Imagine tal situação: alguém acaba de chegar à sua rua, escola ou trabalho e todos passam a adorar essa pessoa como se fosse a melhor do mundo, a mais simpática, divertida e inteligente... Todos, menos você. O que faria? Diria a alguém que não gosta da pessoa ou ficaria calado para não parecer do contra?
É com essa analogia de péssima categoria que tento explicar minha visão sobre A REDE SOCIAL, filme dirigido por David Fincher e escrito por Aaron Sorkin baseado no livro de não-ficção The Accidental Billionaires.
Cartáz do filme.
Com ainda mais sucesso que o best-seller, até porque a maioria dos jovens preverem assistir do que ler, o filme é um arrasa-quarteirão de público e crítica, aplaudido, discutido e superestimado. Isabela Boscov, crítica de cinema da Revista Veja e uma das mais qualificadas sobre a arte cinematográfica no Brasil, conceituo-o como: Arrebatador!
Já eu, Zé Ninguém da Silva Pereira, conceituo-o de forma menos hiperbólica: Bacaninha.
O filme relata a criação do Facebook, só por aí se pode saber que não faltariam interessados, pois hoje em dia o site em questão é acessado por mais de 500 milhões de pessoas. E tem mais chamadores de atenção.
Mark Zuckerbeg, um nerd solitário, tinha apenas dezenove anos quando criou a rede que o tornaria bilionário antes dos 22. Porém a criação não foi harmoniosa como a de Gêneses. Logo após o Facebook estourar mundialmente, Mark é processado por seu ex-amigo de faculdade, o brasileiro Eduardo, radicado nos EUA, que foi o primeiro a investir na ideia com apenas mil dólares de início. Como pouco processo é bobagem, Mark também é levado ao tribunal por dois irmãos gêmeos estudantes da Harvard que o acusam de apropriação intelectual, ou seja, plágio.
O fascínio da possibilidade de se tornar rico ainda jovem tendo apenas uma boa ideia somado a uma história real e atual, parcialmente inacabada, multiplicado pelo interesse de milhares de usuários, é igual a êxito.
É somente esta fórmula que explica o resultado positivo de A REDE SOCIAL. É como se já estivesse consagrado antes mesmo de ser lançado. O filme tem ares de programa de fofoca, fala da vida pessoal de uma celebridade do mundo dos negócios e de quebra ainda encena o misterioso e polêmico processo judicial contra uma das maiores empresas cibernéticas. Teria como isso não lotar os cinemas? Para a maioria, é como se fosse um documentário informativo, porém contado de uma maneira mais atrativa.
Sem dúvida, a história do Facebook é um prato cheio para qualquer roteirista e diretor, pois não precisa de esforço para torná-la ainda mais interessante do que já é. O problema é que ao meu ver, e direi já preparado para as pedras, tanto o roteiro quanto a direção apresentam superficialidade, não em todo o tempo, mas em momentos cruciais e é por isso que vejo como exagero toda essa supervalorização.
Justin Timberlake e Jesse Eisenberg no filme.
Logo na primeira cena, somos apresentados ao protagonista interpretado por Jesse Eisenberg, antes de ver o filme, achei que não poderiam ter escolhido alguém melhor, pois Jesse viveu o perfeito nerd de ZOMBIELAND, então pela lógica, numa produção ainda mais bem cuidada, ele iria mostrar todo o seu potencial. Infelizmente, não é o que aconteceu.
O diálogo inicial é tão irreal que a impressão que dá é que esteriotiparam tanto a imagem de um nerd rejeitado que tiraram toda a graça do gracioso menino. Trocadilhos infames a parte, colocaram o pobre do Jesse falando mais rápido que a divertida Six do seriado Blossom, direto do fundo do tempo, e como se não bastasse, a antipatia em excesso do personagem é tão seca que se torna inverossímil.
Durante o enredo, é dada uma explicação para o comportamento de Mark que simplesmente não convence. Tudo está resumido no despeito pela rejeição da namorada e pela a inveja do amigo brasileiro ter sido aceito num grêmio estudantil, enquanto ele não. Até que poderia realmente ter sido isso, mas o sentimento foi pouco explorado.
O filme quer contar o processo através de vários ângulos, ninguém é certo e ninguém é errado, porém é inadmissível que numa história que se pretende explorar a visão individual de forma imparcial, simplesmente os personagens se tornem rasos como um prato. Tanto o protagonista é retratado como apenas um nerd no sentido mais perjorativo e clichê que se possa imaginar, como os gêmeos também seguem a pura imagem de sarados, mimados e sem cérebro. Só esqueceram que se ambos estudam na Harvard, alguma coisa além de músculos nos braços, eles devem ter. Essa falta de dubiedade num filme biográfico é algo imperdoável.
Já Andrew Garfield que incorpora o co-fundador e Justin Timberlake que vive o polêmico Sean Parker, criador do site Napster, estão no barco dos que se salvaram da superficialidade do roteiro. Ponto para eles.
A REDE SOCIAL usou do mesmo meandro que o livro O CÓDIGO DA VINCI para se dar bem. Pegou elementos fictícios, introduziu num contexto verídico e vendeu como verdade absoluta.
O próprio Mark criticou o longa devido aos elementos irreais incorporados à trama para atrair o público das massas. Não esperava que o filme fosse totalmente fidedigno à realidade, pois como arte, acredito que se possa confeitar, o problema é quando o confeite ao invés de melhorar faz é piorar.
Neste último sábado, o ator Jesse e o criador Mark se encontraram em um programa de TV nos EUA, foi no mínimo inusitado e constrangedor, já que Mark foi representado como um solitário antipático sem senso de humor, estigma que nos poucos minutos em que ele esteve no ar caiu por terra e nem seria necessário vê-lo para saber que aquele tipo de nerd do filme é fora de qualquer realidade.
David Fincher tem que tomar cuidado, depois de O CURIOSO CASO DE BEJAMIN BUTTOM, este é o seu segundo filme em que os personagens estão lá só para contar uma ótima história, pena que ele conta de forma tão morna. Alguém de coragem, por favor, clique em CUTUCAR para ver se ele acorda, porque senão, no próximo filme, quando o FACEBOOK já tiver inventado a ferramenta NÃO CURTI, é nela que clicarei.
Encontro do real com o fictício.






Ótima critica, estou de acordo!
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