sexta-feira, 1 de junho de 2012

Conto - Antes de Caio se Formar


Há pessoas que gostam de açaí com granola, outras preferem com banana e ainda há aquelas que tomam com leite em pó, porém Caio gostava de açaí com maconha. Não sabia ele se gostava pelo sabor, ou se pela atenção que chamava com esta mistura.

Filho de um austríaco atleta e de uma espanhola bailarina, Caio cresceu em beleza e se converteu num ser mais carismático e destrutivo que Hitler. Desde o primário que todas as meninas o queriam como namorado. Nos primeiros anos do ginásio começou a aprontar e na oitava série já era o líder-mor da balbúrdia, seguido por outros rapazes, estes feios e sem personalidade que buscavam um pouco da popularidade que Caio os podiam conceder como ídolo escolar.


O playboy sorridente era o terror dos professores, o pesadelos dos diretores, em contra partida,  seguia sendo o objeto de desejo das meninas e o exemplo a ser seguido para os meninos.

Tendo uma fama de mal para zelar, Caio foi por um caminho precoce. Começou a beber pouco antes do meio-dia, passou a fumar por volta das treze horas e antes do Vale a Pena Ver de Novo já havia se iniciado sexualmente. Sua primeira vez foi com uma mocinha que se arrependeu até o último dia de sua vida. Virgindade perdida na hora errada tem o poder de deixar o erro gritando por horas.

Os dois melhores amigos de Caio eram o Rodrigo e a Fernanda. Juntos formavam um trio parada dura, quase uma formação de quadrilha. Fumavam atrás do muro da escola, matavam aulas, batiam coletivamente em quem não gostavam.

No primeiro ano do ensino médio, Caio se descontrolou quando recebeu zero da professora de matemática. Questionou-a por que do zero e como a resposta parecia óbvia, a professora não se deu o trabalho de responder, virou as costas, o sangue de Caio ferveu e ele simplesmente deu um murro na professora que caiu atônita no chão mais assustada que os demais alunos que ficaram sem reação. Expulsão.

A popularidade do rapaz também foi ao chão. A pressão em casa aumentou, o estresse explodiu e de amigos apenas permaneceu neste difícil momento, Rodrigo e Fernanda que faziam de tudo para manter a moral de Caio intacta. Acostumado aos mimos da superioridade, o bonitão quis provar que não estava abalado, pelo contrário, ainda era o bam bam bam. Aumentou a dose de álcool, o nível do perigo e sentindo dever algo aos seus melhores amigos, roubou o relógio do seu avô e com o dinheiro comprou mais maconha.

Os três quase perderam o ano e só se importaram porque não viam a hora de se formarem e assim nunca mais voltarem à escola. O que iam fazer depois de formados e com a maioridade? Fizeram planos de ir embora juntos da cidade, alugar um apê e morar os três, cada um ajudando nas despesas.

Um dia comprando cerveja, cigarro, Cheetos e camisinha no mercado, Caio deu de cara com a professora que houvera agredido meses atrás. Gelou. Mas nem passou pela sua cabeça dizer oi, desculpa, ou o que fosse. Tentou fingir que não a viu, mas a dona dos números chamou seu nome. Ele atendeu disfarçando sua vergonha. Admitir um erro, jamais. Ela perguntou como ele estava... Perguntou como estava na escola nova... E já sabe que curso fará quando se formar? Caio respondeu que não faria faculdade, não tinha paciência para os estudos e o único que queria era tirar a média para se formar no terceiro ano. Mesmo correndo risco, a professora não foi embora sem antes dizer que para ser alguém respeitado e de sucesso é preciso estudar. Caio desta vez a agrediu com as palavras dizendo que ela era estudada e mesmo assim ele não a respeitou.

Passando-se por mais velho, pagou os produtos no caixa e contou aos seus amigos sobre o encontro. Solidários, Fernanda desdenhou do discurso da professora, enquanto que Rodrigo a chamou de vaca. Riram, beberam, fumaram...

Mais uma vez passaram o ano devido à progressão continuada do Colégio Estadual, ao qual se transferiram após o episódio da agressão. Menos de um ano para a formatura. Sábado, noite de balada. Caio beijou 8 e levou uma para um lugar mais reservado. Após o ato, não quis mais saber dela, preferia a companhia de seus amigos inseparáveis. De volta à casa nortuna, algo havia acontecido. Polícia na jogada. Distanciou-se com medo de que fosse flagrado com maconha no bolso. E de longe, viu o corpo do seu amigo Rodrigo, morto com dois tiros na balada. 

Caio e Fernanda ficaram inconsoláveis. Aumentaram a intensidade do álcool, da droga e do sexo. Vodca, cocaína e desconhecidos. Já estavam acostumados. Algo mais forte para aplacar a dor.  Heroína com seringa. O comportamento que já era rebelde ficou pior. Os avôs chamaram os pais de Caio.  O pai que morava em outro estado, apenas ligou para saber o que estava acontecendo. A mãe executiva que trabalha sem tempo pro filho, apareceu para lhe dar outra bronca. Caio saiu batendo porta e foi se encontrar com Fernanda para mais uma sessão de escape. Já não era para esquecer a perda do amigo. O vício que começou inocente nas primeiras horas, agora os levava para o fim. O cinto apertou, o dinheiro acabou. Fernanda foi buscar mais na casa do seu fornecedor, mas já estava devendo, garantiu que logo pagaria. O fornecedor e seus dois companheiros não acreditaram, resolveram cobrar. E Fernanda que sempre se gabara de ser liberal, sensual e desejada pelos homens, viu pela primeira vez o lado feio da moeda: o sexo não consentido. Tentou correr, mas não conseguiu. Gritou, mas não pararam. Foi encontrada no dia seguinte num terreno baldio, toda machucada, sem roupa e louca. Culpou Caio pela má influência, cortou relações e se isolou traumatizada no seu quarto. 

Foram os piores meses da vida de Caio. Sem amigos, sem expectativas e nem exigências, usava tudo o que via pela frente, ia para cama sem nem ao menos questionar a procedência do outro corpo. Fim do poço. Mais seringa na veia. Uma semana para a formatura. Na pública todos passam. O braço doía. Uma ferida grande surgiu. Tinha pus. Escondeu enquanto pôde. O mal do braço parecia estar passando para o corpo, de certo morreria. Transtornado, fora de si, foi parabenizar a professora, afinal ela estava certa, ele não seria ninguém. Esperou-a na saída do colégio que estudara. Ao vê-lo, levou um susto, estava visivelmente drogado e segurava seu braço tentando conter a dor. Não conseguiu. Desmaiou. A professora gritou por socorro. Inconsciente, Caio só voltou a abrir os olhos dez horas depois, quando os médicos já haviam serrado o osso e amputado o braço podre.

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