terça-feira, 19 de julho de 2011

Buenos Aires - Comer, Rezar, Amar

É mais fácil criticar um filme quando este é ruim do que quando é bom, o mesmo não acontece com as críticas negativas de viagens. Após conhecer lugares ótimos não demoro muito e já venho no blog relatar a experiência, porém quando o lugar não foi tão bom assim, ou não atendeu às expectativas, fico fazendo hora para comentar. Por exemplo, demorei bastante para fazer um post sobre Lisboa, não que a cidade seja feia, pelo contrário, mas foi terrivelmente ofuscada pelas circunvizinhas.

Depois da ascenção social brasileira, do Peixe Urbano, Groupon, Clickon e da decadência econômica argentina ficou mamão com açúcar ir passar uns dias na capital porteña. Buenos Aires virou um celeiro de brasileiros ávidos para dançar tango, comer alfajor ou estudar medicina. Com o peso argentino variando entre 39 e 42 centavos, os brasukas fazem a festa, principalmente aqueles que irão passar apenas alguns dias. Já para os que irão morar, cuidado, apesar da desvalorização da moeda o custo de vida lá está pelas barbas do profeta.

Obelisco.
Desde quando era pirralho ouvia dizer que Buenos Aires era a Paris da América Latina, que o povo tinha costumes europeus e que a cidade era imponente, limpa e bem cuidada. Mentira deslavada. Na década de 70, o escritor Borges já falava mal das calçadas quebradas. Acredito que há 20 anos atrás a coisa podia ser melhor, mas agora para quem já conhece algum outro país ou passará mais de 10 dias por lá verá que a situação da Argentina é de chorar.

Os meses que passei em Buenos Aires foram muito bons devido a experiência que me propus viver, aos inúmeros amigos inesquecível que conheci, ao conhecimento que aderi e ao aprimoramento do espanhol, porém se fosse para conceituar esses meses apenas pelo prisma turístico diria após dois pontos: frustrante.

Muitos adoram a cidade e não pensem que odeio, só estou tentando traçar um desenho fiel ao que vi. Tudo na vida tem o seu lado bom e ruim. Farei mais dois posts sobre BsAs, um sobre o que ver e fazer, outro sobre morar e estudar. Neste relatarei sobre minha experiência como um todo e darei dicas sobre onde comer, rezar e amar, salada mista, pode parecer até que não tem nada a ver, mas leia e confie.

Fui para Buenos Aires em fervereiro com o intuito de ficar até junho, porém logo que cheguei percebi que o mercado para os formados em letras estava em alta. A procura pelo português é grande, tanto em centros de idiomas, escolas e até aulas particulares. Dava tranquilamente para passar mais tempo, quem sabe viver, porém algumas coisas me desistimularam a permanecer além do tempo necessário, entre elas a comida.

Para comer realmente bem por lá, você precisa ter tempo para cozinhar, levar alguns ingredientes do Brasil ou então ter bastante dinheiro. Para quem está acostumado com alho e óleo, talvez não seja tão intragável, mas pelo que pude pesquisar a maioria dos brasileiros que vivem por lá me garantiram que não conseguem comer bem. Já é quase um ditado: no Brasil se come igual a um rei e aqui igual a um mendigo. Não tem feijão, não tem self-service a quilo, o arroz tem gosto de isopor, a carne é cara, quase tudo é de porco e os produtos de qualidade custam o triplo, sem contar a inflação.

Uma refeição por 10 pesos é baratíssima, porém quase impossível de se achar. Entre 11 e 30 pesos é barata, acima dos 40 já considero cara, ainda mais levando em conta a quantidade ínfima que vem no prato feito.

Gostava muito de comer num restaurante que fica a exatamente um quarteirão da faculdade de medicina UBA, na rua Ayacucho, chamado Tu Cuadril. O restaurante universitário possui um estilo americano. Comia sempre um choripan (pão com carne), acompanhado com salada e arroz (pequena porção) e uma água gaseificada Ser - Lima Limón, melhor do que o H20. Tudo isso inicialmente saia por 21 pesos, porém com a inflação subiu para 22, depois 23, em seguida 24 e agora já deve estar na casa dos 30. Exagero? De jeito nenhum. 

Logo quando cheguei fiquei viciado no alfajor da marca Jorgelín. Inicialmente custava 2,50, além de ser barato era muito gostoso, pois possuía três camadas e era do tipo fofo. Peguei o hábito de comer dois por dia. Com o passar do tempo subiu para 3, depois a cada semana aumentavam mais 25 centavos e antes de ir embora, alguns kioskos já vendia o mesmo alfajor Jorgelin por 5 pesos.

Dayonara e eu no Starbucks depois de caminhar pela feira de San Telmo.

Para quem prefere comidas com a qual já é acostumado, tem Mc Donalt's e Burger King. Bob's não. Como eu nunca gostei de fast food achei melhor procurar outras opções. Demorou mais achei alguns lugares razoáveis. Na pizzaria La Continental, próxima ao Obelisco na rua Corrientes, pedia um licuado de frutilla (morango) por 17 pesos, parece caro para uma simples vitamina, porém nesta Continental em especial, a quantidade era de um litro. Para acompanhar pedia também uma fatia de pizza napolitana por 5 pesos. Não era uma refeição das mais sadias, mas dava para matar a fome.

As empanadas é como se fossem nossas empadas, porém é meio diferente não sei explicar. O fato é que em cada esquina há um lugar que vende empanadas, a maioria com cara passada e com recheio duvidoso. Duas quadras depois do Congresso na rua Rivadavia, há um restaurante chamado Bellagamba, onde as empanadas eram muito boas e muito baratas. Incicialmente, custavam 3,50, inclusive a de atum, o meu sabor favorito. Antes de ir embora, o preço já havia subido, mas mesmo assim continuava barato em relação a outros lugares. Além do ambiente ser bastante agradável, cheio de quadros e coisas diferentes, a maneira de se servir também era interessante. O próprio cliente escolhe seu PF ou empanadas, coloca num prato e leva ao micro-ondas, paga no caixa e listo. Num sábado a noite de muita fome fui lá e para minha surpresa o lugar estava lotado. É uma ótima opção para quem quer ver gente e comer empanadas baratas.


Jordana e eu no Bellagamba.

Na rua Lavalle, três quadras acima da faculdade de medicina da UBA, havia uma lanchonete muito perto do meu prédio chamada Pomodoro. Lá vendia pancho (cachorro-quente), entre outros quitutes. Também tinha licuado. Uma das coisas que me fazia ir quase todos os dias ao Pomodoro era a limpeza do lugar e também o ótimo atendimento do dono, Pablo, do qual fiquei amigo, um argentino muito gente boa. Minhas refeições lá nunca passavam dos 16 pesos. Minha freqüência era tanta que Pablo, a meu pedido, começou a fazer pratos que não vendia. Se puder ir lá, peça um panino “Uzi”, ele batizou o prato com esse nome, pois fui eu quem o obriguei a criar.

Tanto para os turistas quanto para quem for morar lá indico visitar a comunidade de brasileiros cristãos. Toda sexta-feira eles se reúnem numa pequena igreja praticamente em frente ao shopping Abasto, rua Anchorena 439. Logo quando cheguei em Buenos Aires fui convidado por Lorena, a estudante de medicina mais artista do mundo, a conhecer o grupo. Na época as reuniões ainda eram feitas na casa de um dos membros até que já não cabia mais todo o mundo. 

Além de ser um bom lugar para orar, pois independente de religião cada um está buscando não se distanciar de Deus, agora que estão distantes de tudo e de todos, também é um excelente lugar para fazer amizades sinceras. Seria difícil listar quantos amigos fiz por lá: Ludmila, Luciano, através dele conheci Thayana, Ronei, Rebeca, Dyany. Foi lá também que pude conhecer pessoas importantíssimas que se tornaram grandes amigas como Dayonara, minha parceira de andanças sem fim, e Jesi, com quem tive conversas mais psicológicas que os estudos de Freud e Carl Rogers.

Pessoal da Comunidade Cristã Brasileira no antigo endereço. Site do grupo: http://www.comunidadebrasileiragenesis.blogspot.com/

Não gostei de um monte de coisas em Buenos Aires, como o trânsito, quase fui atropelado duas vezes, sendo que em uma delas seria um atropelamento duplo. Eu e Dario, colega uruguayo do curso de teatro, quase fomos exterminados por um ônibus que não respeitou o sinal. Eu vi a morte. Em compensação, gostei de muitas coisas e pessoas entre as quais está Patrícia, amiga de todas as horas, até mesmo nas horas vulcânicas. Foi na casa dela que fiquei quando as cinzas do vulcão impediram a minha volta ao Brasil. Outras situações atípicas e até mesmo trágicas nos uniram ainda mais. Olhando todo o contexto não posso dizer que não foi bom morar em Buenos Aires.

Patrícia e eu na 9de Julio no dia do concerto de Plácido Domingos.

Ainda há mais coisas para contar, narrar, como a experiência em dividir apartamento com 4 mulheres desconhecidas e estrangeiras depois de 8 anos vivendo sozinho. Tem também a história hilária da prostituta... Não fique pensando besteira. Até os próximos posts sobre BsAs, enquanto isso vamos comer, rezar e amar.

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