segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Oscar 2014 – Ela: Apaixonante

Cartaz do filme com Scartlett e Joaquim PhoenixSpike Jonze é um roteirista e diretor incomum. Em seus filmes mais famosos, como "Quero Ser John Malkovich" e “Adaptação”, podemos conferir o seu destemor em apresentar personagens complexos pelo viés metalinguístico. O resultado disso chega a ser insano. Para se ter uma ideia, a engrenagem de seu roteiro em “Adaptação” foi tamanha, que pela primeira vez um roteirista fictício foi nomeado ao Oscar.
Considerando esse histórico, a expectativa para o seu novo filme era das mais animadoras. Em “Ela” (Her), Spike prova que sabe criar e também se reinventar. Diferente de suas prestigiadas produções anteriores, o diretor deixa a metalinguagem e se aventura num mundo futurístico que mais se parece com o presente.

Na história, Theodore é um solitário escritor de cartas online. Recém-divorciado e sem perspectivas amorosas, ele busca na vida virtual algum tipo de socialização. É quando um novo sistema operacional é lançado na rede. Ele se torna um dos usuários e acaba se apaixonando por Samantha, que nada mais é do que um software ultrainteligente que interage apenas com a voz.

Com uma sinopse que lembra “Mulher Nota Mil” e derivados, o filme se difere – e muito – pelo genialidade de Skipe. O argumento deixa de servir a uma trama aparentemente boba e se torna uma crítica ácida ao individualismo pós-moderno. Os diálogos são leves, mas ao mesmo tempo carregados de sentidos, inteligentes como pouco se vê em Hollywood.

A atuação de Joaquin Phoenix contribui bastante para legitimar os diálogos e toda a ação futurística proposta. Com um personagem frágil, sem grandes arroubos e de personalidade comum, Phoenix soube torná-lo interessante, injetando vigor e o defendendo de maneira crível.

O mesmo ocorreu com Scarlett Johansson, a qual contracena apenas com a voz. O trabalho desenvolvido pela atriz é um dos mais interessantes de toda sua carreira, afinal, interpretar a voz de um software tendo a responsabilidade de conquistar o protagonista e o espectador, não é para qualquer um. O único motivo pelo qual Scarlett ficou de fora do Oscar é porque a Academia desconsidera atuações puramente sonoras. E por falar em som, a trilha sonora também é de se apaixonar.

A paixão em si é um dos principais temas abordados em “Ela”, mas não se trata de uma paixão ao estilo comédia romântica. Vai muito além. Spike Jonze faz o espectador se apaixonar pelo enredo, pela voz de Samantha, para depois, assim como faz com o Theodore, trazer a reflexão sobre o quão vazio é o amor virtual, como é patético e covarde preferir um mundo que não existe.

Que das cinco indicações ao Oscar, incluindo Melhor Filme, “Ela” possa levar ao menos o de Roteiro Original, ou então, o de Melhor Canção. Veja um trecho do filme com a música indicada e diga se não merece a cobiçada estatueta.

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