quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Os Melhores Autores de Novelas - Aguinaldo Silva: Senhor do Ibope

Muitos podem discordar, mas contra os números não há argumentos, Aguinaldo Silva é o autor de novelas mais bem sucedido do Brasil. Fala o que quer, alfineta globais, debocha de gente importante e vende seu peixe melhor do que ninguém. Não raramente, o pernambucano exalta suas obras através das redes sociais e conta vantagens que soam como prepotência. Pura personagem. Aguinaldo é um fanfarrão que leva suas novelas e seus discursos na brincadeira, para o desespero geral daqueles que buscam seriedade em tudo, inclusive nos folhetins televisivos.

Atualmente, ele é o único autor que nunca escreveu novelas fora do horário das oito/nove da noite. Não é somente pelo ego aflorado que nunca se dispôs a escrever para outros horários, embora crie histórias desprentenciosas com a realidade, Aguinaldo leva o gênero a sério e não tem vergonha de afimar que novela é entretenimento de massa, é isso que o diferencia dos seus colegas de profissão, os quais parecem vê na novela algo inferior, vivem tentando refinar a linguagem e acabam produzindo fracassos. Talvez este seja o caso de autores como Gilberto Braga, Lauro César Muniz e Silvio de Abreu, que de uns tempos para cá parecem escrever novelas por obrigação.

É preciso ser vaidoso para escrever 30 laudas caprichadas por capítulo, porque senão, o trabalho pode acabar ficando impessoal nas mãos dos colaboradores. Aguinaldo tem a vaidade necessária, por vezes pode até exagerar, mas não seria humano se não o fizesse. Ele é um dos poucos autores, senão o único, a fazer referências aos seus próprios trabalhos. Vira e mexe uma personagem de alguma obra anterior volta a aparecer no trabalho atual. Em "Porto dos Milagres", o prefeito Pitágoras de "A Indomada" voltou para amparar Augusta Eugênia, vilã cômica vivida pro Arlete Salles. Mais recentemente, em "Fina Estampa", a personagem Nazaré Tedesco de "Senhora do Destino" foi citada diversas vezes por Tereza Cristina.

Depois de ter dividido a autoria com Dias Gomes em "Roque Santeiro" e com Gilberto Braga em "Vale Tudo", ambas nos anos 80, Aguinaldo Silva assinou como autor titular a novela "Tieta" (1990). Baseada no romance de Jorge Amado, Silva não se fez de rogado e recriou a trama sem peso na consciência. Com média geral de 64 pontos no Ibope, "Tieta" possui a média mais alta da história, apesar de o maior pico de audiência não pertencer a ela. Em resumo, a personagem titulo voltava à Santana do Agreste para se vingar de todos que a expulsaram da cidade quando era uma jovem cabritinha.

Exibida pouco depois do fim da censura no Brasil, a novela tinha uma abertura ousada com Isadora Ribeiro caminhando nua. A relação sexual entre Tieta e seu sobrinho causou protestos da Igreja Católica, no melhor estilo carola de Perpétua, personagem interpretada por Joana Fomm que de tão religiosa fazia as piores sandices, como guardar o pênis do seu falecido marido numa caixa, embora não tenha ficado claro se realmente era o pênis que ela guardava. Esse mistério do conteúdo da caixa de Perpétua foi citado no último capítulo de "Fina Estampa" por Crodoaldo Valério.


Destaque para Luciana Braga, ainda adolescente, na pele de Imaculada, uma das rolinhas do Coronel Artur da Tapidanga interpretado pelo sempre ótimo Ary Fontoura. O que não faltou em "Tieta" foram cenas antológicas, como a briga entre Perpétua e o Pastor vivido por João Dória, na qual ambos se transformaram em herois com superpoderes, representado a guerra entre os fanáticos de religiões diferentes. A volta de Tieta também é digna de nota, quando Bafo de Bode interpretado pelo excelente Bemvindo Siqueira afima: "Isso não é uma mulher, é uma plantação inteirinha de xibiu".

Dois anos depois, Aguinaldo volta com "Pedra Sobre Pedra", outra novela de realismo fantástico e que também se passava na Bahia, só que ao invés do Litoral, o cenário era a linda Chapada da Diamantina, a qual serviu como mote para a abertura da mulher pelada que se camuflava em pedras, montanhas e árvores. Tudo isso sem apelar para computação gráfica.
"Pedra Sobre Pedra" e "Fera Ferida" não tiveram foram o mesmo fenômeno que "Tieta", mas também estiveram longe de ser fracasso, alcançaram pouco mais que a meta exigida.


Em 1997 veio "A Indomada" protagonizada por Adriana Esteves, mas quem roubou a cena foi Eva Wilma com a hilária vilã Altiva que misturava o inglês com o regionalismo nordestino. Expressões como "Oxente, my god"; "Of course que sim" e "É um must" viraram bordões. Renata Sorrah já esquentava seu posto consagrado na teledramaturgia com a prostituta Zenilda, dona de um bordel, no qual foi parar Grampola que era apaixonada por Emanuel vivido por Selton Mello, no final este virou um anjo.

Como Aguinaldo parece não gostar do artifício do "Quem matou fulano(a)?", para movimentar a trama ele requentou o suspense da "Mulher de Branco" que havia em "Tieta" e inventou o cadeirudo, um misterioso maníaco sexual que atacava as mulheres. O artifício foi utilizado novamente na novela "Duas Caras", a qual foi bastante criticada, mas que ainda assim terminou com uma média geral na casa dos 40 pontos.

O único fracasso oficial na carreira de Aguinaldo atende pelo nome de "Suave Veneno", em seguida veio "Porto dos Milagres" que tinha uma audiência consistente na casa dos 45 pontos. Apesar do alto Ibope, dizia-se que a Globo estava insatisfeita com a falta de repercussão. O problema parece ter sido sanado com a volta de Rosa Palmeirão tomando conta de um bordel, afinal de contas naquela época o bordel estava para Aguinaldo, como Humberto Martins sem camisa estava para Carlos Lombardi.

O casal protagonista era formado por Marcos Palmeira e Flávia Alessandra, a verdade é que eles não tinham química nenhuma, acredito que o problema era do Palmeira que não soube construir a personagem, confundiu a esteriotipada malemolência do baiano com lerdeza e fez do seu Guma um zumbi. Já Antônio Fagundes e Cássia Kiss estavam brilhantes, destaque para os primeiros capítulos em que os dois aprontaram em "SEVILLA, ESPANHA (clique ali para ler meu relato de moradia em Sevilla)".

Luiza Tomé, figurinha carimbada nas novelas de Silva antes de ir para a Record, protagonizou duas das melhores cenas do folhetim. A primeira quando vestida de noiva, ela encontra sua irmã morta, pega a espingarda e atira no responsável da tragédia. E a segunda quando no último capítulo Rosa Palmeirão enfia o punhal no peito de Félix (Fagundes) e o mata. Já Adma, a vilã interpretada por Cássia Kiss que matou vários com o seu veneno, tem o seu ápice quando é apedrejada pelo povo da cidade e ao final morre envenenada.

Antônio Fagundes como "Félix" e Luiza Tomé como "Rosa Palmeirão" em cena de "Porto dos Milagres".

Em 2004, Aguinaldo consegue ser dono da novela da década, assim como já havia conseguido nos anos 90. "Senhora do Destino" foi a novela mais vista dos anos 2000. O drama de Maria do Carmo comoveu há muitos, mas o fenômeno desta vez se deveu a antagonista, Nazaré Tedesco. A vilã de Renata Sorrah surpreendeu em todos os sentidos, parecia ser o alterego do autor tamanha sua autoestima. Em frente ao espelho, assim como o Aguinaldão não se poupa elogios no Twitter, Nazaré também exaltava seus atributos: "Loiraça gostosa, gostosona, bocão. Ah, se eu te pego". Será que foi daí que Michel Teló se inspirou? Em outros momentos, Naza se vangloriava dizendo: "Você é má... Maravilhora"; "É impressionante como o tempo só te valoriza". Enquanto se autoelogiava, Nazaré encontrava xingamentos hilários, como: "anta nordestina", "flageladão"; quando foi tentar matar a entediada com um travesseiro, ela questionou: "Será que é crime ambiental acabar com a raça das songamongas?"; ao ver a rival na cadeia disparou: "Eu vou te chamar de Mara... Maracutáia". Roubou a filha e sambou literalmente na cama de Maria do Carmo,  prostituiu-se, jogou vários pela sua escada assassina, feriu com sua tesoura, tocou o terror.

Renata Sorrah em cena como "Nazaré Tedesco". "Naza" para os íntimos.

E para não dizer que ela levou a novela nas costas, o triângulo romântico entre Maria do Carmo, Dirceu e Giovanni Imbrotta rendeu bons momentos. Carolina Dieckman como Lindinalva foi bem aceita pelo público, algo raro, já que os telespectadores tem uma rixa pessoal com a atriz.

E por falar em crítica, ou em cri crítica como diria Aguinaldo Silva, "Fina Estampa" foi massacrada pela imprensa em geral, porém, paradoxalmente segue como a maior audiência desta nova década. "AVENIDA BRASIL (clique para ler a análise)" considerada um sucesso até aqui, terminará com cerca de dois pontos abaixo de "Fina Estampa". Gostando ou não, não há como negar, Aguinaldo Silva continua sendo o senhor do ibope das últimas três décadas.

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