segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Crônica - No Meio do Nada!

A vida é feita por ciclos, tanto é que desde o tempo da primeira série, a antiga matéria de Estudos Sociais já dizia: o homem nasce, cresce, reproduz, envelhece e morre. E dentro desta triste e resumida cadeia há os subciclos: primário, ginásio, faculdade, namoro, noivado, casamento, etc.

Casamento de Samila e Vabel. A vida do padrinho continua igual, já a dos noivos não.

Existem ciclos que demoram mais de findar que outros e existem pessoas que simplesmente não conseguem viver todos os ciclos que a sociedade exige, seja porque a vida não permitiu ou porque a personalidade do indivíduo não tem paciência nem prazer para aquele determinado ciclo, entrando assim nos horríveis e intermináveis períodos de transição.

Os períodos de transição são aqueles momentos em que o elemento se enche de ansiedade para resolver suas pendengas, afoga-se em frustração por se sentir estagnado e não raramente se descobre com crise existencial, que nada mais é do que a tentativa falha em desvendar o que cargas d’água veio fazer no mundo.

Talvez, o primeiro e mais grave período de transição aconteça ao terminar o terceiro ano do ensino médio. Para quem logo de cara entra na faculdade desejada, arranja o emprego dos sonhos ou conhece o amor da sua vida, tudo bem, sem grandes sofrimentos esses sortudos passam para um novo clico onde estarão protegidos, porém com a maioria a coisa não acontece assim.

A verdade nua e crua para um recém-formado é a seguinte: leva bomba em vários vestibulares e naqueles que porventura passou falta o dinheiro para pagar a faculdade, ou é muito longe, ou fatores inesperados surgem evitando que ele ingresse no ensino superior. Fazendo cursinhos ou simplesmente esperando o tempo passar até poder tentar outro vestibular, muitos saem em busca do primeiro emprego e ouvem centenas de nãos devido à falta de experiência em carteira. Por causa desses fatores negativos, a auto-estima é por vezes afetada ao ponto de impossibilitar que o indivíduo conquiste um par romântico. Sem estudar, sem trabalha e sem se relacionar com alguém que realmente valha a pena, rejeitado em tudo isso, o recém-formado passa o dia de cara pro ar, alguns morrendo em frente ao Vale a Pena Ver de Novo, outros se entregando ao acaso enquanto jogam uma pelada com a turma do bairro.

Formatura dos alunos do terceiro ano. Pareço um deles, mas sou o professor.

O período de transição ao terminar uma faculdade também não é muito diferente, com agravantes, com cerca de 25 anos já existe a pressão para se casar, para já ser independente, estruturado.
Estar fazendo parte de um ciclo também não é sinônimo de felicidade. Não é porque os Estudos Sociais dizem que ao ter um emprego você deve casar, reproduzir, envelhecer e morrer, que você vai se sentir pleno em obedecer essa máxima. Afinal de contas, nascer, crescer, envelhecer e morrer realmente são verbos obrigatórios, mas reproduzir não. E nos subciclos nenhum verbo é realmente imprescindível. Pode parecer polêmico dizer que nem todos precisam casar, mas há muitas pessoas que simplesmente não tiveram a sorte de conhecer o amor da sua vida, ou seja, a pessoa que não conseguir casar e reproduzir deve se sentir infeliz por não ser como os demais?
Numa época em que o sexo é tão banalizado, um virgem de 70 anos deve se sentir o ser mais infeliz do mundo?
Todo o mundo tem a sua congruência, joga aí no dicionário do Google, períodos de transições realmente são chatos, mas o pior é quando se luta para fazer parte de um ciclo imposto.
Morar num lugar, trabalhar e se enraizar é o comum, mas é algo que eu nunca gostei. As pessoas evitam fazer mudanças por causa dos períodos de transições, porém mal sabem elas que nem só de transições nascem as crises, mas também do fazer tudo como manda o protocolo sociocultural, ou ninguém nunca ouviu falar da crise de meia idade?

A mesmice muitas vezes é uma pasmaceira necessária, outras vezes é uma burrada preguiçosa, burrada porque existe alternativa, mas escolheu a errada e preguiçosa porque só não muda por preguiça, acomodação e medo, afinal de contas como já vimos: o preço da mudança é a dificuldade da transição.


Para acabar com minhas redundâncias só quero dizer que todo final de ano é um período de transição para a maioria da humanidade, sofra pela agonia desse processo, mas não sofra para se enquadrar em um ciclo que não vai lhe fazer feliz. Para não parecer filosofia barata e repetida de Augusto Cury, complemento dizendo que não é para você fazer só o que te der vontade, até porque nossas vontades podem ser perigosas, juízo e equilíbrio são as palavras de ordem, sem contar no tão pregado auto-controle de Jane Austen, o problema é que a maioria não ler sequer Luís Fernando Veríssimo, diga-se lá Jane Austen. Mas parando de criticar a leitura alheia, resumo: conheça-se melhor, analise os fatos, as conseqüências, pague o preço da transição e saia do comodismo sufocante, mude.
Tchau pra quem fica, eu vou ali viver.
Feliz período de transição!

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