Spike Jonze é um roteirista e diretor incomum. Em seus filmes mais famosos, como "Quero Ser John Malkovich" e “Adaptação”, podemos conferir o seu destemor em apresentar personagens complexos pelo viés metalinguístico. O resultado disso chega a ser insano. Para se ter uma ideia, a engrenagem de seu roteiro em “Adaptação” foi tamanha, que pela primeira vez um roteirista fictício foi nomeado ao Oscar.
Considerando esse histórico, a expectativa
para o seu novo filme era das mais animadoras. Em “Ela” (Her), Spike prova que
sabe criar e também se reinventar. Diferente de suas prestigiadas produções
anteriores, o diretor deixa a metalinguagem e se aventura num mundo futurístico
que mais se parece com o presente.
Na história, Theodore é um solitário
escritor de cartas online. Recém-divorciado e sem perspectivas amorosas, ele
busca na vida virtual algum tipo de socialização. É quando um novo sistema
operacional é lançado na rede. Ele se torna um dos usuários e acaba se
apaixonando por Samantha, que nada mais é do que um software ultrainteligente
que interage apenas com a voz.
Com uma sinopse que lembra “Mulher Nota
Mil” e derivados, o filme se difere – e muito – pelo genialidade de Skipe. O
argumento deixa de servir a uma trama aparentemente boba e se torna uma crítica
ácida ao individualismo pós-moderno. Os diálogos são leves, mas ao mesmo tempo
carregados de sentidos, inteligentes como pouco se vê em Hollywood.
A atuação de Joaquin Phoenix contribui
bastante para legitimar os diálogos e toda a ação futurística proposta. Com um
personagem frágil, sem grandes arroubos e de personalidade comum, Phoenix soube
torná-lo interessante, injetando vigor e o defendendo de maneira crível.
O mesmo ocorreu com Scarlett Johansson, a
qual contracena apenas com a voz. O trabalho desenvolvido pela atriz é um dos
mais interessantes de toda sua carreira, afinal, interpretar a voz de um software
tendo a responsabilidade de conquistar o protagonista e o espectador, não é
para qualquer um. O único motivo pelo qual Scarlett ficou de fora do Oscar é
porque a Academia desconsidera atuações puramente sonoras. E por falar em som,
a trilha sonora também é de se apaixonar.
A paixão em si é um dos principais temas
abordados em “Ela”, mas não se trata de uma paixão ao estilo comédia romântica.
Vai muito além. Spike Jonze faz o espectador se apaixonar pelo enredo, pela voz
de Samantha, para depois, assim como faz com o Theodore, trazer a reflexão
sobre o quão vazio é o amor virtual, como é patético e covarde preferir um mundo
que não existe.
Que das cinco indicações ao Oscar, incluindo
Melhor Filme, “Ela” possa levar ao menos o de Roteiro Original, ou então, o de Melhor
Canção. Veja um trecho do filme com a música indicada e diga se não merece a cobiçada estatueta.



