Ao abrir os olhos, as coisas já não estavam como antes. Marcas de um vendaval invisível e de estragos irreparáveis. Os tijolos já não escondiam suas
fraquezas, o teto ruía e na rua, o céu desabava. Era o seu universo em colapso.
Sentou no meio-fio desconsolado e exerceu seu direito de ter pena de si mesmo.
Tanto tinha feito para que desse certo,
tanta expectativa criada e agora olhava, assistia de camarote ao próprio
fracasso. Não era ele acostumado a perder, muito menos preparado a suportar.
Teve ainda mais pena de si, fixando o olhar no horizonte, como um último sinal
de esperança, tentou visualizar qual seria seu próximo passo, mas não viu
possibilidades de saltos.
O tempo o obrigou a se levantar, mesmo
sem saber para que lado iria. Andou movido pela tristeza, lembrou-se dos
momentos bons e chorou mais. Seguiu com a autopiedade e sem se importar com o
destino, parecia que não havia mais o que perder. Entre as ruas então se perdeu
e de tão fechado em suas angústias só ouvia o reclamar do coração.
Não demorou para o cérebro questionar, para
a garganta protestar e arrepiada a pele se rebelar. O vento frio lhe gelou a
alma contrita e por instinto cruzou os braços e parou, o chão se movimentou. É
o fim. A terra começou a se romper, rasgar como papel, em mil pedaços, engolirá
os cacos. Não vou me mover. E quem pode julgar? Quebrado, destruído, um aflito em
anestesia geral.
O céu escurece, as estrelas caem, o mundo
se despedaça. Grita numa queda livre, lenta e assustadora. Está no meio do
nada, do desconhecido, de um possível impacto fatal. Mas vem o filme, flashes
de uma vida mais feliz. Num suspiro segura em algo, a queda é interrompida, o
céu se ilumina, a luz se intensifica e após o sofrimento do clarão se vê em
outro lugar.
Abre a porta da sua casa, as paredes
agora estão intactas, muitas diferenças são vistas, mas a principal delas se
refere a mulher que agora passa a lhe cumprimentar todas as noites: “Como foi o
dia hoje, querido?”



