O fim da faculdade se aproximou e a felicidade amorosa se distanciou, o namoro terminou e a mim só restou investir em mim. Diploma na mão, bolso sem nenhum tostão, emprego longe das vistas. Fui para a Europa tentar trabalhar, estudar, e se nada calhasse, restar-me-ia passear. Desvantagem não há. Morei em Portugal, vivi intensamente na Espanha, beijei a Suíça e me apaixonei por Roma.
Um maledito de um emprego me chamou no Brasil e eu voltei ávido para ensinar o muito que aprendi. Seis meses depois a vontade passou, trabalho bom é no exterior. Fui para a Argentina, sonhei no Chile, sorri no Uruguay e já não sabia mais o que fazer comigo. Talvez teatro na Bahia. Veio a tentação de fazer mestrado na PUC-SP. Ousadia, pensei. Que rei sou eu? São Sebastião.
Busquei toda a papelada exigida no edital e não era pouca coisa. O pior de tudo é a insegurança em relação ao pré-projeto. Tá bom, tá ruim, como é que tá? A inscrição foi um tanto que dispendiosa, mandei por Sedex de Cruz das Almas para São Paulo. Aprovada a papelada.A seleção começava e esta era dividida em três etapas. Para entrar no mestrado, você deve correr atrás da bibliografia que cairia na prova, primeira fase. Geralmente são livros difíceis. Consegui achar três pela internet de péssima qualidade, parecia que as páginas foram mimeografadas. Quando cheguei a São Paulo, dois dias antes da prova, fui na véspera à biblioteca da faculdade e consegui ler os dois livros que faltaram. Ou melhor, consegui entender.
Chegou o dia da prova e eu estava ansioso para saber como seria uma questão de mestrado, não fazia ideia e acredito que muitos devem ter esta mesma dúvida. Escolhi uma cadeira, olhei os colegas/concorrentes a minha volta, pouca gente da minha faixa etária. Ninguém falava nada, todos compenetrados, enquanto eu fingia fazer parte daquele estado. Posso não ser inteligente, mas finjo que é uma beleza.
Três, este era o número de questões. Animei-me de supetão com a pouca quantidade, mas após a leitura das mesmas, por um momento desejei responder as 66 do Enem. Obviamente as perguntas eram dissertativas e não possuíam uma resposta óbvia. A área de humanas, principalmente a literatura, trata de temas difusos, quase obscuros. Assim sendo, o termo pergunta não se encaixa naquelas questões que pediam uma discussão, um debate, um apontamento relacional, em suma, eram propostas de redação. E se para muitos uma produção textual já é motivo de desespero, imagine três. A média era de cinco parágrafos para cada questão. Ou seja, não tente entrar num mestrado se seu vocabulário na escrita for reduzido.
Terminei a prova, metade confiante e metade inseguro. A segunda fase começou no dia seguinte: a entrevista. Cada aluno, conforme agendamento, seria entrevistado por um professor. O que eles querem de fato saber é a disponibilidade do aluno, a situação financeira, o equilíbrio mental e avaliar a capacidade acadêmica intrínseca no discurso do candidato.
Seja coerente nas respostas, mantenha a calma e cuide para não confundir sinceridade com "sincericídio". Falar que a mãe tá doente, que trabalha demais, que necessita da bolsa para cursar o programa... Furada. Também não fale mal de outras universidades ou professores, pois o mundo acadêmico é um ovo de codorna.
Tive sorte de ser entrevistado por uma professora de ouro, se derreter dá um anel. Não sei quanto aos outros, mas a meu ver esta foi a fase mais tranquila de todas, ouso dizer prazerosa. Um bate-papo, no qual pude falar sobre minha trajetória, expor minhas ideias. E eu gosto de falar. Neste processo sofrido que é a seleção de um mestrado, a entrevista é praticamente uma análise terapêutica. Isso se o seu entrevistador tiver psicologia para lidar com candidatos.
A terceira e última fase é a prova de proeficiência em algum idioma. As opções de línguas dependem do curso, no meu pude escolher espanhol, mas caso um dia chegue ao doutorado terei que eleger outro idioma. Nesta prova o que está em jogo é a sua capacidade de leitura em outra língua, as respostas dissertativas referentes ao texto lido podem ser feitas em português.
Todas as etapas concluídas. Depois de 9 dias a gente vê o resultado. Agora só me restava esperar, tanto o resultado quanto o elevador da PUC que às vezes é mais problemático do que a problematização da nossa dissertação. Entramos eu e uma mulher naquele problema, ela também estava na seleção do mestrado. Conversamos sobre a prova, sobre a entrevista e até sobre o futuro em um curto espaço de tempo. Conversamos até sobre aquilo que não foi conversado, pois nós estudantes de literatura temos o poder de entender uma fala mesmo quando esta não seja proferida.
"Se eu entrar nesse mestrado vai ser ótimo para esquecer aquele filho de um equino", disse ela antes de nos despedirmos. Fiquei constrangido com a objetividade, apesar de quase ter perguntando os detalhes sórdidos da separação. Suspirando profundamente para mostrar o quanto estava cansada, ela fechou a nossa rápida conversa com uma frase que levei comigo para as estações de metrô de volta para casa: "Mestrado é uma Ilíada". Não sei o que aconteceu com aquela figura, pois nunca mais voltei a vê-la. Quanto a mim, só resta dizer que fui selecionado.




só você Uziel, para me contar sobre os percalços da tua seleção... ótimo... já me sinto menos crua...
ResponderExcluirAmém!!! Fiquei um pouco mais tranquila, pois semana que vem vou passar pela mesma situação. um grande abraço!
ResponderExcluir"Anônimo", vc irá fazer a seleção da PUC também? Boa sorte.
ResponderExcluirMuito bacana sua história. Fiz a avaliação escrita e fui muito bem aprovada, consegui o primeiro lugar. Ontem fiz a entrevista, mas báhh, fui massacrada, hehe. Tenho disponibilidade, não preciso desesperadamente de bolsa pra estudar, mas eles destrincharam meu projeto de pesquisa, me pegaram de jeito, não perdi o rebolado mas percebi que queriam mais respostas sobre o tema que escolhi. Acho que não será dessa vez!! Abraços
ResponderExcluirVocê fez a seleção na PUC? Quem te entrevistou? Relaxe, no início é assim mesmo. Depois eles ajudam a melhorar o pré-projeto. Sucesso.
ResponderExcluirobrigado por esta publicação!!
ResponderExcluirObrigado pela visita "mestrados".
ResponderExcluirObrigada pelas dicas... acho que depois de ler sobre seu processo de seleção de mestrado me sinto "um pouco" mais aliviada... talvez não seja esse bicho de sete cabeça que pensamos hehehe.. amanhã vou passar pela etapa final do meu processo a "entrevista" e estou super com medo rsrs.
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