domingo, 14 de setembro de 2014

Cinema - 5 Filmes Alegóricos que Criticam a Sociedade



A Caverna de Platão até hoje segue de molde para as artes que querem criticar a sociedade por meio da alegoria. O cinema, bastante influenciado pela literatura, possui obras fantásticas com a intenção de cutucar feridas de forma estética. Vejamos uma lista com cinco filmes que contraria o mundo civilizado, usando-se de uma alegoria.

5º Deus da Carnificina
 
Roman Polanski é um diretor requintado, conhecido por fazer filmes fortes, entre eles a trilogía do Apartamento - composta por: O Bebê de Rosemary, O Inquilino e Repulsão –Lua de Fel e O Pianista, o qual lhe rendeu o Oscar em 2002. Em ‘Deus da Carnificina” (Carnage), Polanski foge do estilo narrativo que lhe consagrou e se aventura numa adaptação teatral com um enredo, aparentemente, simples.

Os país de dois alunos que brigaram na escola, encontram-se para resolver os conflitos entre os filhos. Porém, os quatro adultos civilizados, com o passar do tempo, mostram-se mais infantis do que as crianças.

Com um elenco enxuto de quatro estrelas: Jodie Foster, Kate Wislet, John C e Christoph Waltz; e apenas um cenário: a sala do apartamento; o filme dramatiza o quanto o ser humano é movido por interesses próprios, embora pregue a justiça, a filantropia e o moralismo.

4º Expresso do Amanhã
Todo filme pós-apocalíptico que se preze acaba fazendo uma especulação do comportamento humano sem a existência de regras sociais. Mas em “Expresso do Amanhã”, a reflexão sociológica vai além. 

Os únicos sobreviventes do mundo se encontram enclausurados num trem que é dividido por castas. Os mais ricos ficam nos vagões da frente, desfrutando de todas as regalias, enquanto os pobres são confinados na cauda, sem nenhum conforto.

Em termos alegóricos, o trem representa a sociedade dividida em classes sociais. O roteiro então, vai pelas entrelinhas, apontando a eterna guerra entre o povo e os poderosos. Aos poucos, a trama vai se politizando, evidenciando o quanto o poder é sujo, capaz de corromper até mesmo aos que lá chegaram com boas intenções.

Dirigido por Boong Joon-ho, diretor sul-coreano, responsável pelo formidável “Mother”; e produzido por Park Chan-wook, criador de “Old Boy”, um dos melhores filmes do século, “Expresso do Amanhã” une investimento hollywoodiano com ritmo oriental, combinação que deu certo. Outro destaque aqui são as atuações, principalmente, a de Tilda Swinton, impagável como Mason.

3º Colheita Amarga
Agnieszka Holland já dirigiu importantes filmes sobre o holocausto judeu, entre eles, o icônico “Europa Europa” e o surpreendente “Na Escuridão”. Antes porém de conseguir orçamentos maiores, a cineasta realizou uma das suas obras mais ácida. 

De 1988, “Colheita Amarga” também trata em primeiro plano do Holocasto. Uma judia consegue fugir de um trem que está indo rumo à Aushiwitz e é acolhida na casa de um católico. 

A relação entre a vítima e o bem-feito passa a servir como alegoria de como a sociedade costuma ajudar os oprimidos. Será que somos realmente bons com os que sofrem, ou no fundo acabamos aproveitando da fragilidade alheia para nos sentirmos superiores? O final é um verdadeiro tapa. 

2º Ensaio Sobre a Cegueira
O escritor José Saramago é assumidamente um interessado pelas alegorias. No livro “A Caverna”, ele faz uma clara menção à obra de Platão. Em “Ensaio Sobre a Cegueira” retoma o recurso alegórico para criticar a sociedade. 

Na adaptação filmográfica de Fernando Meirelles, temos o mesmo enredo: uma contaminação deixa várias pessoas cegas de uma hora para outra. Os infectados são isolados em quarentena e esquecidos. Entre eles, há uma mulher que continua enxergando, mas prefere manter segredo, pois quem tem olho em terra de cego – para Saramago – sofre mais.

O ensaio então representa o quanto a sociedade está alienada, emburrecida, cega, talvez pelo capitalismo, pela falta de reflexão... Através da linguagem, o autor consegue sugerir uma infinidade de motivos para essa cegueira, a qual cada leitor ou espectador pode interpretar de uma forma.

Vale ressaltar que não é apenas por se tratar de um texto premiado pelo Nobel que a adaptação de Meireles é convincente. O filme funciona de modo independente. Isto é, cinematograficamente falando, é um filme eficiente, com o mesmo viés alegórico presente no original. 

1º Dogville
Quando se trata de criticar à sociedade, o diretor Lars Von Trier é logo lembrado. O cineasta dinamarquês usa e abusa das alegorias para apontar nossos defeitos. Em “Melancholia”, ele não poupa o planeta Terra, lembrando que estamos nos autodestruindo. Em “Ninfomaníaca”, compara-nos a animais movidos por instinto. Mas foi em “Dogville” que Lars logrou uma das melhores alegorias cinematográficas de todos os tempos.

Grace é uma fugitiva que vai parar em Dogville, um povoado paupérrimo, com gente simples e sofredora. Os habitantes decidem ajudar a esconder a forasteira e em troca esta os ajudam em atividades do dia a dia. Tudo parece um mar de rosas, até que a moça começa a ser explorada de todas as formas possíveis, inclusive físicas.

Com um cenário totalmente surrealista, o diretor já mostra no primeiro segundo que o filme deve ser visto no âmbito da alegoria. O espectador deve ter em mente que o povoado é um representação da nossa sociedade, o que já implica num conflito, pois passamos a odiar os habitantes que maltratam a moça. Sábio e sádico, o diretor traz várias reviravoltas, cada uma cutucando numa ferida diferente.
O título, já bastante sugestivo, ao final não deixa dúvidas: vivemos num mundo cão.

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