domingo, 26 de maio de 2013

Literatura - O Ensino de Literatura e a Visão de Limiar

Desde o tempo da escola, somos orientados a pensar numa lógica linear, como se o conhecimento de determinado assunto só pudesse ser apreendido através da soma de informações anteriores. Embora esta lógica cronológica já faça parte da cultura universal, há que se fazer lembrar que este não é o único caminho para alcançar o aprendizado, e muito menos, o melhor modo quando se trata de literatura.

A partir do primeiro ano do ensino médio, o aluno é iniciado - tardiamente – nos estudos literários. Começando pelo Quinhentismo, mas precisamente pelas cartas de Pero Vaz de Caminha, o discente levará três anos decorando as características de cada período, linearmente. Moldados por uma visão quadrada, é provável que – os poucos que insistirem – tornar-se-ão leitores com dificuldades de presentificar o texto e de absolver mais sentidos do que a leitura estagnada em conceitos pode oferecer.

No ensaio “Entre a Vida e a Morte”, de Jeanne Marie Gagnebin (2010), é dissecado o pensamento de Walter Benjamin (1927-1940) sobre liminares e fronteiras, reflexões que podem nos ajudar a reeducar nosso olhar para a literatura, tanto no modo de ler as obras ficcionais e críticas, quanto para nos situar dentro da história literária.

Numa tentativa de definir melhor o conceito de fronteira, Gagnebin discorre:

[...] A fronteira contém e mantém algo, evitando seu transbordar, isto é, define seus limites não só como os contornos de um território, mas também como as limitações do seu domínio. (GAGNEBIN, 2010, p. 13)

É devido este caráter limitador que o historicismo pode ser comparado à ideia de fronteira. Preso a uma tradição exacerbada, o historicismo valoriza o passado em total detrimento do presente, buscando documentar fatos com uma fidelidade que já não pode ser assegurada, negando assim o próprio cerne da história: o de evoluir.

Trazendo esta concepção de fronteira para o campo da literatura, podemos observar com maior nitidez os efeitos negativos causados pela educação pragmática, a qual acaba imobilizando a obra e a história literária devido seu olhar extremamente apegado a limites traçados pela tradição.

A fragmentação despontada com a modernidade chamou atenção para outro método de aprendizado, ou melhor seria dizer, outra configuração de visão.

Os romances fragmentados que mostram as histórias, ao invés de contá-las, já sugeriam com segurança que olhar por constelação, e não por linha, é o modo mais eficiente para apreender, pois ao criar conexões com pontos dessemelhantes, aumentam-se os campos de visão - ver além do que foi proposto - estendem-se as possibilidades de movimento – ir e vir coletando os cacos que formarão o conhecimento.

Este raciocínio se assemelha a ideia do limiar de Benjamin, o qual também foi explanado por Gagnebin:

O conceito de Schweller, limiar, soleira, umbral, seuil, pertence igualmente ao domínio de metáforas espaciais que designam  operações intelectuais e espirituais; mas se inscreve de antemão  num registro mais amplo, registro de movimento, registro de ultra-passagens, de “passagens” [...] (GAGNEBIN, 2010, p. 13)

Para facilitar ainda mais a distinção do termo, ela o leva para o campo da arquitetura:

Na arquitetura, o limiar deve preencher justamente a função de transição, isto é, permitir ao andarilho ou também ao morador que possa transitar, sem maior dificuldade, de um lugar determinado a outro, diferente, às vezes oposto. (GAGNEBIN, 2010, p. 13-14). 

Ver a literatura pelo prisma da visão de limiar, não só parece ser o modo mais competente, como também parece ser indispensável. A começar pelo tema do ensino da literatura, ponto pelo qual demos partida, podemos notar que conduzir o aluno no mundo dos estudos literários por meio das tensões, proporcionando um espaço mais amplo para passagens e ultra-passagens, ao invés de aprisioná-lo em contextos históricos, seria mais enriquecedor para sua formação literária.

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