Era uma cidade do interior cheia de provincianos. Muito calma, sem ambição. Nem era sequer preciso chamá-la de cidade. Cada um seguindo sua vida, enquanto todos seguiam a de todo o mundo. Até o horizonte parecia mais curto e não havia aflição nesta limitação, a maior pretensão era justamente a de permanecer junto aos seus.
Ainda no ensino fundamental, Anderson e Natália não se desgrudavam. Como não havia trânsito, eles corriam pelas ruas sem preocupações. Como não havia opções de lazer, eles mesmo inventavam suas brincadeiras. Soltos, aventureiros. Tomavam banho na cachoeira que ficava próxima, atiravam-se em lama e no fim do dia voltavam ambos sujos para sua respectiva casa. Quando chegou a internet naquele início de paraíso, os dois teclavam até tarde no MSN. E como não tinham tempo para estudar direito para as provas, sentavam um ao lado do outro para pescar. No intervalo, o casal de amigos tirava sarro dos professores, contavam vantagem de suas peripécias. Quase formação de quadrilha, quase presos um no outro, quase perfeitos. E foi exatamente esta ideia que começou a amadurecer tentadoramente no âmago de Anderson. Virou platônico.
Já no terceiro ano, ele passou a coçar a língua para se declarar, cruzava os dedos para que ela errasse o beijo da bochecha. Analisava as conversas do MSN, o dito, o não dito e sonhava com aquilo que gostaria de ouvir: eu também te quero. Dormia balbuciando o nome dela, acordava ansioso para vê-la, supervalorizava todos momentos ao seu lado. Não via a hora de tudo dar certo.
Num certo dia em que Natália se mostrou simpática demais ao antipático do Eduardo, o Anderson tremeu nas bases e temeu não com a possibilidade de um fora, a preocupação era que a declaração acabasse com a amizade deles, caso o amor não fosse correspondido, pelo menos não na intensidade que se desejava.
E o turu turo turo que Sandy cantava no século passado fazia-se presente toda vez que ele a via... O turo crescia quando ela o tocava. Aumentava quando ela lhe sorria. E explodia quando ela o abraçava empolgada com alguma coisa. Turo turo turo TURO...
Resolveu pesquisar como falar, analisou métodos de abordagens. Eram muito íntimos, mas dizer que a amava era de um risco que o deixava inseguro como se eles nunca tivessem trocado uma palavra. Perguntou como faria para um amigo, recebeu conselhos de parentes mais velhos, mandou que a prima dela investigasse, preparasse o terreno, recebeu apoio dos pais e incentivo da cidade que também podemos chamar de comunidade.
Após a entrega dos canudos da formatura, na qual nenhum dos alunos iria buscar fazer faculdade no desconhecido, Anderson foi ter com ela para fazer o grande pedido. Capitulo de novela. A cidade não queria perder. Chamaram o cinegrafista para filmar. Quando a dança dos anos 90 terminou, ele pediu licença a sua companheira, amiga, amada. Pegou o microfone e se declarou com todas as frases românticas que tinha direito. Natália ouviu surpresa o que para o resto já era notícia velha. Estava certo que se ouviria dela um sim, o que mais poderiam ambos fazer agora que se formaram há não ser se casar? Era o destino de todos naquele pequeno espaço. Casar era a graduação máxima. E estava escrito, tatuado, visivelmente explícito que eles iriam ser felizes para sempre.
__Natália, eu te amo. Casa comigo? – Na concepção de Anderson adquirida pelo meio, não era necessário meio termo. Os filhos viriam no ano que vem. Tradição.
__Você está maluco? –Gritou uma voz grossa.
__Anderson, eu e o Eduardo começamos a namorar hoje. – Explicou a meiga voz de Natália. E na frente da cidade, Anderson levou o temido fora, extenuou a decepção de não saber nada sobre esse romance inoportuno. Quando começou? E por que ela não lhe confidenciou? Traído duas vezes. A cara de pena da platéia, o constrangimento no ar, o silêncio esmagando o que sobrava daquele ser destroçado. O próprio Eduardo ficou com pena. Ninguém da comunidade queria estar na pele dele. Até mesmo andar, fugir daquele cenário era difícil. Vergonha alheia ao cem. Anderson fez menção de contornar a gafe com um riso amarelíssimo, mas não deu, começou a andar e depois correu para se trancar no seu quarto de onde nunca mais, segundo sua vontade, sairia.
Natália quis ir atrás, dá uma palavra de consolo, afinal era seu melhor amigo, porém na hora não conseguiu juntar o tico e o teco.
__Tadinho. – Lamentou com Eduardo que por mais antipático que fosse, apiedou-se do vexame do rival.
Trancado no quarto, Anderson não respondia a ninguém, não queria comer e muito menos sair. Isolou-se mesmo com o rogar da mãe. Sofreu, esfeneceu, emagreceu, relutou, chorou, purgou. Não recebeu nem mesmo a Natália quando foi vê-lo.. Estava muito envergonhado, decepcionado, martirizado, acabado. Morre desgraçado. Depois de um mês decidiu ir embora da cidade. Seria talvez o primeiro morador a enfrentar o além da visão, o primeiro a se aventurar com uma faculdade na longiquoa capital. Despediu-se obrigatoriamente da comunidade, evitou falar com a envolvida, mas ela fez questão de estar assim como quase toda a comunidade na rodoviária para dizer tchau.
__Fiquei sabendo que você vai casar com ele. – Disse Anderson justificando sua partida.
__Eu não quero me casar agora, não. Mas ainda estamos juntos, sim.
__Se você largar dele e ficar comigo, eu fico. – Por mais que ela o amasse como amigo, não o queria como homem. Sofreu por ser a causadora do sofrimento.
__Você vai achar alguém que lhe mereça. – Consolo de perdedor.
__Eu queria que fosse você. – Humilhou-se sem motivo. Natália se afastou, a coisa só iria piorar. Entrou no ônibus, lecinho para a despedida, lencinho para as lágrimas e lá se foi Anderson conquistar o mundo sem saber que tudo que é ruim pode piorar.
Era apontado no metrô, abordado no mercado, questionado por aqueles que favoritaram o vídeo e dessa forma era ainda mais difícil esquecer o que houve. Como queria ele apagar o constrangimento-mor de ter se declarado tolamente, achando que seu sentimento era capaz de transformar pão duro em algodão doce.
Quando chegou às redes sociais a notícia de que Natália ficaria noiva, doeu mais do rever a cena do fora em HD. O telefone tocou e uma nova surpresa ecoou quando quem estava do outro lado da linha lhe fez uma impensável proposta.



