sábado, 19 de outubro de 2013

Relato de Viagem - Itália - Sozinho em Veneza



Por ser considerada romântica e cara, não inclui Veneza no meu roteiro, afinal, o que um solteiro e pobre iria fazer lá? No entanto, como eu estava em Milão e já não tinha mais o que ver, resolvi passar meu último dia na Itália fazendo um bate-volta em Veneza. 

Há duas maneiras de se chega à cidade dos canais saindo da cidade da moda: ou você pode ir com o trem regional, no qual a ida e a volta custa ao todo 37 euros, quatro horas para ir e quatro para voltar; ou então você pode ir de trem rápido, no qual a ida e a volta custa 75 euros, mas em compensação a duração do trajeto é de 2 horas e meia. Como não tinha muito tempo, fui com o trem mais caro mesmo. Sai por volta das 7 horas e cheguei por volta das 10 da manhã. Lembrando que em Veneza há três estações e a que fica na parte turística se chama “Venezia Santa Lucia”. Então cuidado para não se confundir e descer nas estações anteriores.

Assim que você sai da estação Santa Lucia, você já dá de cara com os canais e com uma das inúmeras pontes que há na cidade. A partir desse momento, se você andar para o lado direito, você chegará aos principais pontos turísticos... E se for para o lado esquerdo, passará pelas ruas mais “normais”. Tentei pegar um mapa para me situar, porém na barraca de informações que fica ao lado da estação, um italiano (mal educado para variar) me disse que o mapinha custava 5 euros. Achei um absurdo. Não que 5 euros fosse o fim do mundo, mas é que nunca me haviam cobrado pelo mapa em nenhuma cidade da Europa. Como forma de protesto, não comprei o mapa e fui andando pelo lado esquerdo à estação.

Primeira vista ao sair da estação de trem.
Casas com arquitetura exótica, teatros, floriculturas, restaurantes, muita gente comprando. À primeira vista, não achei o lugar tão bonito como imaginava. Parei para almoçar e pedi uma massa que custava 10 euros. Pelo que percebi, esse lado da cidade era bem mais barato. Após comer, voltei a bater perna. Achei estranho que quase não via os famosos canais, até que passei por mais uma ponte e a partir de então os canais começaram a aparecer. Vale ressaltar que a água não tinha cheiro nenhum, mas acredito que no período de chuvas isso possa mudar.

Passeio agradável.

Canais de Veneza.
Aos poucos fui percebendo o quão impressionante e diferente é Veneza. Flores em todas as janelas, lanchas presas na porta da maioria das casas, paredes coloridas, pontes nos mais diversos formatos e água para todos os lados. Um dia desses no Facebook, tentei convencer um conhecido a viajar para Veneza e ele me disse que não estava seguro, pois lhe disseram que a cidade parecia um Pelourinho alagado. Fiquei encucado como alguém poderia descrever Veneza dessa forma e cheguei a uma conclusão: Veneza é um lugar de detalhes.  Se você não for acostumado a enxergar além do que é geral, provavelmente se decepcionará, pois o que encanta em Veneza é o estilo como a vida acontece naquele lugar, as histórias das lanchas que passam por debaixo das pontes, os cantos inundados, as cores de Almodóvar dispostas nos lençóis estendidos e nas flores que decoram todo o lugar.
O estilo de vida.


A cidade submersa.

Flores nas janelas.
Comecei a andar pelas ruas com um novo olhar. E não fazia mais falta o mapa nem tão pouco chegar aos pontos turísticos, pois tudo em Veneza remetia a uma aventura. Os labirintos me tragaram. Andava sem saber para onde ia, apenas reparava em como as ruas pareciam ter vida própria. Era como se os labirintos de certa forma fossem orgânicos. De tão encantado, acabei chegando a uma rua estreita que só havia eu e os tijolos medievais. Será que eu tinha voltado para o século XV? Veio o medo. Mas não um medo ruim, era um medo que me fazia sentir como Ulisses na Ilíada, já preparado para enfrentar ou correr de algum dragão que me perseguisse por aqueles labirintos.

Deserto.

Ruas labirínticas.
O dragão apareceu e eu comecei a correr desesperado até que cheguei à porta de uma igreja pequena, onde tinha um cartaz dizendo: Ai Weiwei Disposition. A exposição se tratava de um fotógrafo que havia sido preso, coincidência ou não, há exatamente três semanas antes disso, um colega do mestrado, levou para a aula fotos dessa exposição. Veja como a vida é engraçada: eu que vi as fotos na sala de aula e nem tinha prestado atenção de onde ficava a exposição, agora estava vendo a exposição pessoalmente em Veneza que nem sequer estava no meu roteiro.
Maquete: Weiwei almoçando na prisão.

Maquete: o banheiro no cárcere.

Maquete: Weiwei chegando ao presídio.
Depois de muito andar cheguei na parte realmente turística da cidade. Muitas gôndolas, muita gente, o movimento era realmente bem mais intenso. Fiquei de boca aberta com a ponte dos suspiros, com a torre e com a Basílica de São Marcos, o Palazzo Ducale... Tudo era impressionante. É como se fosse a cereja do bolo de tudo o que eu já tinha visto quando estava nos labirintos da cidade.
Ponte dos Suspiros.
Palazzo Ducale.

Cúpula da Basílica São Marcos.

Torre na Praça São Marcos.
Achei muito bonito o serviço de gôndola, apesar de um pouco perigoso, pois umas acabam dividindo espaço com os vaporetos (uma espécie de transporte público da cidade). O preço para andar de gôndola vai de 60 a 100 euros, ou seja, é algo realmente para turista. O valor depende do lugar de onde você pega a gôndola e também do seu papo para negociar. E é realmente preciso negociar, pois dependendo, o gondoleiro pode levar só você, como pode encher a gôndola no melhor estilo lotação de Van.
Já o vaporeto é uma opção bem mais barata. Com 25 euros, você ganha um bilhete para fazer vários trajetos. Como também pode comprar um bilhete para um trajeto só, o que deve custa por volta de 5 euros, dependendo para onde está indo. Não andei de vaporeto porque o balanço da água poderia me deixar enjoado e além desse motivo, não andei de gôndola, porque é um passeio mais para casais, e eu solteiro, era capaz de me jogar na água. 
 
Gôndolas.
 
O dia já estava indo embora e eu tinha que voltar para a estação. Para conhecer mais de Veneza, não voltei pelo lado esquerdo, continue seguindo, pois segundo me informaram, eu poderia chegar a estação por qualquer um dos lados. Passei por mais lugares interessantes, inclusive ums galeria com obras de arte de humor negro. O bom de entrar na galeria é que você pode ter uma ideia de como é viver numa casa cercada por água.

Pateta suicida.
 Ainda rumo à estação, parei sobre uma ponte de onde é possível ver a cúpula do Duomo, além de uma vista privilegiada da cidade.  

Vaporeto, lanchas e Duomo.
 
O tempo estava passando cada vez mais rápido, então não poderia mais parar em lugar nenhum. Continuei andando e perguntando para que lado ficava a estação, os gondoleiros me respondiam até que de boa vontade, porém eu não acertava o caminho. Os labirintos eram muitos, as pontes eram muitas, pensei que ficaria preso ali por toda a vida, até que achei uma placa apontando para a estação e comecei a seguí-la. Entra a direita, sobe ponte, pega a esquerda, desce ponte, nunca fiz tanto zigue-zague para se chegar a um lugar. 

Por fim cheguei à estação e tive a sorte de me sentar ao lado de duas mexicanas que também estavam hospedadas em Milão. Fomos conversando a viagem inteira e comentando sobre nossas impressões de Veneza. Chegamos a um consenso de que Veneza é inesquecível. Os labirintos orgânicos entram na nossa pele por meio das sensações que sentimos quando estamos neles. Não à toa, volta e meia, eu sonho de que estou andando por aquelas ruas alagadas. 

Labirinto que desagua no canal.
 Para matar a saudade de quem já foi, indico o filme “Pão e Tulipas”. E para quem está receoso de ir para Veneza sozinho, eu afirmo: num lugar que até os tijolos têm vida, você não se sentirá sozinho, é só abrir os olhos.

Águas de Veneza.

4 comentários:

  1. Chegamos hoje em Veneza (casal) e tivemos as mesmas impressões, de que andamos por labirintos e de andar em corredores de tijolos medievais! Adoramos!

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  2. Muito bom, né? Foram de lua-de-mel? Que tenham uma ótima viagem. Abraços.

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  3. Valeu, Eduardo. Está indo para Veneza? Boa viagem.

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