quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Crítica Literária - "A Obscena Senhora D", de Hilda Hilst

Primeira Impressão

Ao começar a ler “A Obscena Senhora D”, de Hilda Hilst, o que primeiro estranhei foi a pontuação. A falta de travessões e aspas para os discursos diretos, o pouco uso da vírgula e a ausência de capítulos para dividir a narrativa me fizeram suspeitar de que o texto pedia uma leitura sem interrupções. Li-o de um só fôlego e embora, por vezes, perdesse-me na polifonia, segui o ritmo para verificar onde toda aquela fluência me levaria.

A escritora Hilda Hilst.

O primeiro desafio foi vencer a censura moral para não me indispor com as personagens, o que se ocorresse, talvez comprometesse o efeito proposto pela linguagem. Ao terminar de ler, tive a impressão de que havia acabado de assistir a uma peça teatral de Nelson Rodrigues, não apenas pelo conteúdo similar ao da obra de Hilda, mas também devido à forma como a história é contata – em primeira pessoa e repleta de marcas de oralidade durante os desabafos e questionamentos de Hillé.

Pareceu-me um texto performático, tanto pelo impacto comportamental das personagens, quanto pelo teor sensorial da estética que instiga o corpo a se mover durante a leitura, como se fosse um delírio a ser encenado, ou como se ao invés de literatura, estivéssemos ouvindo uma música que nos convida a dança.


A Especificidade do Literário

A literatura é um dos modos de representação mais peculiar que o ser humano conseguiu criar, ou melhor seria dizer refinar, já que a escrita do poeta é uma arte tão poderosa, que a origem dessa linguagem é creditada às forças divinas, de Deus, dos deuses, algo tão sublime que não poderia ser criação do homem.

Embora a literatura se sirva dos aspectos formais da escrita, ela rompe os limites das regras fonológicas, lexicais, sintáticas e semânticas, dando transcendência às palavras e às frases, transformando assim, o signo em quase objeto. Esta aproximação entre significado e significante resulta na representação estética da realidade e do imaginário, ao mesmo tempo em que a literatura não é – em sua totalidade – nem real e nem imaginação. Tal característica é específica dos textos literários, como podemos encontrar no livro: “A Obscena Senhora D”.
Nesta obra da escritora Hilda Hilst, é narrada a história de Hillé, uma senhora sexagenária que perdeu seu companheiro de vida e que choca os vizinhos com o seu comportamento.

Apesar do simples argumento e dos acontecimentos quase triviais que dão base à história, o pequeno romance ganha proporções gigantescas através da linguagem. Embora o conteúdo possa chocar, é o modo de expressão que atinge o leitor. O primeiro estranhamento se dá através do visual, a diagramação não trás parágrafos justificados e nem separação por capítulos; a pouca pontuação dificulta, fazendo o leitor buscar mentalmente a lógica, embora a polifonia sugira desde o princípio a falta de lógica no discurso das personagens.

Todos estes obstáculos de leitura fazem com que a esquizofrenia da Senhora D, mais do que informada, seja vivida pelo leitor e assim o aprendizado se faz mais completo, pois ao vivenciar literariamente à determinada situação, o leitor se aproxima da questão, diferente do aprendizado científico que mantém o distanciamento.


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