Há
pessoas que gostam de açaí com granola, outras preferem com banana e ainda há
aquelas que tomam com leite em pó, porém Caio gostava de açaí com maconha. Não
sabia ele se gostava pelo sabor, ou se pela atenção que chamava com esta
mistura.
Filho de
um austríaco atleta e de uma espanhola bailarina, Caio cresceu em beleza e se
converteu num ser mais carismático e destrutivo que Hitler. Desde o primário
que todas as meninas o queriam como namorado. Nos primeiros anos do ginásio
começou a aprontar e na oitava série já era o líder-mor da balbúrdia, seguido
por outros rapazes, estes feios e sem personalidade que buscavam um pouco da
popularidade que Caio os podiam conceder como ídolo escolar.
O
playboy sorridente era o terror dos professores, o pesadelos dos diretores, em
contra partida, seguia sendo o objeto de
desejo das meninas e o exemplo a ser seguido para os meninos.
Tendo
uma fama de mal para zelar, Caio foi por um caminho precoce. Começou a beber
pouco antes do meio-dia, passou a fumar por volta das treze horas e antes do
Vale a Pena Ver de Novo já havia se iniciado sexualmente. Sua primeira vez foi
com uma mocinha que se arrependeu até o último dia de sua vida. Virgindade
perdida na hora errada tem o poder de deixar o erro gritando por horas.
Os dois
melhores amigos de Caio eram o Rodrigo e a Fernanda. Juntos formavam um trio
parada dura, quase uma formação de quadrilha. Fumavam atrás do muro da escola,
matavam aulas, batiam coletivamente em quem não gostavam.
No primeiro
ano do ensino médio, Caio se descontrolou quando recebeu zero da professora de
matemática. Questionou-a por que do zero e como a resposta parecia óbvia, a
professora não se deu o trabalho de responder, virou as costas, o sangue de
Caio ferveu e ele simplesmente deu um murro na professora que caiu atônita no
chão mais assustada que os demais alunos que ficaram sem reação. Expulsão.
A
popularidade do rapaz também foi ao chão. A pressão em casa aumentou, o
estresse explodiu e de amigos apenas permaneceu neste difícil momento, Rodrigo
e Fernanda que faziam de tudo para manter a moral de Caio intacta. Acostumado
aos mimos da superioridade, o bonitão quis provar que não estava abalado, pelo
contrário, ainda era o bam bam bam. Aumentou a dose de álcool, o nível do
perigo e sentindo dever algo aos seus melhores amigos, roubou o relógio do seu
avô e com o dinheiro comprou mais maconha.
Os três
quase perderam o ano e só se importaram porque não viam a hora de se formarem e
assim nunca mais voltarem à escola. O que iam fazer depois de formados e com a
maioridade? Fizeram planos de ir embora juntos da cidade, alugar um apê e morar
os três, cada um ajudando nas despesas.
Um dia
comprando cerveja, cigarro, Cheetos e camisinha no mercado, Caio deu de cara
com a professora que houvera agredido meses atrás. Gelou. Mas nem passou pela
sua cabeça dizer oi, desculpa, ou o que fosse. Tentou fingir que não a viu, mas
a dona dos números chamou seu nome. Ele atendeu disfarçando sua vergonha.
Admitir um erro, jamais. Ela perguntou como ele estava... Perguntou como estava
na escola nova... E já sabe que curso fará quando se formar? Caio respondeu que
não faria faculdade, não tinha paciência para os estudos e o único que queria
era tirar a média para se formar no terceiro ano. Mesmo correndo risco, a
professora não foi embora sem antes dizer que para ser alguém respeitado e de
sucesso é preciso estudar. Caio desta vez a agrediu com as palavras dizendo que
ela era estudada e mesmo assim ele não a respeitou.
Passando-se
por mais velho, pagou os produtos no caixa e contou aos seus amigos sobre o
encontro. Solidários, Fernanda desdenhou do discurso da professora, enquanto
que Rodrigo a chamou de vaca. Riram, beberam, fumaram...
Mais uma
vez passaram o ano devido à progressão continuada do Colégio Estadual, ao qual
se transferiram após o episódio da agressão. Menos de um ano para a formatura.
Sábado, noite de balada. Caio beijou 8 e levou uma para um lugar mais
reservado. Após o ato, não quis mais saber dela, preferia a companhia de seus
amigos inseparáveis. De volta à casa nortuna, algo havia acontecido. Polícia na
jogada. Distanciou-se com medo de que fosse flagrado com maconha no bolso. E de
longe, viu o corpo do seu amigo Rodrigo, morto com dois tiros na balada.
Caio e
Fernanda ficaram inconsoláveis. Aumentaram a intensidade do álcool, da droga e
do sexo. Vodca, cocaína e desconhecidos. Já estavam acostumados. Algo mais
forte para aplacar a dor. Heroína com
seringa. O comportamento que já era rebelde ficou pior. Os avôs chamaram os
pais de Caio. O pai que morava em outro
estado, apenas ligou para saber o que estava acontecendo. A mãe executiva que
trabalha sem tempo pro filho, apareceu para lhe dar outra bronca. Caio saiu
batendo porta e foi se encontrar com Fernanda para mais uma sessão de escape.
Já não era para esquecer a perda do amigo. O vício que começou inocente nas
primeiras horas, agora os levava para o fim. O cinto apertou, o dinheiro
acabou. Fernanda foi buscar mais na casa do seu fornecedor, mas já estava
devendo, garantiu que logo pagaria. O fornecedor e seus dois companheiros não
acreditaram, resolveram cobrar. E Fernanda que sempre se gabara de ser liberal,
sensual e desejada pelos homens, viu pela primeira vez o lado feio da moeda: o
sexo não consentido. Tentou correr, mas não conseguiu. Gritou, mas não pararam.
Foi encontrada no dia seguinte num terreno baldio, toda machucada, sem roupa e
louca. Culpou Caio pela má influência, cortou relações e se isolou traumatizada
no seu quarto.
Foram os
piores meses da vida de Caio. Sem amigos, sem expectativas e nem exigências,
usava tudo o que via pela frente, ia para cama sem nem ao menos questionar a procedência
do outro corpo. Fim do poço. Mais seringa na veia. Uma semana para a formatura.
Na pública todos passam. O braço doía. Uma ferida grande surgiu. Tinha pus.
Escondeu enquanto pôde. O mal do braço parecia estar passando para o corpo, de
certo morreria. Transtornado, fora de si, foi parabenizar a professora, afinal
ela estava certa, ele não seria ninguém. Esperou-a na saída do colégio que
estudara. Ao vê-lo, levou um susto, estava visivelmente drogado e segurava seu
braço tentando conter a dor. Não conseguiu. Desmaiou. A professora gritou por
socorro. Inconsciente, Caio só voltou a abrir os olhos dez horas depois, quando
os médicos já haviam serrado o osso e amputado o braço podre.



