Faz exatamente um ano que comecei a entrevistar viajantes e imigrantes aqui no blog. A maioria dos entrevistados é de desconhecidos que achei
pela internet, ou que vi apenas uma vez no meio de alguma viagem. Nesta edição,
no entanto, é com muita satisfação que entrevisto uma leitora assídua do blog,
que me lê lá do Canadá.
Ilsa Oliveira é uma
mineira de 54 anos. Antes administradora de empresas, hoje trabalha como
terapeuta em Montreal, onde reside há 8 anos. Casada, culta e muita viajada,
Ilsa nos falará um pouco da sua vida, dos lugares pelos quais passou e espero
que nos dê também uns conselhos terapêuticos.
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| Ilsa Oliveira no inverno em Montreal. |
Uzi
Por Aí: Oi, Ilsa, eu quero dizer que ter você como leitora,
é prova de que o blog tem uma audiência qualificada, o que me deixa muito
feliz. Obrigado também por ter aceitado me dar essa entrevista. Bom, você morou
em muitos lugares, tanto no Brasil, quanto no exterior. E a pergunta é: por
quê? O período de “vida cigana” que você teve foi sempre por conta do seu
trabalho anterior, que lhe exigia isso, ou você também se mudava por gostar?
Ilsa
Oliveira: Obrigada pelo elogio da audiência qualificada Uzi,
mas é verdade que seu trabalho é muito interessante. Admiro a sua personalidade
inovadora. Me tornei sua fã.
Quanto as minhas
mudanças, acho que é como uma antiga amiga da faculdade me disse uma vez: “Ilsa,
você tem sede de experiência”. É verdade que ia onde o trabalho me levava, mas
na maioria das vezes eu provocava a mudança, ou me colocava disponível a ela
porque gostava de conhecer coisas novas. O maior tempo que morei na mesma
cidade depois dos meus 16 anos foram 5 anos. Agora estou batendo o recorde, faz
8 anos que moro em Montreal.
Finalmente, por que
tanta mudança...? Talvez seja também uma busca pelo meu lugar nesse mundo.
UPA:
Você tem um histórico fronteiriço entre Estados Unidos e Canadá. E muitos
brasileiros migram para um desses dois países. Então eu te pergunto: qual deles
é mais fácil de se sentir inserido na sociedade? No seu caso, onde você melhor
se encaixou.
IO:
Bom, na verdade nunca morei nos Estados Unidos, mas como morei em Vancouver fiz
amizades em Seattle onde ia regularmente, pra justamente aprender um pouquinho
sobre os americanos.
É claro que os Estados
Unidos é muito grande e variado e não posso dizer que conheço nem o país nem os
americanos, mas tenho uma ideia da diferença entre Estados Unidos e Canadá. E
ainda assim, é uma ideia minha, não quero falar aqui como conhecedora de causa.
Mas enfim, particularmente eu acho que se inserir na sociedade americana é mais fácil em termos profissionais e mais difícil em termos sociais. Penso assim
porque acho que os americanos têm um ritmo rápido, uma certa ousadia mais
proxima da nossa. Por outro lado, são mais conservadores em termos de costumes
morais e mais frios nas relações interpessoais que a gente.
O canadense é mais
tranquilo, menos atirado, eu acho. O que, no inicio me dava a sensação de viver
em câmera lenta e até hoje me deixa impaciente, frustrada. Mas, em contra
partida, especialmente aqui no estado do Quebec, possuem uma cultura mais europeia,
o que se aproxima mais da nossa maneira de viver.
Eu sempre me senti bem
nos Estados Unidos, mas só estive lá passeando. Mas se faço uma comparação
entre Vancouver, que é mais parecido com a cultura americana nessa questão dos
costumes e relações interpessoais, prefiro viver em Montreal, acho aqui mais fácil
de me inserir socialmente, me sinto mais em casa aqui.
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| Em San Francisco, Califórnia. |
UPA:
Interessante. Acho que você deu aí um panorama bastante útil. Agora, indo um
pouco para sua vida profissional, como terapeuta, você atende alguns
brasileiros que estão no Canadá para estudo, trabalho, etc. Do que eles
geralmente reclamam nessa mudança de país? Quero dizer, quais são os conflitos
psicológicos recorrentes que um imigrante passa e o que você aconselha, como
você trabalha esses pontos?
IO:
Ah, essa é uma pergunta muito complexa. Não acredito que darei uma resposta
satisfatória. Mas vamos lá. Meus clientes são de idades variadas, veem de todo canto do
Brasil, estão aqui por um período determinado ou pra sempre, estão sozinhos ou
com suas famílias. São histórias completamente distintas, às vezes os conflitos
são mais pesados na vida profissional, outras vezes na vida afetiva.
Mas acredito que em
geral, é muito normal uma certa “perda de identidade” num processo de imigração. É como se a gente
mudasse pra um outro planeta, onde temos de nos adaptar física e
emocionalmente. É quase como aprender viver dentro de um novo corpo, numa nova
atmosfera, onde as pessoas funcionam e pensam completamente diferente daquelas
do nosso antigo planeta. Penso então que tudo isso desencadeia na vida da
pessoa dúvidas e incômodos sobre assuntos e sentimentos que ela nunca havia
percebido ou dado importância. É como se a pessoa se sentisse perdida e esta
numa busca de si mesma, precisa de uma reorganização de quem ela é na sua essência.
É claro, que na maioria
das vezes ela chega na terapia por uma razão aparentemente bem mais clara e
precisa (saudades, dificuldade no campo profissional, crise conjugal, stress,
sentimento de solidão, etc), mas a terapia é uma evolução pessoal, e vai
conduzi-la a se conhecer com mais profundidade, a descobrir o que está por trás
do sentimento de desconforto, de stress, de tristeza... Quero dizer, vou
trabalhar ajudando essa pessoa a reconstruir sua vida dentro do respeito de
seus próprios desejos e limites, recuperando o poder sobre sua vida e seu bem
estar.
UPA:
Uau! Sua resposta foi muito satisfatória, fiquei até com vontade de fazer
terapia com você. (Risos). Mas bom... Montreal e Vancouver, provavelmente, são
as cidades mais conhecidas do Canadá pelos brasileiros. Você já morou em ambas,
então pode nos dizer com conhecimento de causa. Qual a mais bonita, ou a
melhor, para passar uma temporada de 3 meses ou até mesmo morar?
OI:
A mais bonita é sem dúvida Vancouver. Montreal, a não ser que a pessoa queira
conhecer o inverno ou o outono, não tem nada de muito especial pra ver, pois o
especial de Montreal acredito que está no lado cultural, o fato de ser uma
cidade um pouco europeia, onde se fala francês, no meio da América do Norte.
Então para uma
temporada de 3 meses talvez a beleza de Vancouver valha mais. Porém para morar,
depende de cada um. Já ouvi a expressão de que Vancouver é uma cidade
maravilhosa, mas sem alma. Talvez pessoas mais emocionais vão encontrar um
certo aconchego maior em Montreal. Costumo dizer que Vancouver é o Rio de
Janeiro, Montreal é Belo Horizonte e Toronto é São Paulo.
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| Montreal. |
UPA:
Dê-nos algumas dicas turísticas imperdíveis em Montreal.
OI:
Andar pelo Vieux Montréal. Visitar a cidade de Quebec. Visitar a pequena cidade
de St-Sauveur. Conhecer Otawa, capital do país, que fica a duas horas de carro.
E se puder escolher venha à Montreal no Outono. Pra min, as cores do Outono é a
coisa mais linda que existe nesse estado. Se quiser ver um inverno pra ninguem
botar defeito é lindo também.
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| Outono em Montreal. |
UPA:
Por opção, você deixou um emprego administrativo para trabalhar como terapeuta,
e todo o mundo sabe que a área de humanas dá menos dinheiro. Você foi muito
criticada por isso? E eu tô te perguntando, porque eu percebo que aqui no
Brasil, as pessoas ainda não veem o estudo como fim em si mesmo. Como se o
conhecimento só tivesse valor se houver retorno financeiro.
OI:
Na verdade a decisão foi se desenvolvendo em conjunto com os acontecimentos da
vida e com o tempo. Quero dizer, não dormi administradora e acordei terapeuta.
Digo isso, no sentido de que tive tempo pra refletir sobre o que, no mais
intimo do meu ser, me satisfaria e me seria conveniente nessa ultima etapa
profissional da minha vida. Quanto a ser criticada, acho que talvez eu esteja
muito velha pra isso. As pessoas não perdem tempo comigo.
Mas falando sério, não
julgo aqueles que pensam no retorno financeiro antes de meter a cara nos
estudos indefinidamente, pois é duro ganhar a vida. Acho que dar prioridade ao
conhecimento antes do dinheiro é característica da personalidade de quem esta
escolhendo fazer isso. Penso que é essa a razão das críticas, pois não é um
tipo de personalidade dominante em nossas sociedades capitalistas. E estamos
longe, como sociedade, de respeitar e valorizar o outro como ele é.
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| Cidade de Quebec. |
UPA:
Com certeza. É...Você passou 15 dias na Eslovênia. E essa sua viagem me chamou
a atenção porque a Eslovênia não é um grande destino turístico. Porque você foi
e o que achou de lá?
OI:
Tenho amigos dinamarqueses que sempre me falaram o quanto a Eslovênia é um país
limpo, de pessoas de bom nível. Eu tinha muita curiosidade de conhecer. Fui pra
encontrar um amigo que ia procurar uma casa lá pra comprar, o que me daria a
oportunidade de viajar de carro com ele conhecendo o país, enquanto ele
procurava a casa.
Também porque poderíamos
ir de carro à Veneza, que fica apenas a duas horas da capital da Eslovênia. E se
eu morresse sem ir à Veneza, não iria me conformar do outro lado, tinha medo dessa
tristeza eterna.
UPA:
Engraçado que quando eu fui à Veneza, ela não estava no meu roteiro. Decidi
de última hora. E você está certa, se eu não tivesse ido, teria sido uma
tristeza, porque é um lugar incrível. E dos Estados Unidos, qual é a sua cidade
preferida?
OI:
Los Angeles. É como passear em cidadezinhas pequenas, lindas, chiques,
pitorescas e aconchegantes reunidas dentro de uma cidade grande, movimentada,
rápida e bonita.
UPA:
Eu defendo a teoria de que quanto mais a gente viaja e mora em lugares
diferentes, mais a gente aprende a se realizar sem depender de outras pessoas,
afinal, vamos abrindo um leque de interesses, nossa perspectiva de mundo
aumenta... Ultimamente, o que é que te deixa realizada, feliz?
OI:
Escutando você falar assim, me dá uma vontade de viajar...
Tenho o sentimento bom
de que não perdi meu tempo, de que não me arrependo de nada. Mesmo com todas as
perdas nas minhas escolhas, gosto do resultado de hoje, gosto da pessoa na qual
eu me transformei.
Bate-volta,
Jogo Rápido:
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| Andando no rigoroso inverno de Montreal. |
Canadá:
Não
stress.
Afeto:
Meus
clientes.
Freud:
Pioneirismo.
Carl
Rogers: Evolução.
Belo
Horizonte ou Porto Alegre? Belo Horizonte.
Dilma,
Lula ou FHC? FHC.
Uma
viagem que ainda quer fazer: Rússia.
Duas
viagens inesquecíveis: Islândia e Ilhas Canárias.
Prato
típico preferido: Frango com açafrão.
E
para terminar, que conselho daria a alguém que se sente frustrado por viver no
Brasil e que não pode sair? Não pare de sonhar. O
sonho é o motor do carro.
Uzi
Por Aí: É verdade. E como diria Psi: “Quem não sonha, não
anda de avião”. (Risos). Ilsa, eu gostei muito de te entrevistar, porque conversando
com você fica evidente que a realização pessoal não está no mercantilismo. E
também te observando, fica claro o quanto todas essas suas mudanças, viagens,
que te obrigaram a conhecer pessoas das mais diversas, foram cruciais para o
seu interesse pelo ser humano. Tanto é, que acabou estudando para ser uma
profissional em ajudar o próximo a se organizar internamente, na medida em que
você mesma se tornava um ser humano melhor. Parabéns pela sua trajetória, pelo seu
trabalho e, mais uma vez, obrigado.
No mês que vem,
voltamos com mais uma edição do “Entrevista na Alfândega”. Até lá.
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| Ilsa Oliveira entre as estátuas de St. John, Estado de Brunswick. |










