontra artesanato de primeira, souvenirs e diversos artigos em couro (como jaquetas, bolsas, sapatos, carteiras, etc) por preços excelentes.

As estações de trem “Casa Port” e “Casa Voyageurs” também são belos cartões postais. A cidade conta com uma porção de praças arborizadas, com jardins e bancos para a família brincar e relaxar.
Há muitos restaurantes e cafeterias, nos quais se encontra um pão e uma azeitona (fresca), simplesmente deliciosos!

Mesquita Hassan II, Casablanca.
UPA: Indo um pouco para sua vida pessoal, uma coisa que me chama a atenção é que você tem Jesus no sobrenome, o que é bastante irônico, já que você tem esse histórico de andar por países árabes. O sobrenome já lhe causou algum problema por esses lugares? E eu gostaria de saber também, como o cristianismo é visto por aí?

TJ: Na religião islâmica, Jesus foi um profeta muito importante, apesar de não tanto quanto Mohammed. Muitas pessoas, na verdade, tem o nome de Jesus (em Árabe “Eissa”). Assim, nunca tive qualquer problema relacionado ao meu sobrenome porque tem paralelo na cultura islâmica de um modo geral. 

Já quanto ao Cristianismo, também de um modo geral, os islâmicos têm uma visão bastante negativa quanto ao Cristianismo. No Marrocos isso é menor, por causa das fortes relações com a Europa, especialmente países de maioria católica como Espanha e Portugal. Na visão muçulmana comum, porém, o Cristianismo é uma religião deturpada por seguir um livro (a Bíblia) que foi modificado, de modo a criar doutrinas heréticas sobre Deus (como a trindade e a divindade de Jesus, por exemplo), sobre o perdão e a salvação (em nada se relacionando com o sacrifício de Jesus) e etc. Os cristãos, além disso, são vistos como pessoas sem verdadeira fé por beberem álcool, comerem carne de porco, fazerem sexo fora do casamento e por não rezarem cinco vezes ao dia.

Shopping Morocco Mall.
UPA: Realmente não sabia disso. Agora mudando de religião para dinheiro, eu queria que você falasse um pouco das opções que os turistas têm quanto a isso.

TJ: O governo Marroquino permite que um turista entre com até MAD100 mil, o que representa cerca de USD12 mil. Há uma porção de casas de câmbio em que você pode trocar dólares por dirhams, mas recomendo que se troque apenas o necessário. Em quase todo o lugar se aceita cartões de crédito internacional e em muitos ATMs se pode sacar através de cartão de outro país, apesar de as taxas serem pouco convidativas. 

Quando trouxer dólares ou Euros, tome bastante cuidado porque existem batedores de carteira nos lugares onde muita gente transita. Além disso, quando trocar dinheiro guarde o recibo, pois você precisará dele para recomprar moeda estrangeira.

UPA: Das cidades que conheceu no Marrocos, a que você mais gostou foi realmente Casablanca? Gostaria que você comentasse sobre o que achou de Marrakesh, Rabat e alguma outra que tenha conhecido.

TJ: Na verdade, eu gostei mais de Rabat, por ser uma cidade mais tranquila, mais planejada e com mais opções de praças e jardins para relaxar. Há muitos lugares bonitos para fotografar, como o palácio presidencial, o mausoléu e a Madina (cidade velha) de Rabat. 

Marrakesh é um lugar bastante pitoresco. Fiz várias fotos com meu celular, porém ao retornar a Casablanca, tive meu celular roubado por um rapaz de bicicleta. Lá se foram minhas fotos... Aliás, fica a dica sobre um risco muito comum no país: evite falar ao celular ao andar pela rua, pois muitas vezes os bandidinhos estão só esperando por uma oportunidade para agarrar seu telefone e fugir.

Mas voltando a falar de Marrakesh, todos os edifícios são vermelho-terra, de acordo com a lei. Há muitas mesquitas históricas para se visitar, e o passeio pode ser feito de charrete e cavalo. No mercado municipal da cidade velha se encontra tudo quanto é tipo de artesanato e artigos de couro. Também existem shows ao ar livre, com encantadores de serpentes, animais exóticos, dançarinos típicos e etc. Há diversas barraquinhas de suco nas quais por um preço muito baixo se pode tomar suco à vontade, de laranja, de limão ou de romã.

Não tivemos oportunidade de conhecer outras cidades, mas ouvimos coisas muito boas de Agadir, mais ao sul, especialmente por suas praias de águas quentes. Também ouvimos muito de Tanger, ao norte, que possibilita a travessia de balsa para a Espanha. Na verdade, há duas cidades no Marrocos que pertencem à Espanha, uma chamada Ceuta e a outra Melilla, ambas no norte.

Rabat.
UPA: Mas além das cidades, como falamos antes, você também andou por vários países. Líbano, Emirados Árabes, Tailândia... Então tirando o Iêmen e Marrocos, qual foi o país que mais te marcou e por quê? 

TJ: Todos esses países me marcaram muito, principalmente o Iêmen, pois moramos lá quase dois anos. Mas o país que mais tivemos prazer em visitar foi a Turquia, tanto pela receptividade a turistas, como pela beleza do país e sua riqueza arqueológica. Visitamos inúmeros sítios arqueológicos de cidades bíblicas como Éfeso, Esmirna, Filadélfia... Conhecemos antigas estradas por onde os apóstolos andaram, especialmente Paulo, ao levarem adiante as verdades acerca de Cristo.

Ruínas da Cidade Bíblica de Pérgamo, na Turquia.
UPA: Parando para analisar, você tem uma vida bastante atípica. Casou e foi com a esposa para a Ásia, Europa, África... Você imaginava que teria uma vida assim? Essa coragem e vontade de sair pelo mundo, ir a lugares tão exóticos e até perigosos, sempre esteve presente em você? Ou aconteceu sem esperar? 

TJ: Fomos para o Iêmen com o propósito de ajudar um povo sofrido, sem esperança, sem oportunidades. Um povo que, segundo suas próprias palavras, “sentam e esperam pelo amanhã” por não terem outra saída. E esse motivo, por si só, já era suficiente para nos convencer a ir. 

Além da ideia de servir, compartilhar, outro fator que sempre nos motivou foi o crescimento pessoal. Sair da zona de conforto, creio eu, é algo que todo ser humano precisa fazer de quando em quando para se tornar cada vez mais “humano” no real sentido da palavra. 

Gostaríamos de ter ficado mais tempo lá, mas a situação foi ficando cada vez pior. Não há segurança nem para o cidadão local, quem dirá para os estrangeiros. Após deixarmos o país, surgiu uma oportunidade de trabalho aqui, e para quem viveu no Iêmen, morar no Marrocos é uma troca, no mínimo, generosa (risos). 

Contudo, viver e trabalhar transculturalmente é um tremendo desafio, pois requer que você se adapte a uma nova cultura, de maneira a ser capaz de entender, respeitar e interagir com os indivíduos de modo bastante natural e pacífica. Mas com o tempo, sensibilidade e perseverança você se adapta a qualquer ambiente.


Bate-volta, Jogo Rápido

Caverna da Revelação na Ilha de Patmos.
Shopping Parque Dom Pedro: Meu preferido no Brasil.

Deserto: Beleza e morte.

Burca: Excesso.

Faixa de Gaza: Sem solução humana.

Tiririca ou Bozo? Não gosto de palhaço.

Lago Ergirdir, Turquia.
Gênesis ou Apocalipse? Difícil pergunta... É impossível ler/entender/gostar de um sem ler/entender/gostar do outro.

Uma saudade: Minha terra! (Brasil),

Duas verdades inconvenientes: “Tudo é sobre Deus”. E “Julgar é mais fácil que amar”.

Um lugar para meditar e outro para ir a dois: Meditar: Caverna da Revelação, ilha de Patmos, onde João teve a visão do Apocalipse. Ir a dois: Lago Ergirdir, Isparta, Turquia. 

E para terminar, o que diria a sua filha se aos 21 anos ela quisesse morar num país do outro lado do mundo? Se você tem certeza que é o que Deus planejou pra você, vá em frente!

Uzi Por Aí: Tomaz, muito obrigado novamente pela entrevista, que Deus continue abençoando você e sua família para que possam seguir com esse trabalho de voluntariado, seja na Ásia, na África ou no Brasil. Parabéns por esse altruísmo inspirador.

E ao leitor que quiser conferir mais fotos tiradas pelo Tomaz ao redor do mundo, pode acessar o seu Flickr, o qual possui fotografias de encher os olhos. Segue o link: https://www.flickr.com/photos/20823177@N00/sets/

Mês que vem estaremos de volta com mais uma edição do “Entrevista na Alfândega”. Curta a nossa fan page no Facebook para não perder nenhuma atualização. Até mais.

Tomaz de Jesus e sua filha Alice no trem de Casablanca a Rabat.

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